Ao terceiro dia, o Alive convenceu


Três dias depois dos três dias de NOS Alive (tecnicamente acabou no Domingo e longe de mim estar aqui a desculpar atrasos), isto não é suposto ser uma avaliação aritmética dos concertos que por lá aconteceram. Não que eu não seja bom a matemática, mas a diferença entre um 7 e um 8 nem sempre é a mesma para toda a gente.

Começar por dizer que não consegui ver Noiserv e Ben Howard é começar mal. Mesmo sabendo que, pelo que se diz, Noiserv ficou aquém do esperado. Felizmente, cheguei a tempo de Temples e cheguei em boa hora. As fartas cabeleiras de James Bagshaw e seus amigos abanaram e não desapontaram quem tanto os esperava. O mesmo aconteceu com The 1975. Dois bons concertos no Palco Heineken que serviram para acalmar a fome de música que tinha antes de entrar.

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Temples
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The 1975

O estágio para receber novamente Alex Turner e o seu bando do árctico começou logo depois. Umas voltas pelo recinto e um saltinho até Pearson Sound – que ainda antes das 22:00h já puxava bem pelo palco NOS Clubbing – serviram como entretém até à entrada dos britânicos. E aí, foi mais do mesmo. E que isto não seja interpretado de uma forma negativa.

A setlist tinha muito mais do ainda recente AM, misturado com alguns dos já quase clássicos. Para os que nunca os tinham visto ao vivo (e que nunca usaram o Youtube para espreitar como se comportam em frente ao público) parece que a atitude de Alex e companhia causou surpresa.

Senhoras e senhores (ou devo dizer meninos e meninas?): metade daquilo que são os Arctic Monkeys deve-se à lufada de ar fresco que trouxeram com o primeiro álbum e a outra metade é a postura de rockstar do Alex. Interiorizem isso ou pernoitem à porta do Estádio do Dragão para o resto das vossas vidas.

Arctic Monkeys
Arctic Monkeys

Bastou uma pequena distração para perder o início do concerto de Parov Stelar. Chegar ao palco Heineken ao som de Catgroove foi bom e mau ao mesmo tempo. Por essa altura, já toda a gente tinha percebido o que raio passou pela cabeça daquele gajo de fato largo e chapéu para gravar um vídeo e publicar no YouTube, onde tem quase 20 milhões de visualizações. Palmas e movimentos descoordenados aqueciam o palco para a chegada de Booka Shade, que por ser já um repetente na minha lista acabei por não ver.

O segundo dia arrancou, para mim, com The Vicious Five no palco NOS. Com um Joaquim Albergaria dominado pelo espírito paternal, não deixaram de dar um bom concerto, provando que o punk rock português sempre teve saúde para ir resistindo ao longo dos tempos.

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The Vicious Five

Da resistência à nova vaga tuga, passei pelo palco NOS Clubbing onde estavam os D’Alva com Gospel Collective. Seja um pop mascarado de outras coisas ou outras coisas mascaradas de pop, o que é certo é que entretém. Mesmo que ainda assim não me faça chegar a casa com vontade de voltar a ouvir.

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D’Alva

Aproximava-se a hora de The Black Keys e por isso escolhi o canto esquerdo do palco NOS para esperar pela dupla norte americana. Não demorei a perceber que aquele era o canto social, onde as reacções de “Ah, também vieste?” se multiplicavam de 30 em 30 segundos. Por ali fiquei, sem dar muita atenção a MGMT, enquanto elevava expectativas para o que vinha logo a seguir. Algo que não devia ter feito, confesso.

Em Novembro de 2012 estive no então Pavilhão Atlântico e saí de lá feliz. Não em extâse, mas feliz. Na sexta-feira não fiquei convencido. O Dan e o Patrick que me perdoem, mas eles são mais do que aquilo. Não foi péssimo, não foi sequer mau. Foi bonzinho. Mas a transição entre músicas foi demorada. Têm um album novo para apresentar, por isso as músicas do novinho Turn Blue teriam obviamente que estar lá. O que parece que nem sempre está lá é o encanto da guitarra do Dan, presente no “The Big Come Up”.

Raramente aparece alguma coisa do Attack & Release, e por perceberem que o El Camino e o Brothers acabam por funcionar, dificilmente voltarão a pegar nessas coisas com tanto pó como a guitarra do Dan nos tempos idos. Mas é claro que a “Lonely Boy” é capaz de meter toda a gente aos saltos e a dançar. E para mim é óbvio que vou sempre apaixonar-me por aquela guitarra com que o Dan toca a “Little Black Submarines”, como me apaixonaria por uma miúda californiana de patins. Ainda assim, gostava que tivesse sido melhor. Mania minha, talvez.

