Óscares 2014: como o previsível foi divertido


O Shifter viu a noite dos Óscares pelos olhos da Rita Pinto e do Miguel Mestre. São eles os nossos críticos de serviço, ainda que não sejam propriamente os maiores especialistas na matéria. Na avaliação da 7ª Arte, o gosto pessoal e as referências de cada um são claramente o que dita a opinião. Sendo que nenhum tem formação ou muita experiência no assunto, é nessa opinião que o artigo se baseará. Tornar isto demasiado profissional seria estranho e para isso já basta o facto de estarmos a escrever este texto maioritariamente na 3ª pessoa.

1 – (Quase) Intro

Falando do que realmente importa, a noite de ontem não trouxe grandes surpresas. As que trouxe, talvez tenham sido pequenas lufadas de ar fresco, sempre bem-vindas no que à Academia diz respeito. Sim, a Academia continua longe de ser uma instituição soberana e incontestável. Mas não vamos falar do lobbying que estas distinções podem envolver – aquilo que os mais cépticos por vezes caracterizam (exageradamente, talvez) como um bando de multimilionários que trocam prémios entre si. No fim de contas, o nosso gosto por Cinema – e esperemos que o vosso também – é o que nos leva a estar aqui a escrever sobre ele, por isso deixemos essas teorias para quem queira falar sobre elas.

2 – Ellen DeMaster

Se as nossas apostas valessem dinheiro, a noite de ontem tinha sido um fartote. Ou melhor, acabou mesmo por ser já que a Ellen deu uma informalidade à cerimónia que tornou a coisa muito mais divertida. Por já terem sido convidados do seu programa, ou por amizades e conhecimentos próprios de Hollywood, o que é certo é que a mestre de cerimónias tornou o cenário numa autêntica reunião familiar. Mas vamos (finalmente) ao que importa.

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Ellen

3 – Os derrotados

Começar pelos derrotados talvez seja uma boa forma de arrumar cedo o assunto dos mais infelizes da noite. As muitas nomeações de American Hustle não eram sinónimo de vitória alguma, mas com as possibilidades multiplicadas por 10 deve doer um bocadinho mais ficar em branco.

Aqui, as opiniões divergem. Para a Rita, e para quem tinha as expectativas altas suportadas pela preferência pelos actores, gosto pela temática dos anos 70 e gosto recente pelo realizador, o filme fica aquém. David O. Russel parece querer chegar algures onde não chega e talvez o casting de excelência tenha sofrido com isso. Ainda assim, o realizador tem a seu lado a fórmula para o sucesso, com Bradley Cooper e a mais recente girl next door Jennifer Lawrence. Os seus meninos de ouro são a chave para qualquer produto que tenha imagem. Ah, mas aparte da imagem, a banda sonora também era muito boa.

O Miguel, como muito outros, encarou a obra de pé atrás. A expectativa também era grande, mas depois de ter ouvido tantas vezes a palavra flop ligada ao filme, o entusiasmo resfriou. No final, isso acabou por ser benéfico.

É verdade que David O. Russel não consegue transmitir tudo o que quer, mas acaba por conseguir uma obra equilibrada em quase todos os aspectos. As intenções estão lá e conseguem ser mais do que tentativas falhadas. A juntar a isto, as performances de todo o casting são acima da média. Não é o filme do ano, mas está bem longe de ser um mau filme. Keep on trying, David.

4 – Menção honrosa

Para os Lobos de Wall Street, Martin Scorcese e Leonardo DiCaprio, vai uma espécie de menção honrosa. Ambos veteranos nestas andanças, ambos Personas Non Gratas pela Academia, mereciam um pouco mais que o nome no cartão dos nomeados. Talvez Leonardo DiCaprio nunca tenha tido sorte com os colegas com quem partilha a distinção, e desta vez o prémio entregue a Matthew McConaughey foi mais que merecido, mas alguém que consegue rastejar pelo chão durante 5 minutos para entrar num Lamborghini branco sem (quase) perder a postura, merecia um pouco mais.

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Leonardo DiCaprio na passadeira vermelha

5 – Actores secundários, paixões platónicas e conselhos sábios

Na área das performances individuais, apareceu a meia-supresa da noite. Lupita Nyong’o bateu Jennifer Lawrence na categoria de Melhor Actriz Secundária, para tristeza de um dos comentadores. E não, não foi do comentador masculino. A Rita confessa estar perdidamente apaixonada pela miúda de Louisville e, por isso, gostava de poder distinguir as duas. O Miguel não aprecia a martirização da personagem de 12 Years a Slave, mas também não ficou particularmente impressionado com a Jennifer. Escolha justa, portanto. Na categoria de Melhor Actor Secundário, nada a dizer. Escolha acertada e de acordo com a opinião dos comentadores de serviço. Já agora: Jared, tu és mesmo bom actor. Pensa nisso.

6 – Estrelas da companhia

Saltando para as estrelas da companhia, as escolhas foram as esperadas. Cate Blanchett venceu sem surpresas na categoria de Melhor Actriz Principal, bem como Matthew McConaughey na categoria de Melhor Actor. Di Caprio, com já referimos, volta a ficar-se pelas palmadinhas nas costas. Um exemplo prático do nível a que estiveram as figuras masculinas dos filmes deste ano, com Matthew como expoente máximo.

