A música mexeu, a cidade também


Sem castanhas assadas e com menos filas à porta das salas, o Vodafone Mexefest voltou a aquecer duas noites frias do Outono lisboeta. De 29 a 30 de Novembro, a Avenida da Liberdade foi o palco de mais de 50 concertos, espalhos por mais de 10 salas.

No cartaz, estavam nomes como Woodkid, Savages, Márcia, Erlend Oye, The Legendary Tigerman, John Grant, entre outros. E os 20 euros por noite convidavam a sair de casa.

Uma particularidade das reportagens sobre o Vodafone Mexefest é que não existem duas iguais. Isto porque não há um Mexefest, mas vários. Cada indivíduo faz o seu Mexefest, escolhendo os concertos quer e traçando o percurso pretendido. O que não deixa de ser um interessante, principalmente quando surgem escolhas difíceis. É frequente dois concertos de que gostamos se sobreporem, obrigando-nos a optar por um deles ou a assistir a apenas uma parte dos dois. E quando queremos mesmo ver um concerto do início ao fim, sacrificamos sempre outro. No fim, fica sempre aquela sensação de que muito ficou por ver e ouvir, apesar das correrias para cima e para baixo na Avenida da Liberdade.

Dia 1: Márcia, Xungaria no Céu, Savages, John Grant, Wavves e Woodkid

O nosso Vodafone Mexefest começou na Sala Manuel de Oliveira do mítico Cinema São Jorge (estava praticamente cheia). No ano passado, Samuel Úria convidou Márcia, e, neste ano, Márcia convidou Samuel Úria. Um vice-versa para uma abertura de festival que se previa boa, mas que acabou por ser óptima.

Quando chegámos, já o concerto de Márcia tinha começado. Transpirava-se amor, intimidade e boa disposição, enquanto se ouvia “Cabra-Cega”, um tema retirado de Dá (2011). Mas Márcia não estava ali para apresentar músicas de outros trabalhos já bem conhecidos, mas sim para dar a conhecer o novo e muito aclamado Casulo (2013). Nele encontramos, por exemplo, “Menina”, um tema que começou com a doce voz de Márcia mas que a letras tantas convidou Samuel Úria para cima do palco.

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Foi um momento bonito aquele que se seguiu. Úria comprovou a segurança e imponência da sua voz, e não esqueceu a dança muito própria com as suas sapatilhas, que parecem ganhar vida própria sempre que estão à frente de um público atento e dedicado. Seguiu-se “Eu Seguro” um registo íntimo entre Samuel Úria e Márcia, marcado por um engano dos músicos, seguido de uma troca de sorrisos (já vem sendo hábitos os dois enganarem-se neste tema).

O espectáculo prosseguiu com o António Zambujo, mas nós saímos para jantar. Apanhámos o Vodafone Bus e lá dentro encontrámos os portugueses Los Wavves.

Às 22 e picos, passámos pelo Palácio da Independência, onde a Xungaria no Céu mantinha uma confusão organizada. No pequeno palco, uma série de músicos – todos eles da FlorCaveira (a destacar: Alex D’Alva Teixeira, Samuel Úria e Martim) – faziam boa música, davam saltos para cima das colunas de som, e atiravam CDs para o público presente naquela pequena e acolhedora sala.

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Não deu para ficar muito tempo, pois ali bem ao lado começava um dos grandes concertos da noite e de todo o festival. As londrinas Savages já estavam em palco quando chegámos ao Coliseu. Vestidas de negro, como dita a tradição post-punk, as Savages conseguiram encher uma das salas mais emblemáticas da cidade de Lisboa para mostrar o recentemente editado “Silence Yourself”, que lhes valeu uma honrosa nomeação para o Mercury Prize. Com Jehnny Beth na frente, o grupo deu um espectáculo intenso e imponente. “City’s Full”, “She Will”, “I Need Something New”, “No Face” e “Hit Me” foram alguns dos temas mais aplaudidos.

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Seguiu-se John Grant, o homem que transpira simplicidade, paz e descontracção, num São Jorge lotadíssimo. Acompanhado pela sua banda, Grant apresentou Pale Green Ghosts (2013) e revisitou Queen of Denmark (2010) a uma audiência que classificou de “muito bonita” – “particularmente os homens, que é a quem presto mais atenção”, acrescentou. Entre os temas que recolheram mais aplausos e cantorias do público, estão “Marz” e “It Doesn’t Really Matter to Him”.

Descemos até ao Ateneu Comercial. Lá a festa era dos Wavves, a banda que ficou conhecida pelo King Of The Beach (2010) e que lançou este ano o Afraid of Heights. O cenário não poderia ser mais de liceu: distorção no máximo, acústica do pior, rock puro e duro, um palco rudimentar, e um público polvoroso aos gritos e aos saltos, a fazer moshs e crowdsurfings, aproveitando ao máximo tudo aquilo.

