Talkfest’13: dia 1


Decorreu de 6 a 8 de Março, em Lisboa, o Talkfest’13, um evento sobre o futuro (e também o presente e o passado) dos festivais de música em Portugal (e no Mundo). No primeiro dia, falou-se da associação das grandes marcas de telecomunicações aos festivais, debateu-se a relevância nestes da tecnologia e da ecologia, discutiu-se como os músicos preparam os concerto e salientou-se a crescente popularização da música electrónica nos cartazes. O evento contou ainda com Hunter Halder, fundador da Re-food, que fez uma restroespectiva interessante dos históricos festivais.

As marcas e os festivais

O primeiro painel do Talkfest’13 reuniu Filipa Ribeiro, Directora de Marketing da CP, Rui Almeida, Research Director na Havas Media, e os representantes da área dos eventos e dos patrocínios das três maiores operadoras nacionais de telecomunicações: Miguel Guerra (MEO), Pedro Caldas (Vodafone Portugal) e Pedro Moreira da Silva (Optimus). Debateu-se a associação das grandes marcas de telecomunicações aos festivais de música.

Rui Almeida, Research Director da Havas Media, revelou alguns dados fundamentais para a análise da relação entre marcas e festivais, dados esses que resultaram de um estudo realizado em 2011 em vários países europeus (Portugal excluído). Segundo o orador, as marcas são bem-vindas nos festivais: 65% dos festivaleiros considera que estas melhoraram a sua própria experiência neste tipo de eventos. Rui Almeida lembrou que este contacto não se resume ao recinto nem se esgota nele; é um contacto alargado, que contacto começa no momento da decisão da ida ao festival (ou até antes), prolonga-se no local onde este decorre e esgota-se no período pós-festival. Incluí, portanto, também toda a parte de transporte de ida e de volta para o festival (note-se que a deslocação para um Optimus Alive é muito diferente da deslocação para um MEO Sudoeste.). As marcas conferem, no fundo, um valor acrescentado à experiência dos festivaleiros nos festivais de música.

O alargamento da experiênci com a marca para fora do recinto é, a par da partilha dessas mesmas experiências online e offline, uma das grandes tendências do mercado das activações de marca em festivais. Rui Almeida traçou o perfil histórico das activações de marca. Começou-se por ter presenças muito singulares e rudimentares por parte das marcas , numa espécie de estratégia de sinalização. Percebeu-se depois que era preciso mais do que isso, que era preciso criar algo mais substancial. Surgiu, então, a “moda” das experiências individuais, experiências intensas e gratificantes para um pequeno nicho. O orador deu um exemplo: Vodafone Best Seat. Estas experiências não chegavam a todos, eram restrictas, criando competições entre as pessoas para definir quem podia ficar com elas. Alargou-se, portanto, as experiências a todo o público, experiências essas que passam pelo fun, que criam algo fun.

O retorno da presença de uma marca num festival não se resume à mera exposição destas aos festivaleiros. Não chega a marca dar o naming ao festival, não chega meter no recinto uns puffs. É importante o modo como a marca vive e respira o festival, isto é, como se activam no recinto; a forma como o fazem determina a relação a longo prazo entre marcas e festivaleiros, quer ao nível da notoriedade, quer ao nível das vendas. Acima de tudo, a marca tem de criar algo memorável, que gere engagment. “Quando os festivaleiros têm experiências interessantes no recinto com uma determinada marca, mais facilmente a recomendam ou a compram”, referiu.

“Quando os festivaleiros têm experiências interessantes no recinto com uma determinada marca, mais facilmente a recomendam ou a compram.” (Rui Almeida)

Nos últimos 5 anos, a oferta de festivais tem vindo a segmentar-se, nascendo festivais urbanos, como o Optimus Alive ou o Vodafone Mexefest, festivais alternativos, como o Vodafone Paredes de Coura, festivais familiares, como o Rock In Rio. Diferentes festivais, resultam em diferentes festivaleiros e implicam diferentes estratégias de comunicação e de activação por parte das marcas, salientou Rui Almeida.

Recentemente, a PT passou o testemunho da música, até aqui nas mãos da TMN, para a MEO. Miguel Guerra, responsável pelos Patrocínios e Eventos das duas marcas, explicou que a MEO pretende aproximar-se do segmento jovem, sendo a música em geral e os festivais em particular o meio para o fazer. “A música transcende sexos, é um elemento unificador”, disse.

