Talkfest’13: dia 2


No segundo dia de Talkfest’13, discutiu-se o impacto dos festivais de música na divulgação dos músicos, falou-se da internacionalização do Optimus Alive, tentou-se perceber se os festivais estão a entrar numa fase decrescente, debateu-se a importância económica e turística deste tipo de eventos e olhou-se para a evolução das festas académicas.

Os festivais na divulgação dos músicos e da sua música

“Os festivais oferecem condições únicas aos músicos, que em outras circunstâncias não teriam.” (Miguel Ribeiro)

“Com o aparecimento dos CDs, as editoras ganharam fortunas de uma forma criminosa: não estavam a editar nada de novo, só a reproduzir aquilo que estava gravado em outros formatos.” (Tozé Brito)

“É muito difícil uma banda estrangeira mais pequena vir tocar a Portugal num Hard Club, por exemplo, uma vez que isso implica custos; não compensa.” (António Freitas)

“Hoje em dia, só consegues ver bandas de topo num festival. Não consegues financiar um Pavilhão Atlântico para um Radiohead, por exemplo.” (António Freitas)

Nos últimos anos houve uma certa falência dos métodos tradicionais de promoção da bandas, destacando-se os festivais cada vez neste campo. “Há 20 anos, os festivais eram só mais um meio de divulgação para as bandas, eram quase como um fim para estas”, lembrou Tozé Brito, lembrando o facto de todas as bandas quererem tocar num festival por isso representar o auge da sua carreira; se tocassem num festival, é porque eram boas; os festivais eram quase vistos como selos de qualidade.

Como observa António Freitas, “as bandas novas conseguem facilmente atingir os festivais” e, quando o fazem, “metem isso no currículo”, mesmo tocando para 50-100 pessoas num festival que chama leva 10-20 mil pessoas. O radialista da Antena 3 considerou que os palcos secundários servem para fomentar o currículo das banda novas, que podem dizer que “tocaram com os Metallica”. “Os festivais são hoje em dia centros comerciais de música” e António Freitas explica porquê: num Woodstock, só existia um palco, onde todas as bandas tocavam; num Optimus Alive tem vários palcos. “Isso acontece porque os promotores querem atrair mais gente”, reconhece.

Em 1999, a Internet popularizou-se e isso teve consequências na música. Se por um lado, a Internet permitiu a divulgação das novas bandas, por outro, tornou-se num espaço com muito lixo onde se conseguem encontrar “coisas muito boas”, disse Tozé Brito. António Freitas concorda: “Estão milhares de bandas na Internet que não interessam a ninguém e isso acaba por impedir que os bons talentos de mostrem.” Tozé disse ainda que o meio online permite às bandas chegarem a mais sítios e a terem muito mais destaque; ainda assim, acredita que “nunca vão conseguir o estatuto das bandas dos anos 70, 80 e 90 [do séculos XX]”.

Perante este problema da Internet e o desinvestimento da rádio na divulgação das bandas (o fim dos programas de autor e a ditadura da playlist uniformizaram as rádios, formatando-as a tocar a mesma coisa), os festivais acabam por ser a alternativa para as bandas se mostrarem, funcionando como uma “rampa de lançamento”, observou Tozé Brito. Os festivais são “uma montra” onde estão não só os nomes já consagrados na música, mas também os novos nomes, aqueles que estão a ter buzz no momento actual.

O primeiro painel do segundo dia de Talkfest’13 contou com John Gonçalves, manager e músico The Gift, António Freitas, radialista da Antena 3, Rui M. Leal, fotógrafo freelancer em festivais, e João Ribas, manager da Dominant Artists, e Tozé Brito, administrador da SPAutores. Procurou-se a resposta à questão: serão os festivais de música a melhor forma de divulgação dos artistas na actualidade? O debate teve moderação de Miguel Ribeiro, jornalista e pivot da SIC Notícias.

Os The Gift formaram-se em 1994 e editaram em 1998 o seu primeiro disco. Um ano depois, em 1999, actuaram em 5 festivais, o Sudoeste, o Paredes de Coura e três Queimas das Fitas. Para John Gonçalves, a actuação de um músico num festival não lhe garante um futuro musical. “As bandas que aparecem no festival não têm de ter uma carreira futura, tal como as pessoas que ganham uma Operação Triunfo não o têm.”

