A vontade de viver pesa 17 quilos


Torstein Lerhol é um exemplo. Desde logo, porque se considera um “optimista por natureza”. Teve uma “infância feliz” na pequena cidade de Vang, na Noruega, de onde é natural. Aos 16 anos teve de sair de casa dos pais para continuar os estudos e ingressar no ensino superior.

Formou-se. E actualmente faz parte do partido de centro-esquerda norueguês Senterpartiet. Antes, já tinha sido treinador de futebol. Já viajou pelos Estados Unidos e por vários países da Europa, onde é orador em palestras de auto-motivação.

O político confessa que um dos melhores momentos da sua vida aconteceu quando subiu ao topo de Torre Eiffel. Levado ao colo, pelo pai. “Fiquei com borboletas na barriga, e o sentimento de ser diferente desapareceu”, desabafa.

Com 27 anos Torstein Lerhol pesa apenas 17 quilos. Sofre de uma doença degenerativa muscular. Uma atrofia muscular, de origem genética, que faz com que os seus músculos desapareçam gradualmente. Uma doença que não tem cura e que provoca sintomas bastante severos. Apesar do problema ter estagnado, Torstein é apenas pele e osso, fisicamente. Necessita de assistência diária, 24 horas por dia. Faz exercícios de alongamentos todos os dias, para ajudar a manter os músculos que ainda lhe restam. Totalmente dependente dos assistentes que o acompanham permanentemente, o jovem de 27 anos está sempre ligado a um ventilador que lhe ajuda a expandir os próprios pulmões. Congratula-se com a ajuda do aparelho, pois, sem ele, não conseguiria eliminar os níveis elevados de dióxido de carbono que o organismo consome. Não conseguiria respirar.

A história é contada na primeira pessoa, num pequeno texto que escreveu ainda enquanto estudava ciências políticas.

“Eu acredito que o mundo, como um todo, nunca mudará a forma como vê a beleza, mas todos nós devemos fazer aquilo que estiver ao nosso alcance para mudar as mentalidades à nossa volta. Para torná-las conscientes de todos os diferentes tipos de beleza que existem, e não apenas dos tipos que vêem na televisão ou nas revistas, interminavelmente focadas em celebridades, modelos e em obter um corpo perfeito. Porque é que o foco não pode estar no ser humano, na sua personalidade, na sua força e nas suas habilidades?”

Inconformista e com uma paz de espírito arrepiante. Torstein Lerhol aceitou o desafio do fotógrafo Henrik Fjørtoft e participou, no ano passado, num ensaio fotográfico no qual aparece nu, numa floresta. O trabalho foi publicado este ano, no diário norueguês Verdens Gang.

“Queria mostrar (com as minhas fotografias) que o culto da beleza na sociedade contemporânea é um pouco superficial e ilusório”, afirma o também político.

A ideia de convidar Torstein para uma sessão de nu artístico nasceu quando Henrik Fjørtoft ainda trabalhava como assistente do político norueguês: “Enquanto fotógrafo, eu queria retratar Torstein como um ser humano fabuloso e forte, e mostrar que o seu aspecto é apenas uma faceta da sua existência. Ele não é Torstein, o deficiente. Ele é Torstein, o homem, o irmão, o filho, o amigo, o professor, o político, e muito provavelmente o tipo mais inspirador que alguma vez eu conheci”, confessou o fotógrafo numa entrevista concedida ao site P3, do Público.

Este ensaio fotográfico foi divulgado em várias outras publicações norueguesas, assim como em publicações da Suécia e da Dinamarca. Para além disso, a dupla tem já em mente um documentário sobre a vida de Torstein, que deve estar concluído no próximo ano.

Num mundo que implora constantemente novos heróis, Torstein Lerhol considera-se “a prova viva de que não é preciso ter boa aparência ou ser um rapaz digno de um poster para se ter sucesso ou uma vida plena”. Um murro no estômago, com 17 quilos.