Miguel Guerra reforçou a importância de a experiência de um festivaleiro com uma marca começar antes do festival, não tanto na decisão da compra do bilhete mas na viagem, que no caso do MEO Sudoeste é assegurada pela CP.

A CP é o transporte dos festivaleiros. Estrategicamente, como referiu Filipa Ribeiro, Directora de Marketing da CP, esta associação com a marca é bastante positiva, uma vez que permite aproximar o target jovem à mesma, target esse que representa 30% dos clientes da CP. A CP comunica o comboio como o melhor meio de transporte para um festival, principalmente se a viagem for efectuada com amigos: trata-se de uma aventura com os amigos, que faz com que o festival comece no comboio. Existe também aqui um objectivo comercial por parte da CP, que passa por vender títulos de transporte.

O MusicCard CP é um dos produtos que mais atenções rouba, fez questão de referir Filipa Ribeiro. No fundo, o MusicCard CP permite por um preço muito apetecível (125 euros) a entrada em alguns festivais (MEO Sudoeste e SBSR) e festas de Verão e ainda as viagens de ia e de volta de comboio. O MusicCard CP é, talvez, a forma mais evidente da associação da marca (que não desenvolve qualquer activação no recinto dos festivais) a este tipo de eventos. Miguel Guerra referiu que a marca MEO tem de ter uma preocupação especial com aquilo que se passa antes de o festivaleiro entrar no recinto, nomeadamente com a viagem de comboio. Uma experiência má na CP pode afectar a experiência com a MEO, uma vez que afecta a experiência festivaleira.

Pedro Caldas, dos Patrocínios e Eventos da Vodafone, reconheceu que o facto de durante muitos anos a associação da marca à música se limitar ao Rock In Rio não foi bom de todo benéfico para a própria marca. Por um lado, o Rock In Rio é um evento demasiado mainstream, fora dos valores que a Vodafone procura enquanto marca; por outro, é um festival que se realiza de dois em dois anos, o que implicava ter a marca fora da música durante um período grande. Assim, a Vodafone mantinha uma tradição musical muito fraca e o grande público raramente associava a marca àquela área. A Vodafone, porém, mudou de estratégia. A marca deixou o futebol, que consumia uma fatia exageradamente grande do orçamento, e tem estado a afastar-se do desporto motorizado. A música está cada vez mais no DNA de marca e prova disso são os três projectos recentes: em 2011, nasceu a Vodafone FM, uma rádio alternativa, de nicho; e o Vodafone Mexefest, um festival urbano, de Inverno, que se realiza em Dezembro com as novas tendências da música nacional e internacional; já em 2012, “surgiu a oportunidade de ficarmos com o Festival Paredes de Coura”, que mudou de nome para Vodafone Paredes de Coura. A Vodafone mantém a estratégia no Rock In Rio, mas reconhece que “para uma marca como a Vodafone é menos interessante estar num Rock In Rio“.

A primeira edição do Vodafone Mexefest realizou-se em Lisboa (Dezembro de 2011) e no Porto (Março de 2012). A segunda edição ficou-se por Lisboa (Dezembro de 2012). “Este ano, substituímos o Vodafone Mexefest Porto pelo Vodafone Paredes de Coura”, referiu Pedro Caldas. O Vodafone Paredes de Coura realiza-se em Agosto em Paredes de Coura, mas existe um aquecimento, um Warm-Up Vodafone Paredes de Coura, em Abril no Porto. “Paredes de Coura é musicalmente muito parecido com o Vodafone Mexefest e com o Vodafone FM”, explicitou Pedro Caldas, justificando, assim, a aposta no festival minhoto e a sua integração na estratégia na música já adoptada pela marca.

Questionando pela audência, Pedro Caldas referiu que a estratégia portuguesa da Vodafone na música não interfere com a estratégia da marca em outros países e exemplificou: “A Vodafone Portugal pode patrocinar a música e a Vodafone Espanha o futebol de praia, não tendo a música qualquer relevância.” A Vodafone adapta, no fundo, a sua estratégia a cada país.

Nenhuma das marcas avançou com números concretos relativos ao investimento na música. Todavia, referiram em termos percentuais quanto do seu orçamento disponível para comunicação destinam a esta área. Quer na MEO, quer na Vodafone, os valores rondam os 40-50%. Note-se que ambas as marcas estão presentes igualmente no desporto. No caso da Vodafone, a fatia deste é muito pequena com tendência a ser cada vez menor: a marca está presente nos desportos motorizados, como a F1. A MEO, por seu lado, tem uma presença fortíssima nesta área, nomeadamente ao nível do futebol. “O investimento em futebol acaba por ser um investimento em notoriedade”, confessou Miguel Guerra. Ainda assim, tem-se assistido generalizadamente a um desinvestimento no futebol, constatou Rui Almeida.