Os festivais são importantes, sem dúvida, para as bandas se divulgarem (e também se desenvolverem artisticamente, criando sonoriedade em palco diferentes das gravadas no disco), mas são apenas parte de um processo global, que tem de ser continuidade ao longo do ano. As bandas actuam no Verão em festivais, mas têm de passar nos restantes pelas salas. “Estar lá [nos festivais] não chega, temos de nos mexer fora disso.” Tozé Brito concordou. Disse que não vê os festivais como a melhor forma de divulgação para as bandas, mas como uma das melhores, reforçando que “é precisa uma equipa de management que incorpore os festivais numa estratégia de marketing”. Por último, John Gonçalves esquematizou os três circuitos de divulgação dos músicos: o circuito dos festivais, o circuito dos clubes e dos bares, e o circuito das Câmaras Municipais. “Há muitas bandas portuguesas que só conhecemos nos festivais”, disse. E Tozé Brito reforçou: “O festival é apenas um palco.”

“Há que não criar falsas expectativas às bandas”, lembrou John Gonçalves. As bandas têm de controlar as suas expectativas relativamente a um concerto num festival. É frequente ficarem desiludidas por não tocarem para tanta gente. “A gratificação tem tudo a ver com a expectativa e o resultado final”, disse o músico dos The Gift.

Ainda assim, John Gonçalves referiu que é importante para as bandas ter o seu nome no cartaz de um grande festival. A maior parte das pessoas que foram a esse festival podem nem ter visto a banda em questão, mas pelo menos sabem que ela lá esteve. Essas pessoas podem vir a ouvir a banda mais tarde em casa ou até num outro festival. Sabem que a banda tem qualidade, pois o festival de uma forma ou de outra confere esse estatuto. “O Coachella atribui qualidade às bandas que lá vão, é uma marca de qualidade”, exemplificou.

“As bandas preparam-se para os festivais, mas preparam-se mal. Aquilo que vejo no palco não me surpreende”, confessou Tozé Brito, que não concorda com o facto de as bandas se limitarem a reproduzir em palco aquilo que gravaram em disco. Quando os grandes festivais surgiram, as bandas procuravam criar experiências diferentes neles, tocando, por exemplo, um tema de uma forma diferente e criativa, disse o músico. “Se calhar num palco secundário, as pessoas não querem ouvir as músicas que passam na rádio”, referiu John Gonçalves.

João Ribas é manager da Dominant Artists e também organizador da festa Offbitz no Musicbox, em Lisboa. Todas as quartas-feiras, o Offbitz abre as portas do Musicbox ao público (a entrada é gratuita) e às bandas que nunca iram ser pagas pelo público para serem vistas. “Raramente vais ver uma banda que não conheças. Somos pouco aventureiros neste aspecto” e somo-lo ainda menos se estiver envolvido um valor monetário, mesmo que baixo.

Segundo João Ribas, as bandas do Offbitz tocam sem caché, mas recebem não só um palco para mostrarem a sua música e um público para as ver, mas também os vídeos e as fotografias dos concertos. “Filmamos e fotografamos os concertos e damos-lhe esse material para elas o usarem para sua promoção” e assim conseguirem atingir os festivais, disse João Ribas. O organizador revelou que bandas nacionais hoje consagradas, como os Capitão Fausto e Os Golpes, começaram no Offbitz.

João Ribas olha para os festivais como algo prestigiante e como uma “boa oportunidade de negócio”. A música, salientou, é o elemento que consegue mais facilmente juntar várias pessoas, transfornando-se uma oportunidade de negócio para as bandas, que querem ficar conhecidas, e para as bandas, que precisam de festivais e de outros eventos com música para se posicionarem no target que pretendem. O manager da Dominant Artists revelou em primeira mão estar a preparar um festival no Porto que reuna quatro vezes por ano (sim, o festival terá quatro edições anuais) “todos os projectos emergentes que achemos que tenham qualidade”.