7 – Gravity e a técnica

As categorias técnicas acabaram por premiar aquele que foi o filme mais laureado da noite. Gravity, com particular destaque para Alfonso Cuarón, arrebatou 7 estatuetas, na sua esmagadora maioria relacionadas com o enorme exercício técnico que é esta obra. Mas também aqui, as opiniões dos nossos críticos acabam por ser divergentes.

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Alfonso Cuáron foi distinguido como Melhor Realizador com Gravity

A Rita admite que não criou nenhum tipo de ligação com o que o Alfonso nos apresenta, e talvez por isso diga mesmo que o resultado final não lhe pareça bom enquanto filme. Reconhece e louva o trabalho técnico que envolveu a produção, mas não é um filme que a entusiasme particularmente. Ainda assim, aceita e acha justas todas as distinções conseguidas.

O Miguel assume a responsabilidade de ser o defensor desta causa. É verdade que enquanto história e argumento este não é um filme inesquecível, mas para ele deve ser tido em conta o facto de Cuarón conseguir criar um enredo onde não existe… Nada. Falar da beleza e qualidade técnica do filme seria “chover no molhado”. Mas assistir a uma obra deste tipo num cinema IMAX vale mesmo todo o dinheiro que pagamos pela sessão. A ti que viste o filme em casa, com o portátil no colo ou deitado na cama, fica o conselho: caso algum dia o Gravity volte a estar em cartaz, corre para o IMAX. É provável que aches que viste um filme completamente diferente.

8 – Melhor realizador

Esta foi uma noite em cheio para Alfonso Cuarón. Para além de tudo o que já dissemos sobre Gravity, o mexicano venceu a concorrência na corrida ao Oscar de Melhor Realizador. Como já referimos, David O. Russel não conseguiu concretizar todas as suas intenções e Scorcese tem muito contra o que lutar. Payne não entrava propriamente nas previsões e sobre Spike Jonze e Steve McQueen, falaremos adiante, no espaço particular que merecem.

9 – Her, O filme, A música

O Melhor Argumento Original foi para Her, de Spike Jonze. E tão bem entregue que foi. Her é um filme diferente, com toda a profundidade que este adjectivo pode ter. E é isso que se exige num argumento original. Algo poderoso, capaz de nos agarrar e com que nos possamos identificar. Her consegue ser tudo isso, e se lhe juntarmos uma dose de crítica tão subtil quanto clara e directa, fica difícil não ser fã.

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Spike Jonze venceu o Óscar para Melhor Argumento Original com Her

A banda sonora original do filme, a cargo dos Arcade Fire e de Owen Pallett, merece um parágrafo próprio, assim como merecia um capítulo, teria merecido o Oscar ou todo um novo artigo. Para os que ainda não a ouviram, resta-nos deixar o conselho para que o façam. Senão podem sempre ver a actuação de The Moon Song, de Karen O dos Yeah, Yeah, Yeah’s com Ezra Koenig dos Vampire Weekend na cerimónia de entrega de prémios – são 3 minutos que resumiram bem o trabalho musical de Her.

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Karen O, dos Yeah Yeah Yeahs, e Ezra Koenig, dos Vampire Weekend, actuaram na cerimónia

Como nota final sobre a obra de Jonze, é de estranhar a ausência no leque de nomeados para Melhor Fotografia. Mas parece que ninguém percebeu grande parte dos nomeados daquela categoria, ainda que Gravity tenha sido um justo vencedor.

10- 12 Anos de Escravo ou a consolação de Steve McQueen

Por fim, 12 Years a Slave. Fugindo ao tradicional “last, but not the least”, convém mesmo dar especial atenção ao que Steve McQueen consegue fazer com esta história que tinha tudo para ser apenas mais um filme sobre escravidão nos Estados Unidos. Recebe o Oscar de Melhor Argumento Adaptado e Melhor Filme e o mérito vai obviamente para o trabalho do realizador.

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12 Years A Slave

O talento do inglês é inegável e torna-se impossível não dar crédito ao olhar e à forma como McQueen nos conta todas as “suas” histórias. Acrescentando a isto interpretações como as que conseguem Chiwetel Ejiofor e Lupita Nyong’o, o sucesso só podia ser garantido. Destaque também para Michael Fassbender, menino querido de Steve McQueen, que deve continuar orgulhoso da sua aposta no talentoso teuto-irlandês.

11 – Le Grand Finale

Ainda aí estão? Bem, para os que conseguiram ler o texto até aqui damo-vos uma recompensa: um final sucinto. Mais uma vez, se isto fosse uma lotaria teríamos todos mais a ganhar. Não sendo, até para o ano. Cá estaremos para vos encher de opiniões corriqueiras, sempre com os melhores adjectivos.

P.S. – Queríamos ter falado da selfie da Ellen, mas achamos que já hão-de saber tudo sobre o assunto.

(Por Miguel Mestre e Rita Pinto.)

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