 “O investimento em futebol acaba por ser um investimento em notoriedade.” (Miguel Guerra)

A Optimus, por seu lado, investe quase 100% do seu budget na música. Pode dizer-se que a marca, que tem 12 anos de vida, desde cedo percebeu que devia estar associada à música. Aliás… “Durante um ano tivémos duvidas, mudámos a estratégia para excluir a música, mas regressamos depois à estratégia antiga, que incluía a música”, confessou Pedro Moreira da Silva, Director de Comunicação e Activação da Optimus. A música é transversal às idades, aos géneros, aos segmentos, e cria proximidade emocional com a marca.

Estar no futebol, diz a Optimus, implica um investimento muito maior do que aquele que é necessário na música e as barreiras à entrada neste mercado são também elevadas. “No futebol estão já marcas grandes e está lá numa posição inferior a estas não faz sentido. Mais vale estarmos quietinhos”, disse Pedro Moreira da Silva. “A Optimus é a marca no mercado nacional com a maior associação à música”, acrescentou.

“A Optimus é a marca no mercado nacional com a maior associação à música.” (Pedro Moreira da Silva)

O Optimus Primavera Sound é o festival mais recente com a assinatura da Optimus. Realiza-se no Porto e teve em 2012 a sua primeira edição, com um público maioritariamente estrangeiro (70%, constratando com os 30% nacionais) que encheu restaurantes, movimentou taxis e encheu hotéis na cidade invicta. O Optimus Primavera Sound é um exemplo de como um festival é importante para o desenvolvimento do turismo e da economia local, atraindo milhares de estrangeiros que de outra forma provavelmente não visitariam à cidade. De facto, um festival é visto cada vez como um destino de férias. Percebendo esta importância, a Optimus incorporará este ano na app do festival um guia turístico para a cidade do Porto e arredores, estabelecendo assim uma relação entre música e turismo. As vendas de bilhetes este ano estão a correr melhor que em 2012, referiu Pedro Moreira da Silva: “Não está tudo em crise.”

Pedro Moreira da Silva relembrou as outras áreas onde a marca actua, como a Optimus Discos, uma editora independente que se encarrega de editar novos talentos, abrangendo os vários estilos musicais, não só de pop-rock.

Questionados sobre o que contava mais num festival, se a experiência no recinto (onde estão as marcas), se o cartaz, os três oradores não encontraram uma resposta, realçando que depende muito do festival e consequentemente do tipo de público. Há quem vá aos festivais pela música apenas, e há quem vá pelo entretenimento social extra-música.

Por último, Rui Almeida abordou o desinvestimento em festivais por parte da EDP este ano. Recorde-se que em 2012 a marca energética foi patrocinadora principal do Festival Paredes de Coura e do Cool Jazz Fest. Este ano, a EDP está apenas no Cool Jazz Fest, chamando-lhe EDP Cool Jazz Fest. Rui Almeida acredita que este desinvestimento não é inocente, que é um desinvestimento estratégia, uma “retirada pontual para preparar algo mais estruturado” a apresentar provavelmente no ano que aí vem. Um festival de raiz da EDP?

Re-Food

(Dada a dimensão e complexidade desta apresentação, não é possível para já apresentar uma síntese da mesma. Fica para breve.)

Novas Tecnologias e Ecologia

Estão os festivais a tornar-se mais verdes e adaptados às novas necessidades e exigências tecnológicos? Foi a esta pergunta que o segundo painel do primeiro dia tentou responder. O debate contou com a moderação de João Moleira, jornalista na SIC Notícias, e a participação de Davide Pinheiro, jornalista na Disco Digital e blogger na Mesa de Mistura, João Carvalho, director da Ubbin Labs, empresa responsável pela Palco Principal, Nuno Sequeira, Presidente da Quercus, e Ricardo Nuno, Project Manager da Bilheteira Online.

João Carvalho salientou a importância dos festivais de música no crescimento do Palco Principal, a maior rede social de música em Portugal. E como o conteúdo é rei, isto é, a tecnologia por si só não vale de nada, o Palco Principal vive do conteúdo e os festivais de música são uma das principais fontes de conteúdo daquela rede social. O Palco Principal dispõe de vários grupos de discussão para os festivais; existe um grupo para cada festival, no qual são partilhadas fotos e vídeos e é gerada uma discussão, fomentada na partilha.