A ideia, diz João Ribas, é ter o público misturado com os músicos, as editoras e as promotoras: “permitir que uma banda tenha ao seu lado uma editora”, exemplificou. O novo festival pretende, dessa forma, não ter uma vertente de entretenimento passivo, em que as pessoas vão ver uma banda, beber uns copos e pouco mais. João Ribas disse ainda que convidará a imprensa internacional para escrever sobre as bandas do festival, dando-lhes protagonismo também lá fora.

John Gonçalves acredita que, apesar de serem duas empresas (a Everything is New e a Música no Coração) a controlarem os festivais, elas estão abertas a propostas, não fechando a porta às novas bandas nacionais, lançadas ou não no Offbitz.

Questionado sobre aquilo em que reparava para fazer a sua crítica a concertos, António Freitas revelou que tenta actuar como um fã e seguidor da banda e que, quando não gosta muito dessa banda, tenta ler as pessoas que gostam dela. “Procuro ler a linguagem das pessoas que estão lá à frente”, porque são as que vibram sempre mais, as maiores fãs da banda em palco, confessou, acrescentando que também olha para os seguranças de forma a reparar nos “seguranças que não sejam seguros”. O radialista também repara, naturalmente, na banda: “se estão a tocar bem, se estão nervosos…”.

Rui M. Leal é fotógrafo feelancer que gosta de fotografar concertos, sejam eles em festivais ou não. “Gosto de estar nos concertos desde a primeiro hora até à última.” Aquilo que fotografia depende sempre do que é pedido na redação para a qual está a trabalhar. Um jornal ou uma revista limita mais a criatividade, as agências dão mais liberdade. “As agências internacionais têm mais interesse nas bandas internacionais”, exemplificou.

Antes, o fotógrafo focava-se mais nos artistas e nas suas expressões. Agora, Rui procura fotografar desde o pequeno artista ao grande cabeça de cartaz, concentrando-se no próprio espectáculo, seja ele de luz, de cenários ou de público (“o contacto do público com a banda”). “Tento fazer com que quem veja as minhas fotos se sinta no concerto”, referiu. “Gosto de fotografar em baixo do palco. Gosto do contacto com as pessoas que estão na primeira fila.”

Internacionalizar um festival

“Não acredito nos políticos: eles não são empreendedores, não têm espírito de negócio.” (Álvaro Covões)

“Isto é um país onde há muitas barreiras e obstáculos. A palavra preferida é não.” (Álvaro Covões)

“Bater nos microfones para testar se este está a funcionar ou não é mau para os próprios microfones, estraga-os. Basta soprar.” Foi com esta recomendação que Álvaro Covões, Director da Everything Is New, iniciou a sua intervenção sobre a internacionalização de um festival de música, no caso concreto, o Optimus Alive.

O Optimus Alive é um produto desenhado a pensar não só nos portugueses, mas também nos estrangeiros. Está pensado para se realizar Portugal e contribuiu para o desenvolvimento do país, criando riqueza (PIB). Prova disso é que, em 2012, foram vendidos 17 mil bilhetes no estrangeiro, estimando-se que o número de estrangeiros que nesse ano estiveram no Optimus Alive roda esse valor. Esses 17 mil estrangeiros gastaram, estima-se, 12 800 000 milhões de euros em Portugal com a sua visita ao país. Esses 17 mil estrangeiros englobam um total de 53 nacionalidades: australianos, americanos, mexicanos, chilenos, britânicos, espanhóis, indianos, filipino, nova zelandeses, etc. Desses 17 mil estrangeiros, 5000 mil ficaram num parque de campismo, os restantes 12 mil ficaram em hotéis, casas de amigos, etc. “Estou muito pouco convencido de que existam eventos que consigam trazer num fim-de-semana 17 mil pessoas do estrangeiro. Nem o futebol faz isso”, disse o director da Everything is New.

O festival que todos os anos diz ter o melhor cartaz aposta nos maiores nomes da música actual (aqueles que satisfazem as massas), procurando ao mesmo tempo apresentar as novas tendências artísticas. O Optimus Alive procura oferecer aos festivaleiros uma experiência única no recinto, que se estenda para além dos concertos. Desde o início da sua realização, em 2007, o festival de 3 dias tem crescido em número de visitantes: 2007 com 70 mil pessoas, 2008 com 100 mil pessoas, 2009 com 110 mil pessoas, 2010 com 120 mil pessoas, 2011 com 160 mil pessoas (edição especial de 4 dias), 2012 com 154 mil pessoas. No total, 685 mil pessoas.

