“O Sr. Valéry não existiria se não existisse papel”


O escritor português que mais tempo dedica à questão da técnica anda às avessas com a mesma. Esta nova onda do digital não lhe causa preocupações nos livros, mas sim, nos empregos. Além disso, escrever em sequências de zeros e uns é completamente diferente de escrever no já conhecido, e estimado, caderno de capa negra.

Gonçalo M. Tavares não sente com a alma, sente com as mãos. Trata-se de um facto: os seus livros negros – colecção “O Reino” – remetem-nos para um tempo onde o instinto domina a acção. A sua epopeia – “Uma Viagem à índia” – faz-nos perceber que a sabedoria e a moral não são coisas que se encontrem entre os homens. Com o seu mais recente trabalho –“Atlas do Corpo e da Imaginação” – constatamos que, afinal, não somos apenas constituídos por cabeça, tronco e membros.

Acontece que existe também uma diferença nas sensações provocadas pelo toque num teclado de computador – utilizado como uma espécie de piano – e um lápis em contacto com as folhas de papel do seu caderno. Diferenças entre uma mochila pesada e uma mochila leve. E, principalmente, diferenças entre o todo e a parte. Eis a tecnologia a alterar hábitos e pontos de vista. Eis o escritor, que naquele a que chama “o seu esconderijo” percebe que esta coisa da técnica veio para ficar – numa versão mais ou menos apoteótica.

 

Raquel G. Rebelo (RGR): O que é o livro?

Gonçalo M. Tavares (GMT): Concentrando-me. O livro tem a ver com isso: com a concentração. Para mim o livro é uma máquina de isolar as pessoas, de produzir silêncio – na pessoa que está a ler e às vezes, quase instintivamente, nas pessoas que estão à volta -, uma máquina de concentração (no verdadeiro sentido da origem da palavra: com um centro) e é também um espaço de contraponto com a imagem, no sentido em que permite que a pessoa baixe os olhos sobre a leitura, mas, ao mesmo tempo – uma coisa extraordinária – os levante. Ou seja, a pessoa está a ler e alguns momentos após o início da leitura é como se, de repente, a suspendesse ligeiramente e ficasse a pensar em qualquer coisa que teve origem naquilo que leu. Acho mesmo que o mais importante da leitura é esse momento de levantar a cabeça, em que a pessoa, de certa maneira, a partir do que leu cria novas imagens.

RGR: E será que o formato digital, que actualmente conhecemos, consegue provocar essa mesma reacção?

GMT: Quer dizer… Eu já li alguns livros nesse formato. Todas as semanas saem coisas com pormenores e isso só mostra até que ponto não é uma boa invenção. Eu acho que esta coisa de todas as semanas estar a aparecer algo diferente, um pormenor diferente, mostra até que ponto isto ainda é uma coisa muito grosseira, apesar de lhe chamarmos tecnologia. É qualquer coisa de muito mais grosseiro do que o próprio livro. Acho que tem vantagens a um nível de pormenor. Por exemplo, se uma pessoa vai fazer uma grande viagem (recordo-me de as minhas viagens serem viagens de mochila) entre andar de mochila com muito peso ou mochila com pouco peso acho que é preferível andar com pouco – e aí o digital pode ajudar. Agora, em quase todo o resto há uma lógica que se perde por completo, que é a lógica da biblioteca. A lógica de uma pessoa entrar num espaço e ver livros a ocuparem espaço físico, o toque…

RGR: O cheiro…

GMT: O cheiro… Por exemplo: porque é que há livros de capa dura e livros de capa mole? A lógica do livro digital ignora por completo algo que é físico, é corporal. Não é por acaso que existem pessoas que gostam mais de determinados livros com capa dura – e isso nada tem a ver com a página em si, tem a ver sim com as mãos, com o agarrar. Acho que a lógica do livro digital é muito centrada na página – a pessoa está sempre a ver a página e nunca está a ver o todo – o que é uma diferença muito grande em relação ao livro. Se tivermos um livro, podemos abrir uma página ao acaso – 74. Acontece que estamos sempre na posse do livro todo, corporalmente pegando no livro como um todo, sentindo. Rapidamente, podemos folhear. Há aqui qualquer coisa que tem a ver com, ao mesmo tempo, estar na parte e no conjunto. E isso é algo que o electrónico não tem. O electrónico é super-analítico, não é? Enfim. Um computador tem diferenças que eu acho que vão para pior.

RGM: Como por exemplo?

GMT: Por exemplo, a questão do sublinhar. Eu leio muito a lápis. Agora já se pode sublinhar [nos aparelhos tecnológicos], mas há qualquer coisa… É um pouco como o querer substituir. Ler e até a própria arte de escrita não são apenas questões intelectuais ou dos olhos. São questões que envolvem o corpo todo. É completamente diferente estar a pegar em qualquer coisa que é fria. A textura é diferente. Mesmo para quem gosta de pintar: a pessoa sabe bem que é diferente usar uma folha A4 fina ou uma folha A4 grossa. Não é por acaso que existem diferentes tipos de papel. Tem a ver com o prazer táctil, o prazer da mão, o prazer do corpo todo a desenhar (ou escrever). É evidente que podemos ter o acto de sublinhar nos aparelhos electrónicos, mas, quer dizer, não é o lápis.