João Carvalho acredita que no futuro próximo a TV por subscrição deixará de fazer sentido, bastando uma ligação à internet para consumir conteúdo. Existe um número cada vez maior de pessoas com acesso à Internet, seja ela fixa ou móvel. Essas pessoas querem conteúdos rápidos, visuais e nem sempre muito aprofundados. Tudo tendências que o Palco Principal tenta, segundo João Carvalho, acompanhar.

Ricardo Nuno, da Bilheteira Online, confirma a relevância da Internet no mundo dos festivais. A Bilheteira Online é a maior bilheteira a funcionar electronicamente, vendendo não só bilhetes para espectáculos, como também gerindo alguns espaços. Ricardo Nuno afirma existirem um número em crescimento de pessoas que procuram bilhetes na Interne, acreditando que no futuro esse número será muito grande.

Ricardo Nuno vai mais longe e diz mesmo que a bilheteira em papel pode ter os dias contados, olhando para o smartphone e até para o próprio Cartão Cidadão como formas alternativas de transportar o bilhete e de o validar no recinto. Por exemplo, no Vodafone Mexefest 2012, foi possível comprar o bilhete através da app oficial do festival, bilhete esse que era entregue sob a forma de pulseira e trocado por uma pulseira à entrada. Na Semana Académica de Lisboa, foram feitos testes com bilhetes introduzidos no Cartão do Cidadão.

A bilheteira digital permite, para Ricardo Nuno, um melhor controlo das entradas nos espectáculos, uma vez que as pulseiras podem ser quebradas. Representa também uma poupança do papel, algo que para Nuno Sequeira, Presidente da Quercus, é muito bem-vindo.

Os festivais têm sempre um impacto ambiental; no entanto, Nuno Sequeira diz que este deve ser minimizado. Tanto a localização como a dimensão do próprio festival são, desde logo, factores determinantes no cálculo desse impacto. Os festivais de maior dimensão tendem, por regra, a serem mais prejudiciais ambientalmente; contudo, o impacto pode ser reduzido se estes desenvolverem boas práticas nesta matéria.

Reduzir os recursos utilizados na implementação do festival, reutilizar os materiais (por exemplo, os copos das cervejas), implementar produtos reutilizáveis e biodegradáveis, promover o uso dos transportes públicos, reaproveitar as águas e afastar os eventos de habitats sensíveis, preservando a biodiversidade, são exemplos de boas práticas.

Nuno Sequeira tem uma postura optimista: “Existe uma preocupação ambiental por parte dos festivais, embora isso não seja muito visível pelo grande publico.” Ainda assim, o presidente da Quercus reconhece que nem todos os festivais mostram preocupações ecológicas.

O pós-festival é igualmente importante. Há que fazer a recolha dos detritos, a separação do lixo e a reposição da vegetação danificada. Questionado sobre o impacto do som no meio ambiente, Nuno Sequeira desvalorizou-o. “Não é o mais problemático”, disse, ainda assim, “os impactos maiores são naturalmente nos animais”.

Davide Pinheiro, blogger da Mesa de Mistura, lembrou o Boom Festival como um exemplo nacional no campo da ecologia. Infelizmente, Artur Mendes, Director de Comunicação do festival, não conseguiu estar presente. Ainda assim, o festival teve representação no evento. O Boom Festival não aceita qualquer patrocínio de grandes marcas, uma vez que não quer ficar dependente destas, não quer que elas condicionem o evento.

Músicos: preparação para um Festival

“Cada vez mais as pessoas ouvem aquilo que querem.” (André Tentugal)

“Os festivais são uma máquina que tem de estar muito bem oleada.” (Jorge Romão)

“Quando deixar de haver público, deixa de haver festivais” (Jorge Romão)

Como se prepara um músico para um festival? Em que difere a preparação de um concerto de um festival de um concerto de sala? Tocar num festival é completamente diferente de tocar numa sala, os públicos são diferentes, os ambientes também, e a intimidade é maior nesta última. “Numa sala pequena as pessoas estão só para nos ver, o que implica maior responsabilidade da nossa parte, da parte dos músicos”, observou André Tentugal. “Já num festival, as pessoas querem ver várias bandas e às vezes vêem-nos só por acaso“, rematou o músico dos We Trust, banda cujos primeiros concertos da banda aconteceram em festivais (primeiro o Milhões de Festa, depois no Paredes de Coura). André Tentugal deixou claro que actuar num festival não é necessariamente mais difícil, requer, sim, uma preparação diferente, é um desafio diferente.