O Optimus Alive está igualmente atento às questões ambientais, promovendo não só mecânicas de encaminhamento de resíduos de embalagem para reciclagem em todo o recinto, como também a utilização de materiais recicláveis e de energias verdes. “Eu diria que 90% da energia do festival é verde. Temos 1 só gerador no palco principal. O normal seriam 15 geradores em todo o festival.” Outro exemplo é o facto de todos os brindes das marcas presentes no festival têm de ter alguma utilidade futuro, isto é, não podem ser descartáveis, de usar e deitar fora.

Considerado pelo NME como um dos 12 melhores festivais estrangeiros desde 2008, o Optimus Alive foi em 2012 e pelo terceiro ano consecutivo galardoado com o Prémio de Melhor Evento Cultural pelo júri da quinta edição da Gala dos Eventos e igualmente premiado pela Escolha do Consumidor na categoria de Festivais de Música de Verão Pop-Rock. Quanto aos European/UK Festival Awards 2012, esteve nomeado nas categorias Melhor Festival Estrangeiro, Melhor Festival de Grande Dimensão, Melhor Cartaz e Melhor Favorito dos Artistas.

O festival encontra-se ainda referenciado na imprensa internacional. Para além do NME, o Optimus Alive é falado em referências como o The Guardian ou o The Times. “O buzz lá fora também faz com que o produto se torne internacional”, contou Álvaro Covões.

“Internacionalizar um festival significa oferecer um bom cartaz, uma boa localização, boas acessibilidades e conforto”, referiu Alvaro Covões. “Não basta ser bom, é preciso comunicar”, acrescentou o homem forte de um dos maiores e melhores festivais portugueses, que tem uma presença fortíssima nas Internet. “A única forma de esgotar o recinto é atraindo o mercado em que estamos inseridos, que não é só o europeu.”

Por ser um festival urbano, que se realiza na fronteira dos concelhos de Lisboa e Oeiras, o Optimus Alive disponibiliza um bilhete integrado, que permite a entrada no festival e viajar de comboio na Linha de Cascais da CP. “O Optimus Alive é o único evento em Portugal que vende um bilhete integrado com entrada no festival e no comboio”, permitindo viajar até ao festival, entrar no festival e regressar a casa.

A internacionalização só é possível se for feita uma oferta complementar ao próprio festival, que inclua viagens e alojamento em Portugal para os estrangeiros. Comprando um bilhete para o Optimus Alive lá fora, obtém-se 10% de desconto numa viagem de avião para Portugal através da TAP, que é, recorde-se, a companhia aérea portuguesa. Também é possível comprar o passe para o festival com dormida num hotel lisboeta. O Optimus Alive mantém pontos de venda próprios neste países: Espanha, Reino Unido, França, Suíça, Bélgica e Alemanha. Temos de colocar “o bilhete à porta deles”.

“No Optimus Alive, os festivaleiros podem ir à praia a Cascais, visitar o património em Lisboa, ir ao festival e tomar um copo na noite lisboeta”, salientou Álvaro Covões, considerando esse facto extraordinário, único e diferenciador.

Por último, Álvaro Covões falou de custos, dizendo que 30% dos mesmos é suportado pelos patrocínios, o que representa 1,5 milhões de euros.

Festivais: início de uma fase decrescente em Portugal?

“O Mundo divide-se entre quem gosta de Xutos e quem não gosta de Xutos.” (Joaquim Albergaria)

“O CD está morto e o festival é a única coisa que ainda não é digitalizável, daí continuarem a estar cheios.” (Joaquim Albergaria)

“Aprendi mais com salas de concertos e com discos do que em qualquer sala de aula. A música experiencia-se com o corpo.” (Diogo Dias)

Depois de uma fase de sucesso, estarão os festivais de música a iniciar um processo decrescente em Portugal? Entre os dados apresentados por António Mendes, director da RFM e moderador do debate, está a diminuição clara do número de festivais e a diminuição do número do número de festivais esgotados. Eis a lista de oradores: Joaquim Albergaria, músico dos PAUS e curador Vodafone FM, José Costa, director do festival Sons de Vez, Nuno Cruz, stage manager e director da Roadies DC, e Diogo Dias, dos Klepht.

