Random Access Memories

Tivemos que esperar seis anos por um novo álbum dos Daft Punk (assume-se a banda sonora que criaram para o filme Tron: Legacy como um trabalho à parte), mas a dupla francesa, mais que veterana da música electrónica, sabia o que estava a fazer. Ao ouvirmos os primeiros acordes de “Give Life Back to Music”, do seu quarto álbum de estúdio, Random Access Memories (RAM), percebemos que a espera valeu bem a pena.

À medida que somos inundados de Funk e Disco, chegamos à rápida conclusão de que este trabalho é diferente de tudo o que Daft Punk fez até então. Sim, estão lá os robots sentimentais e melodiosos. Mas sentimos que tudo o resto é diferente. Mais do que a viagem no tempo que fazemos ao ouvir músicas como “Giorgio by Moroder” ou “Lose Yourself to Dance”, que nos teletransportam instantaneamente para o meio de uma pista de dança, numa qualquer discoteca dos anos 80 (daquelas a sério, com bolas de espelhos e inundadas por casacos brilhantes e fartas cabeleiras), sentimos que esta música é orgânica, analógica, real. Infinitamente mais real que qualquer sample que os Daft Punk utilizam (com mestria, diga-se) em êxitos como “Digital Love” ou “One More Time”.

Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo comprometeram-se a prestar homenagem à Dance Music dos 70s/80s da única forma que faria sentido: com instrumentos reais, músicos reais, performances reais.

As ideias da dupla, a materialização das mesmas através de mestres da música como Nile Rodgers, Nathan East ou Omar Hakim, as colaborações preciosas de estrelas vindas dos mais diversos universos musicais (Chilly Gonzales, Julian Casablancas, Panda Bear… A lista de colaborações é luxuosa) e a atenção ao mais ínfimo pormenor na fase de produção (até sonoplastas da Warner foram chamados para trabalhar em RAM): a receita para um álbum excelente? Sem dúvida.

Tributos ao Funk, baladas repletas de vocoder, singles perigosamente viciantes (Get Lucky, com a participação do “midas” Pharrell Williams, faz parte, indiscutivelmente, da banda sonora de 2013) ou autênticas Opera-Disco (sim, inventei o conceito enquanto ouvia “Touch”) compõem um álbum consistente e equilibrado, arranhando o conceptual, mas sobretudo bom do início ao fim (um acto final épico, nomeado Contact, curiosamente a única música que recorre aos já clássicos samples dos Daft Punk), uma experiência sonora para ser ouvida na sua totalidade.

Se todos estes ingredientes não forem suficientes, podemos ainda relembrar o hype monstruoso criado à volta de Random Access Memories, antes e após o seu lançamento, inteligentemente alimentado por uma estratégia de revelação gradual do conceito do álbum, com direito até a teaser no Saturday Night Live. Ou o sucesso comercial (número 1 em mais de 20 países) e o reconhecimento da crítica e indústria musical (10/10 na NME, 8.8/10 na Pitchfork e nomeações para os Grammy de Melhor Produção, Melhor Álbum de Electrónica e Álbum do Ano – prémio para o qual é um forte candidato).

Se tudo isto não é suficiente para que Random Access Memories seja considerado um dos melhores álbuns de 2013, não sei o que será.

Update a 7/12/14: foram acrescentadas informações sobre os Grammys.

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