Vampire Weekend – ‘Modern Vampires Of The City’


Quando comecei a ouvir os primeiros leaks do novo – terceiro – álbum de Vampire Weekend, Modern Vampires Of The City, fiquei atónito com o quanto encharcado estava o Ezra Koenig de auto-tune. Afinal, nos dois registos anteriores da banda (o homónimo de 2008 e Contra de 2011), a produção era de muito bom gosto, com sabor a África e a tudo o que de febril uns rapazes da universidade de Columbia conseguiam fazer. Foi com essa sonoridade à Vampire Weekend que conquistaram multidões, por muito betinhos ou indies que fossem. O que me surpreendeu, mais que o auto-tune, foi o quanto o auto-tune estava a ser bem empregue no tema.

O tema em questão era a Diane Young, acompanhada do que podia ser um gif em perfect loop, exibindo um Saab 900 a arder (que levou ao grupo de amigos do Saab 900 a ficarem muito ofendidos com a banda). A música tinha um ritmo incrível (quase a-punkiano), fugindo muito bem da tal onda mais Ivy-league à africana que ainda sobrava do Contra.

Quando comecei a ouvir o disco já estava relativamente animado, porque também o lançamento antecipado da Step, honrando Souls of Mischief com um sample delicado e dedilhado (quem está comigo na luta da 93 ‘till Infinity como melhor Hip Hop californiano dos 90’s percebe este encanto). Estes dois primeiros temas mostravam os Vampire Weekend com as letras narrativas habituais numa musicalidade, possivelmente, melhorada.

Com um grande sorriso digo que o resto do disco confirmou a tendência positiva. Prestando atenção às faixas, descobrimos que se calhar o Rostam Batmanglij, a trabalhar pela primeira vez com outro produtor, atingiu um patamar de songwriting ainda mais alto. Não tanto por falta de mérito próprio, talvez pela possibilidade de incluir elementos sonoros pouco habituais – A Hudson tem ecos que nunca adivinharia e a Unbelievers é ainda mais Springsteen que o habitual –, mas definitivamente pelo bar aberto de sintetizadores que alinham a banda com fresco e com a pop.

A meio do disco chegamos à Hannah Hunt. Fogo!, será a melhor música de sempre de Vampire Weekend? Toda a sumptuosidade instrumental que aparecia na Run e na Campus a revelar-se num belíssimo piano, no tal banho de sintetizadores à vampiros modernos e com espaço para esta pérola lírica: “Though we live on the US dollar, you and me girl, we’ve got our own sense of time”. Foi a bala de charme num disco que tem traços tão limpos como a Futura que utilizam, mas que também pede à imaginação planos estilo Wes Anderson, preferencialmente com cardigans, sapatos engraxados e romance ao pôr do sol lá para os Hamptons.

Ora, o meu eu literário é totalmente apanhadinho por letras; as do Ezra estão no meu top de boa escrita com toda a facilidade e neste disco estão disponíveis para todos os gostos. Destaquei a Hannah Hunt, mas não consigo evitar fazer um quote da xaroposa Everlasting Arms: “hold me in your everlasting arms, looked up full of fear, trapped beneath the chandelier, that’s going down”. Palavras vivas que vivem ainda mais quando musicadas.

Para além disso devo assumir o meu apreço enorme pelo Ezra Koenig, não só por odiar o reflexo fantasmagórico que os New Balance deixam nas fotografias (problema sério do universo hipster/faux cool), não só pelo like que fez no meu instagram quando postei a capa do meu Contra em vinil e não só pelo seu inglês canónico. A verdade é que da Brooklyn Invasion, os Vampire Weekend foram dos poucos que caminharam até ao meu coração, louvando que tenham talento, bom gosto e graça suficiente para isso.

O álbum revela a sapiência da banda sobre a música no geral e fica a ideia de que estão a soar exactamente ao que querem soar. A audição completa é uma excelente experiência, estando eu, que não queria parecer demasiado groupie, agradavelmente surpreendido com o 9.3 que a Pitchfork o classificou (decerto não piraram, isto é mesmo a onda musical que eles curtem). Na minha opinião é o melhor álbum de Vampire Weekend e revela uma grande banda que atingiu – atenção que sempre quis usar esta palavra numa critica – a maturidade.

Enquanto oiço a Young Lion, que faz o fofinho final do disco, tal como a I Think Ur A Contra fazia no disco anterior, não consigo deixar de pensar que o maior triunfo dos Vampire Weekend é (através de uma imagem e sonoridade que é alternativa, mas lhes cai com um fit muito natural) levar a portos pop este grande disco. Afinal, a sensibilidade pop deles, característica que aprecio muito, nunca compromete a incrível música e isso é digno de louvor.

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