O painel foi unânime: os festivais não estão numa fase decrescente. “Eu não reparei que os festivais estivessem em crise”, observou Joaquim Albergaria. “Temos bons festivais. Nunca tivemos melhores.” O músico dos PAUS e curador da Vodafone FM não acredita que os festivais acabem, até porque para muita gente os festivais são as férias. “Enquanto houver bandas a fazer música e houver amor à música, há festivais.”

Joaquim Albergaria falou da crescente segmentação dos festivais, associada a uma segmentação dos públicos, do tipo de música e das zonas do país. Existem festivais de Verão e de Inverno, festivais de amor (Paredes de Coura e Milhões de Festa, por exemplo), festivais focados na localidade (Bons Sons, por exemplo), etc. “O público escolhe os festivais mais criteriosamente porque o dinheiro não dá para todos eles”, observou.

O músico dos PAUS disse ainda que existem festivais especificamente para darem a conhecer bandas novas. É o caso do Vodafone Mexefest, ao qual o público vai desconhecendo normalmente a maior parte do cartaz: “Não faço a mínima ideia de quem são estes gajos, mas vou conhecê-los.” Trata-se de um festival de novas tendências.

“O factor de inovação é fundamental”, revelou Diogo Dias dos Klepht, referindo-se ao facto de não fazer sentido tentar-se copiar um Optimus Alive ou um MEO Sudoeste. “Ou inovas, ou ficas para trás.” O músico partilhou o optimismo de Joaquim Albergaria, dizendo que “os nossos festivais estão num auge” e que temos público para todos os tipos de festivais.

Diogo Dias disse que, mais do que espaços para ouvir música, os festivais são hoje essencialmente zonas de convívio, nas quais se conhecem novas pessoas. “Há quantos anos olhas para o cartaz do Sudoeste e pensas que é mesmo àquele festival que queres ir”, afirmou, provocando a risada total na plateia.

Já Joaquim Albergaria realça os festivais como fundamentais para qualquer banda ter sucesso: “Vais ter de ir aos festivais para dares aquele salto na carreira.” Os festivais servem, segundo o músico, essencialmente para solidificar notoriedade, uma vez que neles “agarras 10 pessoas que depois se vão multiplicar por mais 10”.

O músico revelou existirem não só cada vez mais nomes a subirem aos palcos dos festivais portugueses sem ser para aquecer, como também mais bandas e artistas a vingarem lá fora. Buraka Som Sistema, Legendary Tigerman, Deolinda e Marisa foram alguns dos exemplos deixados. Joaquim Albergaria lembrou ainda que em 2011 a maior enchente no palco principal do Festival Paredes de Coura no dia em que actuaram nele os Linda Martini foi precisamente com os Linda Martini.

Já Nuno Cruz, stage manager e director da Roadies DC, falou na “profissionalização do som”, isto é, já não é qualquer banda que sobe ao palco de um festival. O público é exigente e exige um som cuidado.

Os concertos de entrada livre e gratuita são um problema relativamente grave. “O público português está a desabituar-se de pagar para ver um concerto”, denunciou Joaquim Albergaria. Se pensarmos bem, é verdade. Para quê pagar pela banda X num Lux se no Verão passado ela tocou na estação de Metro: “agora vais obrigar-me a pagar?”. O caso agrava-se com as bandas nacionais: tenhamo-las ou não visto, não queremos pagar para as ver, até porque alguma vez podemos vê-las à borla.

Para Diogo Dias, dos Klepht, os festivais são “uma estrutura montada para aproximar quem gosta de música de quem a faz”. A música liga-se às emoções (e faz esquecer frustrações, por exemplo). “Vamos ver uma banda a um festival a transmitir algo de que precisamos (por exemplo, amor) para nos sentirmos mais humanos”, contou. O músico não compreende como é que alguém não gosta de música, indicando que gostar de música é equivalente a gostar de respirar: “Não há algo mais estranho do que alguém dizer que não gosta de música.”