RGM: Está em causa o prazer do toque no lápis que toca no papel?

GMT: (risos) Eu ando sempre com lápis, mas este que tenho agora nem sequer é um dos que mais gosto (risos). Às vezes depende mesmo da relação entre o papel e o lápis. Há essa questão de a tecnologia substituir os actos – aparentemente todos. Mas perde-se a corporalidade essencial. Esquecemo-nos de que o toque da mão de uma determinada forma num determinado material – quando a mão toca na água, ou quando a mão toca no barro, ou quando a mão toca noutro corpo ou quando a mão toca num livro – é diferente. É a mesma coisa com o sublinhar: conseguimos sublinhar, mas não é o sublinhar que corporalmente nós sentimos. [a tecnologia] Consegue o barulho do folhear, mas não é o toque que nós temos. É como se a tecnologia nos resumisse a dois olhos, duas orelhas, duas mãos…

RGM: Perde valor humano?

GMT: Perde valor humano. É a mesma coisa que substituir um abraço ou um beijo por uma coisa qualquer funcional. No entanto, acho que faz muito sentido para enciclopédias e dicionários.

RGM: Que apelam menos às sensações, portanto.

GMT: Nesse tipo de livros de consulta é diferente. É um bocado absurdo uma pessoa ocupar 10m2 com enciclopédias. Também faz muito sentido para aquela questão de aumentar a letra – ou seja, para determinadas pessoas. Não é qualquer coisa que eu ache inútil ou despropositada. Agora, não acho que substitua o livro por completo. Acho que não foi introduzida de uma forma correcta – a substituição de uma coisa por outra. Porque não é. O livro mantem-se. O livro mantém-se para esta questão da leitura mais próxima – mais física – e o electrónico vem acrescentar muita qualidade em determinados pormenores.

RGM: Mas o livro em formato electrónico não se poderá tornar mais apelativo para os leitores?

GMT: Depende.

RGM: Se nós pensarmos em jornais, actualmente, é rara a pessoa que lê o jornal na sua versão impressa.

GMT: A lógica do jornal não é a mesma.

RGM: Não existe prazer físico ao tocar em um jornal?

GMT: Não. Não é isso. Acho que tem mais a ver com a lógica da notícia. Não me parece que seja uma coisa que possa resistir muito no papel, com o tempo. E também há uma questão complexa nos jornais que se tem de resolver: a notícia é qualquer coisa que nós sabemos de imediato através da internet. Não faz sentido eu estar a ler no dia seguinte a notícia que se soube 10 horas antes. Agora, se se centrar naquilo que não é a notícia em si – reportagem, comentário, opinião – faz muito mais sentido. O problema é: no meu caso, quando há uma crónica que eu quero ler, se eu souber que, porventura, mais tarde, vai sair em livro, eu prefiro aguardar esse lançamento.

RGM: Aí, há o risco de ficar descontextualizada.

GMT: Às vezes os jornais têm edições especiais de 40 páginas com muito conteúdo. O que acontece – e que é estranho – é que é difícil tu as guardares como guardas um livro – uma pessoa não lê um livro, um ensaio, em duas horas. Portanto, como não acaba de ler naquele dia, volta mais tarde – um dia ou dois depois, às vezes duas semanas mais tarde. Pensando num jornal com muito conteúdo, com muitas horas para ler, há algo que tem de mudar. O que me parece essencial é que a mudança do jornal seja uma coisa, não de notícias, mas de conteúdo forte. Contudo, há uma contradição: a pessoa não regressa a um jornal da mesma maneira que regressa a um livro. Ou seja, se pusermos o mesmo conteúdo num livro e o mesmo conteúdo num jornal em que o leitor quer ler algo que seja o equivalente a 20 horas de leitura, a pessoa não regressa da mesma maneira. Para o jornal há um retomar muito mais estranho. É uma coisa muito mais estranha. Eu sinto isso. Eu tenho jornais guardados de edições especiais com muito conteúdo – com ensaios dos melhores autores, etc. – que eu li na altura um ou dois, sei que estão lá textos muito muito longos que eu quero ler, mas que por algum motivo nunca mais voltei. Acho que está relacionado com a própria lógica do jornal e até com o próprio papel e tamanho…

RGM: Então faz sentido a desumanização no jornal mas não nos livros?

GMT: Não no jornal por completo. Talvez nas notícias – de forma mais seca e concreta. Eu acho que o jornal começa depois da notícia. O terrível é termos consciência de que estamos numa fase de transição em que muitas vezes o jornal ainda vai dar aquela notícia que está mais relacionada com o tempo – aquela coisa ao minuto. Mas tem de haver um equilíbrio. Se o jornal for muito denso – falo por mim – eu leio uma ou duas coisas. Há ali qualquer coisa que se calhar até tem a ver com o sítio onde se o arruma.

