#SHIFTER2016: os melhores álbuns portugueses


É sempre difícil e ingrato selecionar 10 álbuns, ainda mais quando se trata de escolher entre a produção nacional. Os ânimos chegam a exaltar-se e o assunto não é para menos em anos como este 2016, um ano feliz para a música portuguesa em diversos quadrantes.

A lista que se segue não é um top mas antes um mapa para te ajudar a circular no mundo de música feita no nosso país.

 

Yesterday You Said Tomorrow – EGBO

É só das melhores produções nacionais deste ano. É pesado, dinâmico e progressivo. É da nova label Tsuno. É bossaria infinita. É para ouvir pelo menos uma vez por semana, a seguir às refeições. É melhor que 90% das coisas que vocês ouvem. É incrível e é só o último gig que vou ver este ano. É isto. Bom ano.

 

Villa Soledade – Sensible Soccers

O agora trio nortenho proficiente num estilo eletrónico com influências de Klaus Schulze é do mais avant-garde que o público mainstream português tem ouvido. “Villa Soledade” vem celebrar a popularidade que têm ganho, muito a custo das excelentes performances que dão ao vivo. Talvez a Soledade venha do ambiente nostálgico que conseguem criar, mas a verdade é que Sensible Soccers são os magos do ambiente em Portugal e devem, por isso, ser escutados até à exaustão.

 

Black Bombaim & Peter Brotzmann – Black Bombaim & Peter Brotzmann

Foda-se! Chega dizer isto? Devia. Se não chega, os 2 nomes nos créditos deste disco já são motivo suficiente. De um lado o rock/stoner/progressivo, o que lhe quiserem chamar, mas sempre explosivo, dos Black Bombaim. De outro temos só um dos maiores do free jazz. Juntos, a dupla Bombaim/Brotzmann é das coisas mais arrebatadoras deste ano.

 

Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will Be Asked To – Bruno Pernadas

Sejamos sinceros, qual foi a última vez que viram um projeto de Jazz português a ganhar tanta aclamação por parte de um público tão diversificado? Bruno Pernadas desde “How can we be joyful in a world full of knowledge” que usufrui de uma abordagem similar à dos Snarky Puppy, levar o Jazz às massas, culminando melodias apelativas com uma composição altamente detalhada. Este ano lançou dois discos, “Worst Summer Ever”, que vai de encontro a um formato mais tradicional e o aclamado “Those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them.”, que efetivamente dá continuação à linhagem traçada pelo primeiro trabalho. O disco dos crocodilos emana felicidade em abundância, estilizada por vozes em loops e sintetizadores a apontar para o estilo mais Acid. Este é o melhor sorriso que 2016 nos pôde oferecer.

 

KSX2016 – Keso

KSX2016 marca o regresso de Keso, às edições e aos palcos depois de 5 anos sobre o O Revólver Entre as Flores. KSX2016 é uma visita guiada, por uma série de narrativas alegóricas, ao mundo de Keso, entre as ruas de Londres e o bairro no Porto.  Com produção própria e uma grande diversidade de abordagem aos temas parece ser apenas uma amostra do talentoso músico, multifacetado rapper e inquieto pensador.

 

Still Alive For The Growth – Lotus Fever

O grupo de Pedro Zuzarte, Diogo Teixeira de Abreu, Manuel Siqueira e Bernardo Afonso saiu-se este ano com “Still Alive For The Growth”, um compósito de 9 músicas a marinar numas vibrações 90’s, com uma atmosfera meio noise rock e um estilo de voz a puxar muito para Radiohead. A performance dos músicos é soberba e mostra que o rock português não tem de ser preguiçoso, pode também ele explorar composições físico-químicas tal como os Lotus Fever fazem.

 

Capitão Fausto Têm Os Dias Contados – Capitão Fausto

Há quem diga que os álbuns estão para as bandas como as fotografias de família para quem segue a tradição. E nessa lógica não restam dúvidas que os Capitão Fausto são uma das bandas que pousa melhor. Os Capitão Fausto têm os Dias Contados é um auto-retrato fidedigno e o registo mais intimo dos três da banda Lisboeta talvez por isso provavelmente o menos consensual. Por aqui entre concertos esgotados e noites em loop no spotify fizeram por merecer a sua menção.

 

Marrow – You Can’t Win, Charlie Brown

Os músicos mudam, a música muda. O terceiro dos You Can’t Win, Charlie Brown é diferente do segundo e do primeiro. Mais eléctrico e mais dançável é como podemos olhar para este Marrow, apresentado pelas faixas “Above The Wall” e “Pro Procrastinator”.

 

 

Sean Riley and The Slowriders – Sean Riley and The Slowriders

“Sean Riley And The Slowriders” vê a banda de Afonso Rodrigues regressar na mó de cima. Composto após a passagem do desaparecido Bruno Simões por Timor, traz influências e ideias mais negras. Mais próximo de Cave do que de Dylan, mantém as canções guiadas ao piano (“Pearly Gates é um belíssimo exemplo de como se faz uma balada disruptiva; “Swimming Pool Blue” talvez a canção do disco), mas é nas explosões rock n’ roll que se distingue do que já foi feito noutras alturas.

“Greetings” e “Dark Rooms” são, tanto ao vivo como em disco, motores catárticos. Sem eles, teríamos um belo disco, mas não um disco diverso, crescido e verdadeiramente eclético. As mudanças na banda, como a viagem de Bruno e a chegada dos Keep Razors Sharp, trouxeram mais cores à já vasta palete de tonalidades coleccionadas pelo grupo.

“Dili”, tema de abertura, habilmente escolhido para campanhas publicitárias, é a grande herança de Bruno Simões nesta nova vida de Sean Riley. O sentido “I’m still here, brother” evoca a sua figura, as experiências sónicas que motivava no coração da banda, mas não ofusca os tambores constantes, a tensão que se acumula até ao final da canção que fez deste regresso um sucesso absoluto. Sem “Dili” e sem este disco, Sean Riley and The Slowriders teria poucas razões para continuar, mas a música, de tão forte que é, manteve-os unos. O caminho é para a frente.

 

Aurora – Criatura

A Aurora foi uma agradável surpresa do ano 2016.  Chegou dia 5 de Fevereiro de 2016 pela mão dos Criatura, um “bando” composto por 11 músicos e outros artistas, que contra a corrente recuperam o melhor da tradição oral e musical portuguesa reinterpretando-o à luz dos novos tempos. Aurora é o primeiro registo da Criatura e conta com a ilustre participação do Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa.

A rúbrica #SHIFTER2016 é escrita em colaboração entre vários elementos da equipa e procura reflectir a diversidade de tons, gostos e abordagens que nos caracterizam, sem a pretensão de selecionar o melhor mas sim o mais marcante para a nossa redação.
Previous #SHIFTER2016: os melhores álbuns internacionais
Next #SHIFTER2016: a ciência que marcou o ano