Os festivais e o turismo

“Os festivais são muito queridos e desejados pelas pessoas porque não acontecem todo o ano.” (Vítor Paulo Gomes)

O penúltimo painel do dia incluiu Joaquim Durães, director do festival Milhões de Festa, Jorge Lopes, director do PEV Entertainment e do festival Marés Vivas, e Martim Rodrigues, gestor de operações Simplicity, e Vítor Paulo Gomes, candidato à presidência da Câmara Municipal de Paredes de Coura e organizador do Festival Paredes de Coura. O debate sobre a importância económica e turística dos festivais de música foi moderado por Mafalda Avelar, jornalista do Diário Económico.

“Eu lembro-me de que, quando estudava, tinha dificuldade em explicar às pessoas onde ficava Paredes de Coura”, confessou Vítor Paulo Gomes, reconhecendo a importância do Festival Paredes de Coura na divulgação do município. “Acabar com o festival seria mau para a terra”, apesar da sua sazonalidade. Ainda assim, Vítor Paulo Gomes diz que “a Câmara Municipal podia aproveitar melhor do ponto de vista económico o festival”, promovendo o turismo local e implementado estruturas de alojamento (todos os anos, “cria-se no concelho de Paredes de Coura um mercado paralelo de alojamento em casa particulares”).

Vítor Paulo Gomes referiu que “o caminho da música independente, alternativa, não foi fácil”, fez com que o festival perdesse muito dinheiro no início, apesar de a longo prazo ter sido a melhor decisão. O organizador afirmou que o festival podia ter uma oferta cultural mais abrangente e só não o tem porque as margens de lucro são muito diminutas.

Por último, Vítor Paulo Gomes perguntar por que motivo não existe promoção dos festivais nacionais em feiras de turismo internacionais.

Jorge Lopes, director do festival MEO Marés Vivas, revelou que o investimento que é feito no festival é hoje muito maior do que há uns anos atrás, denotando o crescimento em importância do mesmo. “Conseguimos ter uma oferta ao nível dos festivais lá de fora, mas a um preço para o festivaleiro mais baixo”, disse, acrescentando que Portugal é um ambiente privilegiado pelo clima e pelas condições naturais específicas dos locais onde se realizam os eventos. “Portugal é um destino com boa relação preço/qualidade, em comparação com os festivais feitos lá fora”

Jorge Lopes olha para o MEO Marés Vivas como um elemento crucial no desenvolvimento turístico do Porto, colocando a música como um “chamativo” que vende a cidade enquanto destino turístico.

Joaquim Durães concordou com Jorge Lopes quando este referiu o clima enquanto factor diferenciador. O Milhões de Festa oferece um palco, uma piscina e um parque de campismo, todos os anos, acolhendo bandas que tocam pela primeira vez em Portugal. “Temos uma Câmara Municipal que nos apoia. Nunca tentámos ter um patrocinador. Não vamos atrás das marcas.

Martim Rodrigues disse, por último, que os festivais apresentam Portugal ao estrangeiro, considerando que um pacote turístico que inclua o bilhete para um festival e uma estadia, por exemplo, faz todo o sentido.

A evolução das Festas Académicas

“Nós estamos no seio dos jovens. Conseguimos perceber mais facilmente quais são as necessidades destes.” (Miguel Gonçalves)

O último painel reuniu André Gomes, da Queima das Fitas de Coimbra, Miguel Gonçalves, da Festa do Caloiro do ISCTE, Rúben Alves, presidente da Federação Académica do Porto, X, da Semana Académica de Lisboa, Carlos Dias, gestor da marca Mega Hits, e Isabel Corte Real, responsável pelos Patrocínios e Eventos MOCHE/TMN, em torno de um tema que invulgarmente é tratado: as Festas Académicas.

As festas académicas cresceram e profissionalizaram-se, passando de singelos arraias a complexos (pseudo-)festivais de música. Se, por um lado, “os festivais de música foram atrás das festas académicas”, como avalia Carlos Dias, gestor da marca Mega Hits, por outro, “as festas académicas foram forçadas a aproximar-se dos festivais de música”. Carlos Dias referiu que ainda falta algum profissionalismo nas festas académicas, admitindo, no entanto, que “existem eventos académicos superiores a muitos festivais”.