“Sempre que nos convidam para tocar num festival, é um orgulho fazê-lo, principalmente quando nos festivais portugueses não é muito fácil ter as bandas portuguesas”, referiu André Tentugal, que foi muito crítico relativamente ao facto de os projectos nacionais não estarem, na opinião do músico, convenientemente representados nos festivais portugueses. Tentugal não concorda com o facto de as bandas portuguesas abrirem os festivais às 17 horas e depois praticamente no cartaz só constarem nomes internacionais. “Dizem que as bandas portuguesas não vendem. Quando são inseridas nos festivais, estas são aquelas que abrem, que aquecem”, referiu, realçando que este tratamento às bandas nacionais não é visto lá fora, onde, por exemplo, encontramos dias de festivais que encerram com nomes do respectivo país.

Jorge Romão, músico dos GNR, falou das restrições horárias. Nos festivais, uma banda X tem de começar o seu concerto à hora pré-estabelecida e terminar à hora igualmente definida. Nos concertos da banda a flexibilidade é maior, os horários não são rígidos.

Jorge Romão aponta um outro problema: o soundcheck. “Normalmente só o cabeça-de-cartaz é que faz o ensaio completo de som”, revelou. Um soundcheck demora algum tempo, normalmente 1 hora; o demorar mais ou menos depende muito da perícia da equipa técnica, da rapidez do artista, entre outros factores. Se todas as bandas fizessem um soundcheck completo, o público teria de esperar uma hora ou mais entre uma banda e a outra. Não há tempo para todas as bandas testarem o som. Assim, as bandas não-cabeças-de-cartaz têm direito apenas a um teste rápido, sendo os restantes ajustes feitos ao longo do concerto.

André Tentugal contou como a sua banda contorna esta barreira: “Fazemos livecheck”, isto é os concertos nos festivais começam com uma música, na qual entra um instrumento de cada vez, primeiro a bateria, depois o baixo, etc. Desta forma, são feitos os ajustes a cada instrumento, faseadamente, para nas restantes músicas o som soar o melhor possível.

Quanto ao alinhamento dos concertos em festivais, a estratégia por parte das bandas é uniforme: “apresentar um disco novo e, ao mesmo tempo, potencializar um album mais antigo, testar novas músicas, avaliando a reaccao do público às mesmas”, revelou Freddy Rocks, músico de reggae, que tem uma participação habitual em festivais (são raras as vezes que pisa o palco de uma sala). De facto, se pensarmos bem, as bandas tentam fazer isso mesmo: apresentam nos festivais um álbum novo, tocam as músicas mais antigas, aquelas de que o público gosta (é uma forma também de saber se ele ainda gosta delas ou se já não) e apresenta novos temas (como tem um público à frente pode saber de imediato a reacção dele a essas músicas, determinando se as altera ou não antes de as editar).

Freddy Rocks diz que a sua preparação passa também por saber quem toca antes e depois dele, uma vez que isso determina todo o espectáculo, incluindo o público. “Existe uma preparação específica para cada cartaz, para cada festival”, afirmou.

Aproveitando o facto de em palco estarem quatro músicos portugueses, discutiu-se a relação entre a música portuguesa e os festivais. Jorge Romão, dos GNR, começou por elogiar o Festival Paredes de Coura, destacando o seu papel importantíssimo na divulgação de novas bandas, bandas emergentes, muitas delas nacionais. Jorge Romão mostrou-se de consciência tranquila nesta área, afirmando que os GNR estão atentos às novas bandas portugueses, dando a algumas a oportunidade de abrirem os seus concertos. Os Pontos Negros abriram para GNR e os Capitão Fausto para os Xutos&Pontapés.

“As bandas têm de conquistar o palco principal”, disse Zé Pedro dos Xutos(&Pontapés), referindo-se aos grandes festivais de música, como o Rock In Rio, onde a sua banda já tocou por diversas vezes (inclusivé no palco principal). “Os portugueses mais facilmente tocam no seu país, daí que sejam menos apetecíveis de irem para um palco principal”, acrescentou. Ainda assim, Jorge Romão lembra que se acabou com “o palco dos portugueses”, começando-se a meter bandas portuguesas no palco principal. Freddy Rocks partilha a mesma opinião, acrescentando que a qualidade apresentada é muito maior e lembrando também a facilidade com que gravam um disco e se divulgam na Internet.

