NOS ao mesmo tempo


Quatro paredes de um rosa que parece escuro, porque é de noite, decoradas com janelas rectangulares – três filas de contornos brancos que se recortam a si mesmos e que circundam toda a área – mas onde se pode ver o céu. Não é um quadrado perfeito, porque um dos supostos vértices é ainda uma aresta – uma aresta que corresponde ao palco que, nesta noite, acolhe os músicos que vieram tocar à Central Station (pátio interior da antiga central dos Correios de Lisboa, na Praça D. Luís).

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Às 23h00 já só se viam cabeças na zona junto às grades que separam o público do palco. Contudo, o mesmo não acontecia mais perto da entrada – algo que não levantaria suspeitas se não estivessem prestes a entrar os Dealema (um dos mais antigos grupos de hip-hop português), a minutos de comemorar o seu 18º aniversário.

Umas horas antes – 21h00 – este mesmo palco havia recebido a “mão pesada” de Capicua, que trouxe consigo Marta Bateira (M7) – a vincada presença do “porte de mulher do norte”. Na plateia havia sempre quem soubesse as letras, mesmo com um medley, inspirado no álbum Sereia Louca, repleto de mensagens adversas aos estereótipos femininos, com “Alfazema” pelo meio, a deixar claro que não é para “cumprir com a puta da expectativa”. Já perto do fim, foi com “Vayorken” – uma versão de Nova Iorque da pequena Ana Fernandes – que o volume do coro – sempre acompanhado com a mão no ar – aumentou.

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O NOS em Palco não se fazia apenas na Central Station. Dentro de um conceito de “1km, 5 horas, 13 locais, 30 concertos” havia muita coisa para ver, pouco tempo para lá chegar. Quem, depois do concerto de Capicua, decidiu mudar de ambiente, pôde observar a fila de acesso ao espaço que, dando a volta ao edifício, ainda se estendia pela Rua de S. Paulo. As ruas do Cais do Sodré seguiam no mesmo sentido: pessoas por todo o lado. Mesmo assim, no meio dos apertões e “dá-me licença?” chegou-se ao MusicBox onde já se ouviam os ritmos electrónicos de Sequin.

A menina que já havia animado a piscina do Milhões de Festa e o palco da loja Delta Q – Avenida – no Vodafone Mexefest (bem como D’Alva – no Palácio da Independência) apresentou-se, desta vez, no fundo de uma sala escura – com um guitarrista e um teclista – rodeada por três grandes ecrãs, que exibiam o logótipo colorido da NOS em permanente movimento circular. “Vamos dançar?”, perguntou. Os cabelos, inicialmente bem apanhados do lado esquerdo da face, acabaram por não resistir a tanto movimento de braços e pernas. A escuridão foi interrompida por um conjunto de luzes azuis apontadas ao público e ouviram-se os primeiros ajustes de “Peony”.

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De regresso ao largo de São Paulo, o número de pessoas aumentou significativamente. No palco estavam os You Can’t Win Charlie Brown, a alertar para a falta de um dos elementos. O concerto fez-se com cinco, mas fez-se bem, com pessoas a assistir perto do palco, longe do palco, nas varandas, na estrada e, num espírito “out of the box”, um pequeno trepou para cima de um marco do correio, com a ajuda do pai que o amparava com as mãos na cintura – é o mais alto, agora.

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Então, 23h00. Os Dealema prestes a entrar numa sala não muito composta. Do lado de fora da Central Station, três seguranças guardavam os portões castanhos – ninguém entrava e ninguém saía – em frente a um mar de pessoas com ânsias. Do lado de dentro, aqueles que conseguiam passar faziam uma festa, com direito a abraços e beijos – e cumprimentos de 30 segundos (coisas que envolvem difíceis movimentos com as mãos).

Uma situação complicada que para além de ter provocado algumas (muitas) desistências – o que era expectável, uma vez que tendo em conta a área do recinto se tornava impossível albergar toda aquela quantidade de gente – impediu que mesmo os que ficaram conseguissem assistir ao concerto na íntegra. Mas deu-se início a “mais um colóquio dealemático”, com os cinco rapazes – homens, agora – numa onda depreciativa face ao rumo que o hip-hop tem tomado. “Nós estamos cansados de toda esta teia que nos envolve”, ouviu-se com a Escola dos 90.

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António Zambujo – o senhor do fado alternativo que até já arrancou elogios a Caetano Veloso – deu o concerto mais longo. Das 21h30 até às 00h00 partilhou o palco NOS da Praça do Município com a fadista Ana Moura, Luísa Sobral – cantora e compositora numa vertente jazz, que voltou a gerar furor com a sua imitação do trompete – Miguel Araújo – que levando as mãos entrelaçadas à boca também produziu sons – e com o Rancho de Cantores da A.N.S.B. Era, possivelmente, o palco mais completo: desde efeitos de luzes que alteravam entre um mapa dinâmico da disposição dos concertos e ambientes que renovavam o aspecto da Câmara Municipal, a ecrãs complementares que permitiam o bom visionamento do espectáculo. O público, mais maduro, derretia- se ao som de “Lambreta”. “Só espero que a minha mãe esteja a ver isto”, afirmou António Zambujo enquanto olhava com olhos de criança embevecida para uma plateia repleta de telemóveis que, a todo o custo, tentavam captar os seus movimentos em palco.

Às 02h00 já não se via nem metade das pessoas no Cais do Sodré. Foi rápida a dispersão – depois de quinta vem sexta e sexta é dia de trabalho. Ou então é simplesmente um mau dia para ficar pelo cais. Homens vestidos de preto começavam a desmontar os palcos.

(fotos: organização NOS Em Palco)