O facto de o modelo adoptado pelas festas académicas se confundir com o dos festivais de música, quer ao nível de posicionamento, quer ao nível de inovação, pode ser um problema. “Não sei como se consegue criar uma diferenciação de semanas académicas, recepções ao caloiro e queimas das fitas relativamente a festivais de música, se a base desses eventos é a mesma”, admitiu Carlos Dias. “Cada vez mais quem organiza estes eventos [festas académicas] sabe que a única maneira de ter sucesso é ir à procura dos artistas dos outros festivais.” A Mega Hits, pela associação estudante universitário + música, desde cedo se associou estrategicamente a este tipo de eventos.

Carlos Dias observou que os recintos das festas académicas estão muito melhores hoje em dia e salientou que é importante dar-se aos estudantes condições e atractivos para estas entrarem nesses espaços, reconhecendo que ainda há muito a fazer nesta área, dado que as festas académicas não acontecem só no palco. “Antes, eu entrava num evento académico e aquilo parecia-me um evento Super Bock ou Sagres”, disse o gestor da marca Mega Hits, comentando o facto de as marcas de cerveja dominarem abusivamente recinto, não dando espaço de manobra para outras marcas. a MOCHE, todavia, mantém-se como uma marca que recentemente tem apostado no recinto com activações de marca dinâmicas.

Miguel Gonçalves, um dos organizadores da Festa do Caloiro do ISCTE, que se realiza todos os anos em Outubro, afirmou que esta festa tem já um público definido, público esse que tem sido construído ao longo do tempo: “Estão 6 mil e 500 pessoas garantidas todos os anos. O resto é cartaz”. Combinado com esse factor, o preço acessível (12 euros), o cartaz com 15 artistas e o recinto com 4 pistas distintas fizeram com que a edição de 2012 da Festa do Caloiro do ISCTE esgotasse. Em conjunto com a Acção Social do ISCTE, criou-se um bilhete bolseiro de 6 euros, permitindo que estudantes com menos recursos financeiros participassem igualmente na festa.

“Pensar nos custos e negociar custos” e fazê-lo em escala, procurando apoios em outras cidades que não a cidade do evento, mas que sejam próximas. “Há que negociar o preço das bebidas e da comida junto dos fornecedores”, exemplificou Miguel Gonçalves, referindo que as receitas da Festa do Caloiro do ISCTE provém da bilheteira, do bar e também dos apoios da Associação de Estudantes do ISCTE. A Festa do Caloiro do ISCTE é “um evento feito por alunos dos ISCTE, para alunos do ISCTE”, que, mesmo assim, atrai muitos estudantes externos ao ISCTE. Em 2012, o evento esgotou com 9 mil pessoas, das quais 6 mil eram do ISCTE (instituição que conta com cerca de 10 mil alunos) e o restante de outras faculdades.

“É possível fazer um evento académico com qualidade, mantendo a essência do evento académico”, disse André Gomes, um dos responsáveis pela Queima das Fitas de Coimbra. Para André, a maior dificuldade tem sido a crise, que se tem traduzido em falta de poder de compra do cliente – o estudante – e também dos seus pais. “Temos vindo a descer o preço do bilhete”, colocando a entrada para estudantes a 10 euros se comprada antecipadamente. As agressões externas, como o aumento do IVA de 21% para 23% no início de 2012, também têm sido um factor de ponderação: “Suportamos o aumento do IVA, não o repartimos no preço do bilhete”, referiu André Gomes. “Se eles nos dão menos margem, só temos um caminho: fazer a mesma festa ou ainda melhor com menos recursos”. André Gomes revelou ainda ter assegurado junto de uma cervejeira a concessão pluri-anual por cinco anos do bar da Associação de Estudantes, da Queima das Fitas e ainda da Festa das Latas. As receitas provém da bilheteira, das concessões de comida e bebida e dos patrocinadores.

Quanto ao cartaz, André Gomes procura que ele seja o mais ecléctico possível. Apesar de faltar poder económico para chegar a alguns artistas, nomeadamente internacionais, a organização tenta trazê-lo. André Gomes disse que para este ano estão a ser preparadas duas noites com um DJ internacional (e não uma, como anteriormente acontecia). A aposta em música portuguesa é notória e André Gomes deu alguns exemplos: Salto, Supernada, etc… nomes que passaram pela Queima em 2012. Mas o comercial tem de lá estar. “Apostamos em coisas mais comerciais. A receita da bilheteira reflecte as coisas menos comerciais. Não vou por em causa o meu evento só metendo artistas portugueses”, disse.

