Quando as relações diplomáticas não resistem a uma barra de chocolate


Não é incomum desembrulhar um presente para encontrar uma caixa de bombons, mas na Croácia, quando a Presidente Kolinda Grabar-Kitarovic decidiu deixar uns chocolates no sapatinho de uma turma de crianças de um jardim de infância, o gesto, aparentemente bem intencionado, acabou por surtir um efeito indesejado que escalou até às relações diplomáticas com a Sérvia.

A raíz do problema não está num espontâneo surto de alergias por intolerância generalizada ao amendoim, mas no facto de, no dia em questão, se celebrar na cidade de Dubrovnik o 25º aniversário do cerco conduzido pelos sérvios durante a guerra, que terminou com a proclamação da independência da Croácia. Com isto, os chocolates que a presidente entregava no passado 6 de Dezembro podiam ser de todo o lado menos da Sérvia. Acontece que a falta de atenção ao pormenor acabou mesmo por estragar a festa.

Em resposta ao descuido da chefe de Estado, as redes sociais serviram prontamente como caixa de ressonância. Os encarregados de educação das crianças ficaram incomodados com a história e escreveram sobre isso. “Foi isto que o meu filho recebeu das mãos da Kolinda. Uma barra de chocolate sérvio e a sua fotografia”, escreveu um dos pais. “Não é triste que isto aconteça no dia dos defensores de Dubrovnik?”, pergunta outro dos responsáveis.

A presidente pediu desculpa pelo sucedido, admitiu que não chegou a verificar a origem dos doces e lamentou que tal lhe tenha acontecido uma vez que deu a cara por uma campanha de incentivo ao consumo de produtos nacionais. Em resposta aos croatas indignados, ficou ainda a promessa de que “não vai voltar a acontecer”. “Vamos pedir desculpa aos pais que receberam estes chocolates e enviar-lhes produtos croatas”, acrescentou Kolinda Grabar-Kitarovic.

Mas enquanto o desagrado dos cidadãos croatas se fez sentir com alguma cordialidade, do outro lado da fronteira, em Belgrado, as acusações subiram de tom. Não porque a croata se enganou, mas porque pediu “demasiadas” desculpas por se ter enganado. “Um exemplo incompreensível de racismo”, disse o Ministro do Trabalho, Aleksandar Vullin. “Como é que podemos reatar laços se uma simples barra de chocolate pode provocar tamanha intolerância étnica?”, comentou Rasim Ljajic, Ministro do Comércio da Sérvia.

As relações diplomáticas entre as duas antigas repúblicas jugoslavas está mal de saúde. Desde o fim da Guerra de Independência da Croácia que os países trocam acusações sobre crimes de guerra, genocídio e levam a braços uma disputa sobre vários territórios fronteiriços.

Mais recentemente, a Croácia travou a progressão do processo de adesão da Sérvia à União Europeia para o capítulo da Educação e Cultura. O argumento reside “na falta de progresso na produção de manuais escolares para os alunos que pertencem à minoria croata na Sérvia”, explicou ao Diário de Notícias o eurodeputado croata, Davor Skrlec que sublinhou ainda que o seu país “continua à espera que sejam devolvidas obras de arte roubadas durante a guerra”.

As respostas das caras do executivo sérvio têm servido para notar o agravar das tensões. Depois do STOP dado pela Croácia ao avanço das negociações, o primeiro-ministro do vizinho balcânico, Aleksandar Vucic, afirmou à imprensa que o país está pronto para “começar a falar de maneira diferente”.

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