O Hino Gay de Almodóvar


Ao longo das últimas semanas, tenho ouvido cobras e lagartos da mais recente obra de Almodóvar, Os Amantes Passageiros. Sumarizando a narrativa do filme, trata-se de uma história em que diversas personalidades – desde uma ex-dominatrix até a um corrupto procurado no seu país – se encontram “à beira de um ataque de nervos”, quando confrontados com uma falha técnica no avião em que viajam.

Os supostos intelectuais – vulgos hipsters – do cinema, têm atirado pedras e calhaus a Almodóvar, apelidando-o de leviano e tudo mais. No entanto, parece-me que estes não se dignaram sequer a ouvir a interpretação do realizador antes de escreverem as suas intocáveis críticas, que mais se assemelham a autos-de-fé online.

Aquando do lançamento desta longa-metragem, o cineasta espanhol avisou-nos que Os Amantes Passageiros seria o seu filme “mais leve, descontraído e gay de sempre”.  Mas, como grande parte da ignorância vem da falta de informação e pesquisa, dou um desconto a quem critica o filme sem razão ou pelos motivos errados.

É óbvio que a história e o acting parecem forçados, é óbvio que os atores não agarram o seu papel com a mesma emotividade que despejaram em “Volver” e outras obras que tal, mas sabem porquê? Porque se trata de uma paródia e de uma comédia (sim, esse género cinematográfico vil que nos faz parecer vermes rastejantes se o apreciarmos #ironia).

Almodóvar – com a sua mestria e genialidade – engana-nos. Julgam que este filme é o mais leve dos que nos têm sido apresentados? Não me parece. A crítica social é feroz. Desde a distinção entre vedetas de classe executiva e passageiros de classe económica (que nos aparecem adormecidos durante todo o filme, vai-se lá saber porquê), passando pelos supostos escândalos sexuais do Rei de Espanha (que, desde que andou a caçar elefantes, tem tido dias mais difíceis do que a Kim Kardashian); incorrendo por aeroportos vazios (ora que bem que conhecemos esta realidade, hein?) e culminando nas falcatruas financeiras do “Señor Más”- que podia ser substituído na perfeição por Vale e Azevedo- tudo faz sentido e está retratado com um motivo e intenção.

No entanto, outra das pedras atiradas ao realizador vai de encontro à “demasiada (homos)sexualidade presente no filme.  E é aqui que ignorância faz mais vítimas. Para quem não sabe, Pedro Almodóvar é- assumida e orgulhosamente- gay, tal como outros 3 milhões de cidadãos espanhóis (para mal ou bem dos nossos pecados, não consegui encontrar estatísticas que apontem para a percentagem de homossexuais em Portugal).

Sarcasticamente, e de forma quase premeditada, o lançamento deste filme acabou por coincidir com a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo em França e na Nova Zelândia. No entanto, e apesar de Portugal já ter aprovado esta mesma via de união através de um referendo, continuam a ecoar os comentários chauvinistas e retrógrados do quando são exibidos filmes como este, quase que esquecendo as restantes referências e comportamentos sexuais em filmes que assolam o nosso horário nobre. Mas, quando uma “bicha” fala de “mamadas”, aí tapamos imediatamente os ouvidos aos nossos filhos, para que eles não sejam contagiados por estes párias da sociedade que são os homossexuais.

A ironia derradeira do cineasta está ainda presente em todo o comportamento dos gays e lésbicas retratados, ou julgam que as danças efeminadas, a falta de testosterona e de vergonha servem para apenas dar– ou tirar- brilho à narrativa? A imagem que Almodóvar transmite da comunidade LGBT é, precisamente, aquela que a grande maioria da população tem. Ou seja, a concepção errada de que a homossexualidade não passa de uma série de comportamentos de risco e infindável promiscuidade. Esta visão, ainda que implícita, transforma os habituais cento-e-poucos minutos de drama à lá Almodóvar numa hora e meia de gargalhadas incessantes.

Em suma, este filme- graças ao seu ambiente kitsch- acaba por nos fazer reviver a alegre Movida madrilena, período em que a vizinha Espanha celebrava a derrota do franquismo e se proclamava a liberdade de nuestros hermanos. Depois de ouvir contínuos insultos a esta obra da produtora El Desejo, parece-me que a Movida nunca chegará a Portugal, por falta de visão, civismo, inteligência e liberdade que nem o 25 de Abril conseguiu trazer. Esperemos que esteja errado, e que se comecem a abrir os nossos olhos para horizontes mais largos, dando assim vida a uma sociedade onde o respeito e a compreensão imperem e vigorem para todos.