RGM: Ainda no que respeita ao livro, essa desumanização não poderá também trazer vantagens? Com a tecnologia a organizar os nossos sublinhados e apontamentos, não estaremos a ganhar tempo para investir em outras coisas?

GMT: Começo a sentir uma tendência (risos). Sim, pode ser. Se dedicarmos o nosso tempo a fazer outras coisas pode ser uma grande vantagem. A ideia de que a tecnologia vai libertar o homem para fazer outras coisas… Não me parece que seja isso que está a acontecer. Cada vez mais as pessoas passam horas no facebook, estão cada vez mais dependentes da tecnologia. Essa ideia de que o homem vai ser livre, conhecer pessoas… É uma ideia que é bonita mas não me parece que se esteja a concretizar. A tecnologia tem vindo a exigir ao homem mais horas. Mas é engraçado… Inicialmente a ideia era mesmo essa: a pessoa vai ser livre, vai ser poeta e vai estar disponível para amar e vai ser artista. A tecnologia não nos está a libertar, mas sim a oferecer-nos constantemente coisas que nos levem até ela.

RGM: Somos todos reféns?

GMT: Sim, um pouco. Eu acho que a questão do tamanho da tecnologia é engraçada. No início da Revolução Industrial as pessoas tinham um bocado de medo das máquinas porque estas eram gigantes, ocupavam uns 100m2. O pequeno tamanho das máquinas dá-nos a ilusão de que as dominamos. Nós [ser humano] temos ainda esta ideia muito infantil, que é: sentimos que se somos maiores do que uma coisa a podemos comer e que se formos mais pequenos somos comidos. Tinha-mos muito medo da máquina porque era quase um dinossauro e agora pensamos que dominamos o telemóvel porque o metemos no bolso. Contudo, de certa maneira a lógica de sedução da máquina é tornar-se pequenina e passar despercebida para nos dar a sensação de que nós a controlamos, quando de certa maneira é ela que nos manipula. Mas pronto! As máquinas são extraordinárias e há invenções absolutamente extraordinárias. (toca um telemóvel, risos) Mas, se a maior parte do discurso sobre as máquinas fosse este que eu estou a ter não faria muito sentido eu também as ter. Eu acho é que há uma publicidade gigante – até enganosa – que associa o progresso técnico ao progresso humano – felicidade, etc. Temos de parar e pensar que há realmente progresso técnico que corresponde a progresso humano – medicina, comunicações – mas também há progresso técnico que corresponde claramente a retrocesso humano – há novas máquinas que recebemos com entusiasmo e que são roubadoras da nossa liberdade.

RGM: Quais?

GMT: Máquinas que tirem trabalho às pessoas. Agora começa a haver nas editoras máquinas que põem os livros nos sítios – vê bem a loucura disto. São programadas, vão buscar aquele título específico e arrumam-no na prateleira certa. Máquinas que estão claramente a substituir aquela coisa muito simples de pessoas desempacotarem um caixote de livros e dizerem “estes são aqui e aqueles são ali”. A lógica é: esta máquina vai substituir a função de 10 homens e feitas as contas vai custar menos de 50 euros por mês. Teremos apenas de pagar 500 euros a um funcionário que a controle, mais a sua manutenção. Uma lógica feita em volta do lucro comercial. Se multiplicarmos este exemplo conseguimos perceber aquilo que nos está a acontecer. As pessoas ficam sem trabalho.

RGM: O livro em formato digital é um retrocesso?

GMT: Não.

RGM: Mas desumaniza?

GMT: Um pouco.

RGM: Então?

GMT: É preciso pensar: isto vai criar 10 empregos e destruir mil? Então não. Isto vai criar 1000 empregos e destruir 10? Então sim. É matemático. O problema é que todas as máquinas são introduzidas independentemente do seu efeito. É um pouco a utopia da máquina. Há uns anos li um artigo de uma jornalista que estava super entusiasmada – mas mesmo super entusiasmada – a apresentar uma máquina que conseguia elaborar notícias. Ou seja, estava super entusiasmada a anunciar o seu futuro desemprego.

RGM: E a realidade de escrita? Altera-se?

GMT: No meu caso sim. Muda. Não sei dizer exactamente como, mas sinto que é diferente escrever num caderno ou num computador. No computador há mais embalo. Consigo ficar três horas a escrever ininterruptamente, meio desenfreado, sem parar, sem quase consciência daquilo que estou a fazer. No caderno é tudo mais tranquilo, com pausas. Não dá tantas fúrias com aquela coisa das horas.

RGM: É diferente a escrita…

GMT: E a leitura.

RGM: E se o papel acabar?

GMT: Não me parece que corra esse risco….

RGM: E se?

GMT: E se… Acho que começam a aparecer muitas coisas que simulam até o gesto da escrita – gesto que já é muito antigo. Portanto apesar de tudo, não me parece que a questão do papel seja grave. Contudo, o Sr. Valéry não existiria se não existisse papel.