Há uma petição para salvar o Teatro da Cornucópia


O anúncio do fim do Teatro da Cornucópia, em Lisboa, entristeceu a sexta-feira – rapidamente se ficou a saber que o último espectáculo seria no sábado a seguir. Mas será que foi mesmo? Ainda há esperança que a companhia de teatro, com mais de 40 anos de serviço, não acabe como anunciou.

Na sexta, a Cornucópia anunciou que ia fechar por discordar dos actuais modelos de gestão. “Pensamos que, ao longo destes anos, fizemos muito e menos mal, mas também julgamos já ter idade para ousar dizer que não sabemos nem queremos adaptar-nos a modelos de gestão a que dificilmente nos habituaríamos a cumprir. Isso faríamos mal. Talvez seja tempo de parar a actividade”, podia ler-se no comunicado divulgado pela companhia de teatro.

Uma hora antes das 16 horas, o horário programado para o início do anunciado último espectáculo da Cornucópia, de entrada gratuita, uma fila com mais de uma centena de pessoas era visível junto das portas do teatro, em pleno bairro do Príncipe Real. Nem todas conseguiram assistir ao recital, que contou com a participação de actores e músicos que têm trabalhado ao longo dos anos com a companhia. Já decorria o espectáculo e outra centena de pessoas aguardava entrada no hall do Teatro.

Com uma lotação de 115 lugares sentados (visivelmente ultrapassada), a sala do Teatro da Cornucópia encheu-se de uma plateia intergeracional, incluído várias crianças, e alguns notáveis. A assistir na primeira fila estavam nomes como Edite Estrela (deputada socialista), Rui Vieira Nery (musicólogo), Augusto M. Seabra (colunista e crítico), Rita Blanco (actriz) e Leonor Xavier (jornalista e escritora). No palco, um piano de cauda, um púlpito azul, um alinhamento de cadeiras e uma mesa de madeira enquadravam as palavras de Guillaume Apollinaire, um dos mais importantes ativistas culturais da vanguarda, do início do século XX, que ecoavam pelas vozes dos vários atores presentes, também eles representativos de várias gerações.

A quebrar o silêncio e a concentração, a entrada da actriz Márcia Breia em cena e o abraço longo e emotivo a Luís Miguel Cintra, que fundou o Teatro da Cornucópia em 1973, com Jorge Silva Melo. A estreia deu-se com a peça “O Misantropo”, de Molière, a 13 de Outubro de 1973, no antigo Teatro Laura Alves, na rua da Palma, em Lisboa, hoje transformado numa sapataria. Em 1975, a companhia mudou-se para o Teatro do Bairro Alto (antigo Centro de Amadores de Ballet), onde permaneceu até à actualidade.

Ao longo de quatro décadas, a Cornucópia centrou-se sobretudo na dramaturgia contemporânea, “com a intenção de construir um teatro de reflexão com uma função ativa na realidade cultural portuguesa”, como se lê no site do grupo de teatro. Encenaram-se peças de Shakespeare, Tchekov, Moliére, Genet, Pasolini, Strindberg, Holderlin, Brecht, Garcia Lorca, mas também Gil Vicente, Camões, Almeida Garrett e António José da Silva. Conta, segundo elenca o teatro, “126 criações no histórico, três estreias mundiais, 25 textos dramáticos portugueses, dezenas e dezenas de actores de todas as gerações, encenadores convidados, espetáculos acolhidos e coproduzidos”.

Marcelo Rebelo de Sousa, também visitou o Teatro da Cornucópia no seu último dia. O Presidente da República chegou ao teatro pouco depois das 15 horas numa tentativa de evitar que o espaço e a companhia encerrem definitivamente. “Vale a pena falar mais um bocadinho, para ver se é possível ou não um projecto que não seja o do encerramento”, comentou Marcelo ao lado do Ministro da Cultura, Luís Castro Mendes, do fundador do Teatro, Luís Miguel Cintra, e da cenógrafa e co-diretora Cristina Reis.

“As conversações estão em curso, e continuam em curso”, afirmou o ministro Luís Castro Mendes. Está em curso uma petição online a defender o estatuto do Teatro da Cornucópia como património nacional e a contestar o fim daquela companhia de teatro. Já reúne mais de mil assinaturas.

Texto de: Lusa/Shifter

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