Zé Pedro reforçou a preocupação do Festival Paredes de Coura com as bandas portuguesas, referindo que o último dia da última edição contou com três nomes nacionais no palco principal: Capitão Fausto, Dead Combo e Ornatos Violeta (estes últimos, “uma lufada de ar fresco na música portuguesa” para Zé Pedro). O concerto de Ornatos Violeta marcou a reunião da história banda portuguesa e fez daquela noite a maior enchente de sempre do festival. Os organizadores do Paredes de Coura já estavam há 2 anos em cima dos Ornatos, pedindo que eles se juntassem para um concerto de consagração. Assim que se soube do regresso da mítica banda de Manel Cruz, os “cachés dos outros festivais subiram imenso“, mas os Ornatos escolheram Paredes para a sua reunião. Os Ornatos foram uma banda que as pessoas conheceram quando já não existiam e gerou-se uma expectativa sobre como soariam ao vivo. “Tenho fé que os músicos portugueses vão conquistar cada vez mais o pódio nos festivais nacionais”, confessou Zé Pedro.

É o Reino Unido que domina o mercado europeu de música, dividindo curiosamente este mercado em mercado britânico e mercado europeu, como se o Reino Unido não fizesse parte da Europa. “Os ingleses estão fechados às bandas do resto da Europa”, considerou Zé Pedro. O músico referiu que a música é má tratada em Portugal pela classe política, fazendo o contraste com a realidade francesa, onde existe um Ministério de Cultura que de facto apoia a música, proporcionando aos músicos condições de trabalho muito boas; e é, por isso, que em França encontramos muitos projectos de música com sucesso exterior. “Temos de nos abrir ao mercado espanhol. A nossa indústria não suporta as nossas bandas”, disse Zé Pedro.

André Tentugal vê os festivais nacionais ao nível dos internacionais. Questionado sobre o que mudava nos nossos eventos, o músico referiu os horários, sugerindo que os concertos começassem mais cedo como acontece num festival belga, onde os palcos abrem ao meio-dia. Já Jorge Romão diz que é preciso “re-educar o público para estar a horas nos concertos”. Muitas vezes, nos bastidores os promotores pedem aos músicos para estes aguentarem 30 minutos, de forma a que a sala se componha. Freddy Rocks, por seu lado, sugere festivais de outros géneros musicais, para além do pop-rock.

Uma pessoa da audiência diz que é muito mais fácil ir buscar uma banda francesa ou sueca do que uma portuguesa, porque estas pedem, por vezes, cachés exageradamente altos, para além que as bandas europeias tentam mexer-se mais, dando mais concertos por um preço mais barato. “Pediram 17 mil euros para ir aos Açores com uma comitiva de 18 pessoas”, contou.

Música Electrónica

“Os grandes headliners dos festivais são hoje as bandas de antigamente: Blur, Mu Blood Valentine, Radiohead…” (Cláudia Duarte)

“Ha 20 anos ouvia-se música electronica em sitios ilegais.” (Cláudia Duarte)

“Comprei os meus pratos há 11 anos e sempre gostei de fazer live acts. E sempre tivemos muito medo dos técnicos de som que vêem do rock.” (DJ Ride)

“Destacaram-se os produtores que têm algumas musicas para um nicho muito especifico e que depois se viram DJs de culto.” (DJ Ride)

“Eu estou a borrifar-me para o David Guetta. Eu quero que ele se lixe.” (Rui Estêvão)

O painel composto pela Cláudia Duarte, autora da Casa Cláudia e DJ, pelo DJ Ride, pelo Joaquim Poças, Director da Rádio Nova Era, pelo Mastiksoul, DJ, e pelo Rui Estêvão, Radialista Antena 3 e DJ também, discutiu o fenómeno de popularidade da música electrónica, da dança e do djaying nos festivais de música.

A música electrónica tem conquistado recentemente espaço nos festivais de música, enchendo tendas ou palcos, e também nas salas. “Os promotores dos festivais estao a descobrir agora a musica electrónica”, observou Joaquim Poças, director da Rádio Nova Era. Rui Estêvão concorda: “Assistimos a um partir da loiça da música electrónica. Começa a aparecer o respeito dos promotores por este tipo de música.”