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The Black Keys
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The Black Keys

A partir daqui e até ao final da noite, os ritmos mais acelerados deram bem conta do recado. Os Buraka no Palco NOS mostraram que divertir o público é o bê-à-bá da sua ideia de espectáculo. SBTRKT e Caribou estiveram também a um nível bem alto, mantendo o palco Heineken a mexer até ao final dos concertos. Não se podia pedir muito mais para fechar a segunda noite no Passeio Marítimo de Algés.

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SBTRKT
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Caribou

O terceiro dia, que tão ansiosamente aguardou por um cabeça de cartaz, foi por muitos descrito como o dia do palco Heineken. Subscrevi e assim o cumpri. Quanto ao cabeça de cartaz, por tantos contestado, o Guilherme falou deles aqui.

Distraí-me e de repente, quando cheguei ao recinto, já tinha perdido Cass McCombs e também The War on Drugs. As sensações de quem viu e ficou pelo palco eram boas. Pelo menos, avaliando pelos comentários que se ouviam em português, inglês e espanhol nos momentos que antecediam o concerto de Unknown Mortal Orchestra. Na verdade, Unknown Mortal Orchestra era mesmo o que eu não queria perder, apesar das críticas menos boas do último concerto que deram no Porto.

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Unknown Mortal Orchestra

O início deixou-me meio nervoso. Duas falhas de som chegaram para eu pensar que aquele não era o dia dos neozelandeses. Felizmente, enganei-me. Um solo de bateria bastante apreciável serviu para arrancarem para um concerto muito bom, que começaram a consumar com as interpretações de Monki e From The Sun. Os primeiros coros tinham já sido por isso arrancados quando chegou “So Good At Being in Trouble”, para gáudio do palco Heineken. Miúdas às cavalitas, braços no ar e a confirmação de que o que podia ter corrido mal acabou por correr muito bem.

A meia noite marcava uma hora de indefinição. Cinco minutos antes das 12 badaladas começava Daughter no palco Heineken e dez minutos depois havia Jungle no NOS Clubbing. Dividi-me como me foi humanamente possível, o que significa que ainda consegui ouvir a “Amsterdam” no palco Heineken, antes de seguir para o NOS Clubbing. E acho que não devo arrepender-me da escolha. Os britânicos estiveram a um bom nível, com movimento em palco e uma pista a corresponder ao bom perfume electrónico que nos trazem das terras de Sua Majestade. Logo depois havia Chet Faker no palco Heineken e as últimas e melhores três horas dos três dias de Alive estavam prestes a começar.

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Chet Faker

Nos dias anteriores, e entre cada concerto, era mais ou menos fácil circular dentro da tenda do palco Heineken. Quando percebi que nesse dia o trânsito estava bem mais engarrafado pensei que algo de bom se adivinhava. E assim foi. O australiano Nicholas Murphy, que todos tratamos por Chet Faker, já tinha ficado surpreendido quando a sua actuação no Lux lhe mostrou que o seu sucesso em Portugal era maior do que esperava. Mas acredito que não estava à espera de ser novamente surpreendido pelo público português.

Cartazes, grandes coros, palmas espontâneas, pessoas no ar. Havia de tudo e Chet Faker fez por merecê-lo. Falou com o público de uma forma próxima, brincou e deu o seu espectáculo. O resto foi acontecendo naturalmente. E acho que esse é um bom elogio. Pareceu natural e também por isso o palco Heineken esteve ao rubro.

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Nicolas Jaar

A fasquia estava agora bastante elevada para receber Nicolas Jaar – um visitante mais frequente do nosso país, podendo por isso o entusiasmo ser menor em relação a ele. Para mim, era exactamente o mesmo. E se, como parte integrante de Darkside, já tinha agradado bastante no NOS Primavera Sound, Nico fez questão de repetir a façanha a solo, como quase sempre se apresenta. O ecletismo que transpira é sinónimo de qualidade e o reconhecimento mais ou menos generalizado disso mesmo é completamente merecido. Teve o palco Heineken na mão e até ofereceu um encore.

“Fechar com chave de ouro”, “a cereja no topo do bolo”, “o melhor ficou para o fim”, “last but not least” – usem a frase feita que quiserem. Para mim, dificilmente o NOS Alive podia ter acabado melhor.

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