X, um dos organizadores da Semana Académica de Lisboa, confessou que o mais problema do evento lisboeta tem sido a falta de um recinto fixo ao longo dos anos. “Não há um sítio em Lisboa ao qual as pessoas venham todos os anos porque sabem que o evento é sempre ali. Para além de comunicar o evento e o cartaz, temos de comunicar o recinto e as acessibilidades todos os anos.” X disse que esse problema foi resolvido, passando o evento a realizar-se durante os próximos 5 ano na Ajuda, no antigo local onde acontecia o festival Delta Tejo.

Para X, o facto de em Lisboa existirem inúmeros eventos musicais, como Optimus Alive, o Super Bock Super Rock e as festas nos clubes, bares e discotecas, é outro problema. “É na capital que existem os grandes eventos musicais”, disse, acrescentando que isso não só cria concorrência (as pessoas preferem investir num Alive, por exemplo, que na SAL), como faz com que fiquem mais limitados em termos de artistas. Por um lado, A escolha dos artistas para as festas académicas é condicionada sempre pelos grandes festivais. “Temos de ter sempre um intermediário a contactar uma banda internacional. E quando esse intermediário é o promotor de um festival, lixam-nos”, lamentou André Gomes. Por outro, é mais provável, como observou X, um artista de topo ir a um Optimus Alive do que à SAL, e se vai ao Alive não vem à SAL, pois existem na maior parte das vezes contratos de exclusividade. (Entretanto, alguém do Público intervém: “Não têm de ir atrás desses tubarões. Não têm de fazer da queima um mini-Sudoeste ou um mini-SBSR.”)

A SAL pretende não só apostar no recinto, tornando-o mais dinâmico com actividades variadas e reforçando o seu lado social, de convívio. “Queremos investir mais recinto e não tanto no cartaz”, confessou. A SAL pretende ser um evento mais virado para as marcas. Antes, estas limitavam-se a patrocinar monetariamente o evento, mas não aparecia no recinto para activações.

Também na Semana Académica de Lisboa existe uma preocupação com os custos. A título de exemplo, este ano, toda a electrónica será entregue a produtoras externas. A ideia é ter uma produtora por dia a ocupar a tenda electrónica com os seus DJs. As produtoras ficam com as receitas dos bares da tenda e a SAL não tem o custo dos artistas dessa tenda.

Rúben Alves, presidente da Federação Académica do Porto, referiu que é feito um investimento considerável na Queima das Fitas do Porto, que dura uma semana, dado tratar-se de um evento importante para a Federação por ser “através da Queima que conseguimos financiar todas as restantes actividades académicas”. A Queima das Fitas do Porto é, por isso, decisiva, sendo o objectivo ter o retorno maior possível. As receitada da Queima provém maioritariamente da venda de bilhetes, pelo que “para prevenir desastres temos de ser cautelosos”. A Federação Académica do Porto tem ainda atenção ao público. “Numa noite de sexta, chamamos um público mais novo, do Secundário. E metemos Xutos para um público mais velho.”

Segundo Rúben Alves, a Queima das Fitas do Porto é organizada todos os anos num curto prazo de tempo. “As eleições para a Federação realizam-se em Dezembro e a Queima acontece em A”, disse. Relativamente aos custos e à crise, o investimento foi adaptado à conjuntura actual e foi feita uma redução de 30% da despesa do evento, tornando-o mais rentável e libertando recursos para financiar as actividades.

Carlos Dias, gestor da marca Mega Hits, destacou a discrepância timings entre a rádio e as associações académicas. “Começamos a trabalhar a Queima das Fitas de Coimbra em Fevereiro; é tarde para uma marca que quer fazer o seu plano de marketing anual”, disse. Ainda assim, Carlos Dias diz que se consegue adaptar, salientando como positivo o facto de ser possível tratar de assuntos às duas da manhã com os estudantes (que têm horários muito específicos).