Joaquim Poças vê os DJs como pessoas criativas, uma vez que são capazes de pegar numa série de músicas/sons e misturá-los de uma forma única e interessante. DJ é também ele um divulgador de música. Não é qualquer um que é DJ. Para se o ser é preciso gostar muito de música, tem que ter amor à música. “Ser DJ não é virar frangos numa churrasqueira”, afirmou o director da Rádio Nova Era. Pelas suas qualidades técnicas, criativas e profissionais, um determinado DJ destaca-se naturalmente dos outros DJs, rematou.

“Os DJs não querem ser rock stars. Querem passar música, querem estar atrás dos discos. Não interessa se as suas botas são verdes ou azuis”, explicitou Rui Estêvão. Para Cláudia Duarte, autora do programa Casa Cláudia na Rádio Radar e igualmente DJ, os DJs são rock stars na medida que arrastam multidões e ganham Grammys. “Os DJs são os únicos artistas que nos últimos 15 anos têm conseguido manter uma legião de fãs que só as bandas antes conseguiam ter”, referiu Cláudia Duarte.

“O Ride é um historiador da música.” (Cláudia Duarte)

DJ Ride, que foi descrito por Cláudia como “um historiador da música” (“Eu oiço um set teu de 1 hora e levo uma lição de musica, mesmo que não passes nada teu.“), referiu existir um um delay muito grande entre o que se passa lá fora e o que existe cá dentro, na medida em que, por exemplo, surge uma sonoridade nova no estrangeiro que só muito tarde se tenta implementar em Portugal. E esse delay acontece, na opinião do campeão mundial de scratch, por os promotores em Portugal não terem uma visão abrangente e open-minded das coisas. “Há quem mude e por outro há quem ainda esteja a viver no passado”, disse, contanto que um promotor uma vez lhe disse que não trabalhava com DJs.

Olhando para o seu percurso pessoal, Ride disse: “Às vezes tem de se vingar lá fora para depois se vingar cá dentro. É uma parvoíce.” O DJ mostra-se, ainda assim, optimista relativamente ao panorama nacional. “Houve muitas vitórias nos últimos tempos”, disse, realçando o facto de a editora Discotexas estar presente no Optimus Alive.

“Às vezes têm de se vingar lá fora para depois se vingar cá dentro. É uma parvoíce.” (DJ Ride)

DJ Ride, que confessou no início não queria ser produtor nem DJ mas apenas fazer música com os pratos, criticou a banalização do djaying: “Todos são DJs actualmente. Com um laptop, qualquer pessoa consegue meter som.” Faltam workshops sobre djaying para DJs e promotores.

“A rádio, a MTV e a SIC Radical têm muita culpa na má divulgação da música electrónica. Vão para um lado e não para o outro”, disse Rui Estêvão, referindo-se ao facto de só a electrónica mais comercial ser difundida, o que cria no grande público uma percepção errada sobre esta área.

“A rádio, a MTV e a SIC Radical têm muita culpa na má divulgação da música electrónica. Vão para um lado e não para o outro.” (Rui Estêvão)

Mastiksoul intensificou o debate com polémicas acusações. O DJ, que iniciou a sua carreira na música em 1991 e que actuou no Tomorrowland em 2012, começou por felicitar o aparecimento dos laptops, uma vez que estes armazenam toda a música que antes se encontrava espalhada por uma série de pesados vinis, sendo o resultado multas por excesso de peso em aeroportos.

“Eu já toquei em todos os melhores festivais do Mundo e não toquei em nenhum grande festival português”, alegou Mastiksoul, carregando nas palavras em tom de descontentamento. O DJ não compreende como é que existindo em Portugal grandes marcas a patrocinar grandes festivais não tenha tocado em nenhum deles. As pessoas lá de fora também não percebem por que motivo isto acontece, disse Mastiksoul. “As marcas apoiam só aquilo que vem lá de fora. Aquilo que nós fazemos não é valorizado.”

“Nos festivais grandes não tens os DJs portugueses. Se os tens, eles tocam para as pessoas que estão nas casas-de-banhno. Isto é ridículo.” (Mastiksoul)

“Nos festivais grandes não tens os DJs portugueses. Se os tens, eles tocam para as pessoas que estão nas casas-de-banhno. Isto é ridículo”, disse Mastiksoul, referindo-se ao facto de os DJs nacionais tocarem, segundo o artista, sempre em palcos nacionais ou em festas académicas de recepção aos caloiros. “Nós devíamos chamar aqui os responsáveis pelos festivais MEO Sudoeste e Optimus Alive a lixá-los.” Mastiksoul perguntou à audiência – claramente em discordo com as palavras do orador – se ela conhecia algum DJ português que fosse tocar no palco principal de um destes grandes festivais, ao que DJ Ride, no palco, responde: “Eu fui confirmado hoje mesmo para tocar no MEO Sudoeste”. Mastiksoul pergunta: “No palco principal?”. Ride responde: “Sim, no palco principal”. O público ri-se.