Dos putos aos graúdos, ali ao lado, no Coliseu, Woodkid – de seu nome Yoann Lemoine – preparava-se para aquele que viria a ser rapidamente classificado como um dos melhores concertos do Vodafone Mexefest e, muito provavelmente, um dos melhores do ano. O concerto do francês era um dos mais aguardados do festival, o que ficou facilmente comprovado com a maior enchente no Coliseu (imagine-se se o concerto tivesse sido no pequeno Tivoli!). A causa? The Golden Age, o álbum de estreia de Woodkid, editado em meados deste ano.

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Não é que o álbum seja o melhor álbum do ano. Podemos não ser grandes fãs da música de Lemoine, mas este é um daqueles casos em que o que vende é o espectáculo e não propriamente a música. Woodkid montou um verdadeiro aparato visual, com um jogo de luzes incrível e algumas projecções cinematográficas no pano de fundo. E claro, toda a personalidade de Woodkid foi colocada naquele concerto, aproximando público e artista.

Yoann Lemoine não se cansou de agradecer a presença de todos naquele Coliseu, nem tão pouco conseguiu esconder a emoção que estava a sentir por ali estar. Cantou, gritou, bateu palmas, puxou pela audiência, agradeceu… Woodkid soube dar tudo de si, num gesto de humildade e de compaixão, que facilmente consagrou o músico como um novo herói. “Vocês são loucos!”, disse várias vezes. Woodkid soube agradar ao público e a Erlend Oye que lá estava no meio da multidão.

“I Love You”, “Iron” e “Conquest of Spaces” foram muito bem aplaudidos. “Run Boy Run” ficou para o encore, que terminou com “The Other Side”. Aqui Woodkid falhou: “Run Boy Run” roubou inúmeros aplausos e gritos do público, num clima perfeito de final de concerto, mas os ânimos foram todos rebaixados com a calma de “The Other Side”. Assim terminou o primeiro dia do Vodafone Mexefest.

Dia 2: The Legendary Tigerman, Silva, Daughter, Erlend Oye e Discotexas

O segundo dia arrancou mais cedo. Às 19, no São Jorge, The Legendary Tigerman (ou Paulo Furtado) apresentou 9 curtas-metragens da sua autoria e musicou-as com os seus instrumentos. Foram 40 minutos muito intimistas entre o músico/realizador e as cerca de 150 pessoas (não podiam ser mais) presentes naquela sala. Numa altura em que o alta-definição é ponto assente e só se fala em ultra alta-definição, as curtas de Paulo Furtado foram todas gravadas em fitas Super8, daquelas analógicas, à antiga.

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Esta iniciativa que juntou os filmes de Paulo Furtado ao instrumental de The Legendary Tigerman intitulava-se Vodafone Special Series e foi uma das muitas iniciativas da Vodafone no festival ao qual empresa o nome.

Outra delas aconteceu-nos mesmo à saída do São Jorge. Não estamos a falar do chocolate quente oferecido (este ano, nada de castanhas), nem dos lenços do festival distribuídos. Estamos a referir-nos, sim, às Vodafone Music Sessions. São concertos surpresa, exclusivos para 30 pessoas, com um artista surpresa em locais surpresa. Houve duas Music Sessions no festival, uma cada dia. A primeira não apanhámos, mas a segunda não deixámos escapar.

Meteram-nos uma pulseira e conduziram-nos até um shuffle, que rapidamente nos levou até à Praça da Figueira. Descemos ainda sem saber para onde íamos e para o que íamos. Enfiaram-nos dentro da Confeitaria Nacional e sentaram-nos numas cadeiras a olhar para um palco improvisado. Pouco tempo depois, vimos Silva, jovem cantor e compositor que este ano se estreou com o álbum Claridão, a sentar ao teclado, acompanhado por um baterista. E começou o pequeno showcase: 3 músicas.

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(Bem, para sermos sinceros não foi bem assim. Entre chegarmos à Confeitaria e começar o showcase, passaram 30 minutos, pois aconteceu um problema qualquer no som. Algumas pessoas acabaram por desistir – provavelmente tinham concertos na agenda; os que ficaram, ficaram sem a magia que as Vodafone Music Sessions proporcionam normalmente, tendo as 3 músicas sabido a muito pouco para tamanha espera.)

Seguimos para Daugther, no Coliseu. O trio britânico – Elena Tonra (voz) Igor Haefeli (guitarra) e Remi Aguilella (bateria) – que nesta noite foi complementado por um quarto elemento apresentou If You Leave, o álbum de estreia, lançado este ano. Os Daugther fizeram-nos lembrar rapidamente os The XX, não só pela suavidade sentimental da música, mas também pelo carinho simpático transmitido pelo público. Esse carinho, diga-se, surpreendeu a própria banda, que não deixou de transparecer alegria por ali estar. Elena Tonra, a vocalista, teve mesmo de interromper uma canção para, com um riso nervoso, ganhar fôlego para continuar. Entre as músicas, “Youth” e “Smother” muito bem recebidas.

