±SELLOUT±


Quando conheci ±MAISMENOS±, o artista, pedi-lhe que me autografasse com o seu logo típico o meu bíceps direito. Hoje em dia vive uma tatuagem nesse bíceps, tatuagem que também já foi decorada pelo seu logótipo. Parte do meu fascínio pelo artista é este símbolo, será uma anulação que reflecte o consumo como um estado de espírito nacional e internacional?

Aliás, num espectro mais amplo, parte do meu fascínio pelo mundo movido a marcas e a compras é também a brevidade do acto de compra e o seu entusiasmo ou êxtase; a dualidade de ±MAISMENOS± interpreta-a e eleva a questão a arte. Acredito que elevação, evolução e revolução na forma como se aborda a marca e a compra seja necessária, afinal é a constante que vivemos.

Esta minha relação com o logótipo, com a nódoa da marca e com o juízo feito primeiro à marca, depois ao conjunto, é muito peculiar, mas não me parece que seja o único que sofra com ela; é um mal dos tempos. A minha relação, com o ±MAISMENOS±, atenta e atenciosa, deixa-me também com a obrigação de escrever a sua acção e carácter, em adjectivos algo como nobre ou justa, termos tão terroristas nestes tempos.

Tornei-me amigo do Miguel, quando já era admirador do ±MAISMENOS± e a consequente separação entre indivíduo e artista permitiu-me uma visão mais atenta às temáticas interpretadas e à forma como eram interpretadas. Permitiu-me também ter uma noção alargada da sua obra.

E se essa obra veio a público com muita força através do enterro de Portugal, ato mediático e com um peso artístico tremendo, não deixou de ser divertido o quanto a linguagem de ±MAISMENOS± se cruzava com a do país moribundo. Ora, a crise, os decisores externos, a miséria, o tudo e o nada, eram de todos. Não eram só discurso de ±MAISMENOS±, ou reflexão acerca do mercado, eram Portugal.

Suspeito que é aqui que uma exposição ±SELLOUT± se começa a tornar necessária. Um artista sem rosto torna-se o rosto de um estado de sítio que se vive. Há manifestações e escreve-se silêncio, em maiúsculas, na Rua do Alecrim. Há brutalidade policial e um Fernando Pessoa que se torna jornalista. A arte afirma-se, com estilo, com conceito e com raciocínio.

Eram um crescimento comparado com as frases clássicas de ±MAISMENOS±, mas elas voltam para me ameaçar a mim, e aos outros escritores que se prezam, de tão incisivas. Também tão incisiva e com uma maturidade notória é a exposição ±SELLOUT±, onde convivem bandeiras, caixões, património, balas, dívida. Vende-se tudo e vende-se nada, não é?

Junto do coolturelle de Lisboa de meados dos anos 10, assisti à inauguração da exposição a solo de um artista que respira o diálogo internacional e actual, mas não perde os detalhes à portuguesa, o portuguesinho dos costumes e o típico português; à escala global, à Amadeo de Souza Cardoso.

Afinal, temos todos estes dramas, mais ou menos.

Fotos de Maria Rita.