Apesar do embaraço, Mastiksoul continua a sua crítica ao facto de não haver apoio aos grandes artistas nacionais: “Apoiam tudo o que é lá de fora.” A certo momento no debate, falou-se em Avicii, que, segundo Mastiksoul, se popularizou porque lançou um hit, disse. “Quando um DJ tem um hit, a coisa muda”, referindo-se também ao David Guetta, que considerou estar numa carreira de hits. “Se o Avicii fosse português não estaríamos a falar dele neste momento”, lamentou, acrescentando que “eu faço o que posso, faço a música de que gosto, espalho-a ao Mundo.” Ainda sobre o Avicii e o David Guetta, Mastiksoul disse, por fim, que eles merecem estar onde estão e merecem o nosso respeito pelo seu trabalho.

As palavras polémicas de Mastiksoul não se ficaram por aqui, todavia. O artista acusou as rádios nacionais de não querem passar a sua música e confessou que recebe destas ameaças constantes que dizem que só incluem a sua música nas playlists e o apoiam se ele tocar de borla numa das suas festas. Mastiksoul deixou bem claro ser contra tocar à borla nas festas e nos festivais: “Se têm 100 mil euros para pagar ao Avicii, têm 100 mil para pagar a nós. Se me pagarem, eu vou. Se não me pagarem, eu não vou.”

 “As marcas querem fazer de nós escravos e palhaços.” (Maskitsoul)

Mastiksoul continuou a sua onda de protestos, estendendo-os às marcas patrocinadoras dos festivais. “As marcas querem fazer de nós escravos e palhaços.” O DJ não concorda com o facto de as músicas dos spots publicitários dos festivais de música serem internacionais e não nacionais e, uma vez que são as marcas patrocinadoras destes festivais que escolhem as músicas a constarem nesses spots, acusa “esses patrocinadores portugueses” de imporem aquilo que é internacional. Mastiksoul contou que lhe pediram para fazer uma música para uma campanha publicitária de borla e não aceitou. E rematou, dirigindo-se para os músicos presentes na audiência: “Os patrocinadores são os primeiros a virar a cara a todos vocês.”

Rui Estêvão tentou acalmar Mastiksoul, como que um pai que consola uma criança birrenta (Mastiksoul cruzou os braços e fez cara de amuo). “Eu acho que há muitas pessoas que têm inveja de ti”, disse. Rui Estêvão revelou não ser apreciador da música de Mastiksoul, mas lembrou o DJ que foi a Antena 3 que, fazendo serviço público, o apoiou no início. “Tens imensos nomes grandes que não tocam em lado nenhum. Está tudo mal para tudo. Sobretudo para tudo aquilo que é estranho”, disse Rui Estêvão.

Já Joaquim Duarte, director da Rádio Nova Era, em resposta a Mastiksoul, clarificou: “Nós não passamos a música dos DJs, pedindo-lhes que eles actuem numa festa a seguir de borla. Os DJs profissionais têm o seu valor, logo têm de ser pagos. O promotor não pode levar a mal se o DJ se disser que só toca por determinado valor.”

Cláudia Duarte é mais pragmática sobre o assunto de os DJs serem ou não pagos. “Isto é a mesma coisa que os jornalistas aceitarem estágios não remunerados ou os designares trabalhos não remunerados.” Recebeu um aplauso geral por parte do público. “É óbvio que as pessoas que trabalham têm de receber”, prosseguiu, deixando claro que há que fazer um pequeno esforço, trabalhando de borla, para mais tarde se ser recompensado pelo valor do trabalho realizado: “Eu acredito que quem é bom e esta nisto de coracao, mais tarde ou mais cedo acaba por receber.”

Cláudia Duarte, que acredita que “quem vai aos festivais não vai para dar mergulhos no canal mas para ouvir musica”, relembrou que os festivais de música em Portugal (como em outros países) são um negócio, um negócio que representa 1% do PIB e que, por isso, são coisas que “dão de comer a muita gente”. Os festivais têm de ter lucro: “Se eu fizesse um festival com tudo aquilo de que gosto, iam 30 pessoas, talvez.” Daí que o meio termo seja importante: trazer os Blur e a última grande banda nacional, exemplificou.