Kevin Spacey: “a audiência quer o controlo”


O actor premiado com dois óscares Kevin Spacey, que dá vida a Frank Underwood na série House Of Cards, enalteceu a estratégia do Netflix como o caminho certo rumo ao futuro da TV, desafiando os canais de televisão a dar à sua audiência mais poder de controlo sobre os conteúdos. O discurso foi feito durante o Edinburgh Television Festival, que decorreu de 22 a 24 de Agosto, na capital escocesa.

Quando o House Of Cards, de David Fincher e Kevin Spacey, saiu no início deste ano, ele deu que falar não só por o Netflix estar a criar conteúdo próprio de alta qualidade, mas também por terem sido disponibilizados todos os episódios de uma só vez, tudo com uma segunda temporada já definida.

Segundo Spacey, não faz sentido o modelo em que os produtores de conteúdo elaboram um episódio piloto e só depois, se esse piloto for aceite, é que avançam para a construção da série. “Nós corremos todas os grandes canais de TV com o ‘House of Cards’, e todos eles pareceram interessados na ideia, mas todos eles queriam que fizéssemos um piloto primeiro… Não foi pela arrogância que eu, o David Fincher e o Beau Willimon não quisemos fazer esse piloto, foi porque queríamos começar a contar uma história que levaria algum tempo a ser contada. Nós estávamos a criar uma história sofisticada, com vários planos de acção, personagens complexas que se revelariam ao longo do tempo, e relações que necessitariam de espaço para se desenvolverem. E a obrigação, claro, de fazer um piloto, do ponto de vista da escrita, é que se tem de em cerca de 45 minutos estabelecer as personagens, criar tensões arbitrárias e basicamente provar que aquilo que estamos a definir irá resultar.” Diz o actor que são feitos inúmeros pilotos, a custar milhões de dólares, para depois só alguns deles serem transformados em séries. Isto torna as duas temporadas de House Of Cards, de início definidas, de facto, rentáveis.

Para Kevin Spacey, o sucesso do modelo do Netflix – lançar uma série de uma só vez (um exemplo: House Of Cards) – provou que a audiência quer controlo, liberdade: se ela quer ver a série de uma só vez, de seguida (como o fizeram com House Of Cards), devemos deixá-la ver. O Netflix está a mudar a nossa relação com a TV de forma profunda. No entanto, o actor alerta para que o facto de ser um perigo pensar que algo que está a funcionar agora irá funcionar, por exemplo, daqui a um ano.

O actor acredita que este modelo do Netflix conseguirá salvar a indústria televisiva da pirataria, algo que a indústria musical não conseguiu por não ter aprendido a lição: dar às pessoas o que elas querem, quando elas o querem, na forma que elas querem, a um preço aceitável, de forma a que elas paguem por isso e não o roubem.

Segundo Spacey, a diferença entre cinema, televisão e streaming online está a desfazer-se e a tendência é para se sumir: um filme não deixa de ser um filme só porque é visto num iPad, por exemplo. No fundo, o equipamento e o tamanho do ecrã não importam; importa, sim, o conteúdo (a história), que é o mesmo independentemente da plataforma. A TV tradicional precisa de se adaptar ou corre o risco de perder a sua audiência e, assim, uma grande oportunidade de negócio.

Spacey terminou a sua intervenção com uma frase de Orson Welles: “Detesto a televisão. Detesto-a tanto como detesto amendoins. Mas não posso deixar de comer amendoins.”