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A paragem seguinte foi no São Jorge. Quando lá chegámos, o concerto tinha começado há coisa de 10 minutos, se não tanto. A sala estava esgotada e existiam filas à porta. Uma inglesa veio, do nada, ter conosco. “Estou desiludida. Paguei 40 euros para este e outros concertos e não consigo entrar. Isto é mesmo uma organização à portuguesa”, desabafou. “Isto não é um festival só para jornalistas”, acrescentou, depois de observar que apenas os jornalistas estavam a conseguir entrar. O porquê de tanta confusão? A resposta é simples: Orlend Oye.

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O norueguês conquistou a empatia do público português em 2011 em Paredes de Coura quando decidiu andar de barco em pleno Rio Taboão. Oye mostrou-se como um músico sem medo de estar junto dos fãs e eles gostaram disso. Por isso, agora basta o nome para um concerto seu, com ou sem Kings Of Convenience, atrair multidões. A música, essa, é boa. Todos gostamos dela.

Erlend Oye viu a sua tarefa facilitada neste Vodafone Mexefest. Não teve de criar empatia com o público, porque já a tinha criado. “É fantástico estar aqui. É fantástico vocês quererem ouvir música e eu tocar música”, disse no início a uma plateia preenchida.

Oye apostou num formato minimalista, sem baixo, nem bateria; apenas duas guitarras (a dele, e a do italiano Maurício – que “não fala inglês, mas sabe sorrir e tocar guitarra”) e uma flauta (soprada por Victor, que conheceu em Berlim). Victor e Maurício são os substitutos da banda de reggae com quem Erlend tem estado a gravar a solo, La Prima Estate, na Islândia: “não é fácil trazê-los em digressão”, disse. Aliás, foi este mesmo álbum que trouxe o músico norueguês, a viver em Itália, a Portugal: veio para o mostrar.

“Desenvolvi um gosto pela música italiana”, revelou Erlend Oye, antes de apresentar duas músicas na língua romana: primeiro, “Grande Grande Grande” (“muito conhecida em Itália”), e depois uma escrita pelo músico (“esta ainda ninguém ouviu”). No restante concerto, também se ouviu italiano. Aliás, é esta a língua dominante no novo álbum.

Erlend Oye confessou a músicas tantas que estava a gostar imenso daquele festival, principalmente pelo facto de conseguir ver concertos em locais antigos da baixa lisboeta. Oye esteve no concerto dos Savages e no dos Woodkid, e consegui ouvir o último acorde dos Wavves.

Naquele concerto, sinta-se simplicidade e tranquilidade. Oye disse estar a apostar em concertos mais calmos e silenciosos, baseados na palavra e nos pequenos pormenores sonoros, traduzindo-se num ambiente de intimidade entre músico e público. Victor, durante uma música nova, intitulada “Fence Me In”, teve um percalço: o microfone do instrumento caiu 3 vezes, interrompendo a música. Mas o problema foi rapidamente ultrapassado com o improviso de Oye e o apoio do público que aplaudiu Victor quando este regressou ao palco. Maurício, por seu lado, impressionou tudo e todos ao interpretar a solo a sua versão de “Tarde em Itapuã”, com um português do Brasil fluente, mas com um toque italiano.

A festa alegre e primaveril terminou com o tema título do novo álbum, “La Prima Estate”, que levantou a plateia. A canção revelou não ser um single de concerto sem baixo nem bateria, tendo existido ali músicas mais interessantes para essa posição. “La Prima Estate” suou a pouco ao vivo, não descurando ser uma excelente malha no disco.

Já passava das 23 e meia e fomos jantar (porque no Mexefest não há tempo para comer, andamos sempre de um lado para o outro). Ouvimos um pouco da pop de Oh Land, que actuava pela terceira vez consecutiva neste festival, enquanto empurrávamos uma bifana no pão pela garganta abaixo com uma imperial. Seguimos para o São Jorge para os últimos 10 minutos de The Legendary Tigerman. “Isto a partir daqui não faz sentido convosco sentados”, disse quando lá chegámos. Praticamente ninguém se levantou, mas Paulo Furtado insistiu: “Imaginem que essa é a cadeira do Passos Coelho.” O São Jorge meteu-se rapidamente de pé para os últimos cartuxos de um concerto que pareceis estar intenso.

O Vodafone Mexefest terminou no Coliseu com um Picnic, o Picnic da D.I.S.C.O Texas. Da Chick, Moullinex e Xinobi mantiveram os festivaleiros aquecidos até às 4 da manhã.