The Wolf of Wall Street


Quando lemos a carta aberta de Martin Scorsese à própria filha, em que transmite a sua visão sobre o que foi, é e será o cinema enquanto arte, percebemos que a relação deste com o meio em que se movimenta faz dele algo mais próximo de um simples Martin do que propriamente de um pomposo Mr. Scorsese.

A paixão que nutre pelo cinema, enquanto parte integrante do mesmo, aproxima-se mais do amor de uma avó pela própria família do que do orgulho que compõe um fundador e CEO de uma multinacional. Felizmente, muito da forma como encara o seu trabalho está espelhado neste Wolf of Wall Street, bem como o cuidado de não cair nos erros para os quais alerta Francesca. O resultado são quase 3 horas passadas entre estados de consciência superior e a pura e simples loucura, com todas as gargalhadas que isso obviamente acarreta. E essas quase 3 horas acabam por ser um dos pontos menos bons da película. Com um início a pique, seguido de mais de uma hora no auge do devaneio, é inevitável que, com tanta coisa para contar, uma boa parte dos espectadores termine o filme a olhar para o relógio.

Voltando ao que de bom Di Caprio e companhia nos proporcionam, a prestação deste é inequívoca. Se é verdade que devia estar mais do que preparado para o papel, já que segundo reza a história foi ele quem, enquanto lia o livro no qual o filme se baseia, resolveu ligar a Scorsese dando conta das ideias que tivera durante a leitura, devemos admitir que o que nível que lhe era exigido não está ao alcance de qualquer um. Quanto à comandita que o acompanha, destaque para um grande Jonah Hill, uns (poucos) furos acima do resto do “gang de correctores” (ou não fosse esta uma obra Scorsesiana) que se apresenta bem ao nível de tudo o resto. Aliás, para os fãs do Italiano de Queens, a ausência de um verdadeiro gang será certamente uma mini desilusão, por muito que Martin deteste a associação do seu nome ao estilo gangster. Essa ausência acaba por reflectir-se também numa crítica social bem mais subtil, para as quais tantas vezes usou os seus famosos ajuntamentos criminosos. Para além disto, a simples e louvável opção de deixar para o espectador a atribuição dos papéis de bons e maus da fita, acaba por lhe dar mais alguns pontos. Ainda que não seja um recurso novo (e como continua a ser difícil encontrá-los), consegue desta forma amenizar o lado frio de Jordan Belfort, apesar de todas as críticas que essa espécie de beatificação lhe valeu.

Um dos conselhos que Scorcese dá à sua dearest Francesca é que não se perca com todos os recursos existentes actualmente. Faz questão de frisar que não são estes que fazem o filme, mas sim quem o conduz. A dica de não deixar que a forma se sobreponha ao conteúdo é algo que segue à risca, como seria de esperar. Mas difícil será esquecer a manobra, tão arriscada quanto bem conseguida, com que Scorsese nos presenteia, precisamente no momento em que o rumo da história passa do êxtase à quase monotonia, normal no desenrolar de acontecimentos verídicos aos quais terá tentado fugir o mínimo possível. Di Caprio e Hill fazem-nos subir a bordo de uma trip patrocinada por uma dose excessiva de quaaludes, numa altura pouco propícia para tal. O conflito interior com que nos deparamos quando a vontade de rir se trava com a estupidez e preocupação, despoletadas pelas irresponsabilidades a que assistimos, é sem dúvida um dos pontos altos de todo o filme.

Juntando a tudo isto pequenos pormenores como a narrativa de Di Caprio directamente para a câmara, ao actual estilo de Kevin Spacey em House of Cards, ou o humor com momentos finos e outros tão explícitos e directos como um bom episódio de Californication, o cozinhado final, ainda que não roce a genialidade, terá que aparecer naturalmente na ementa dos melhores do ano.