Capitão Fausto no Coliseu: estrelas, com certeza


Há um ano, os Capitão Fausto decidiram dedicar-se em exclusivo à música. Desde então cimentaram as bases da editora Cuca Monga, lançaram novas bandas e ainda correram o país em digressão com o disco Capitão Fausto Têm os Dias Contados, considerado por grande parte da imprensa nacional como o melhor de 2016. A terminar o ano, deixaram-nos uma surpresa nas redes sociais: os amigos de liceu, antigos IC19 e fãs de Metallica, fizeram mira ao cosmos e apontaram uma data no Coliseu. Nada seria o mesmo desde então.

Ensaios, ensaios e ensaios. Entrevistas, entrevistas e entrevistas. Foi assim o último mês da banda lisboeta. Disseram em todas elas estar pouco nervosos, mas lá no fundo, bem antes de subirem a palco, o coração deve ter apertado como nunca, apesar do estatuto meteórico. Sem tangas, e para não enganar ninguém, impõe-se esclarecer que o autor do texto não é imparcial: viu a banda crescer, tocar nos maiores festivais e esgotar dezenas de salas. Nesse período, os Capitão Fausto confirmaram a qualidade de estrelas; têm cartazes, clubes de fãs e fatos feitos à medida.  São estrelas pequenas – centauris, por exemplo –, mas estrelas ainda assim. Em sete anos, passaram da coqueluche à consensualidade. Ouvimo-los em toda a parte, sem que para isso tenham deturpado ponta da sua essência original. Relaxados, mas sem relapsos, vieram em trajetória ascendente. E é nesta fase que os encontramos, ali, no Coliseu.

“Corazón”, depois de uma entrada instrumental guiada por obóes, flautas, trompete, trompa e clarinete – sem esquecer o contrabaixo de Pedro Wallenstein, as guitarras acústicas de Luís Montenegro e a percussão de Diogo “Horse” Rodrigues –, arranca do chão os três milhares de pessoas necessários para encher a plateia do Coliseu. São as guitarras estaladiças que dão a ordem: qual coro, os riffs são vocalizados como se de refrãos se tratassem, aquecendo a gélida e invernosa sala; hooligans do rugby, betos e melómanos urbano-depressivos põem divergências à parte em noite de agradecimento aos cinco em cima do palco, tão convenientemente dispostos em círculo visível por todos e no meio de todos. Uno, o público oferece o que a banda precisa, e ainda mais.

De um só travo, bafejam-se quatro canções (“Morro na Praia”, “Maneiras Más”, “Nunca Faço Nem Metade” e “Mil e Quinze”) sem pausas, para que o alinhamento fluísse como desejado. Rápidos e indolores, os Faustos não dão secas; com canção a tornar-se hino, torna-se difícil encontrar temas incógnitos no meio do alinhamento extenso. Nem mesmo “Lameira” – tema longo, complexo e exigente – perdeu fulgor depois da euforia coletiva em torno das orelhudas “Santa Ana e “Tem de Ser”. Tomás Wallenstein, prometendo-se voyeur de um Portugal em ruínas, faz uso da rouquidão emprestada por maços e maços de cigarros e deixa-nos incomodados com o “partir subitamente”. Pensamos na morte, na vida, no amor e não sabemos como o ler. Será partir daqui, fisicamente? Será sair de fininho de uma relação manhosa? Nada disso interessa, passada a primeira metade da música. Teclados desconcertantes e baterias aceleradas entram de rompante, puxando aplausos ruidosos e sem fim à vista. Os sete minutos da canção – com final em queda livre – lançam a apoteose para a hora de concerto restante.

“Litoral” continua o ritmo vertiginoso da noite. Salvador Seabra, com as pancadas velozes nos pratos de choques, obriga os colegas a apressar o passo. De dentro para fora do círculo, são cuspidos acordes imponentes. Os Capitão Fausto vão acenando aos conhecidos e aos desconhecidos, havendo a meio uma breve pausa para Domingos Coimbra se expressar grato aos que ali homenageavam uma amizade já longa. Vemos-lhe (a Domingos) um sorriso tão grande que nos obrigamos a conter a comoção — ou não estivéssemos comprometidos com a imparcialidade. O sonho dele e deles, ao som da wilsoniana “Semana em Semana”, cumpria-se ali. Abafada pela banda, a orquestra solta sopros fortes, mas em primeiro plano não deixam de estar sempre os roqueiros de Alvalade.

É sobremaneira belo o que estes rapazes nos vintes conseguem fazer com tantos e tão variados elementos musicais: os Capitão Fausto exploram a canção no sentido tradicional, as epopeias prog, gabadas pelo próprio José Cid, e deixam ainda um pézinho dentro do caldeirão psicadélico, passando cada um dos elementos por vários instrumentos (sobretudo nos projectos paralelos). Ainda neste close-up, urge-nos confessar: é mais do que justo Tomás, Salvador, Manuel, Domingos e Francisco estarem ali e agora. Foi rápido, mas inquestionável, e ninguém que tenha estado no Coliseu o poderá rebater. Não será todos os dias que milhares de devotos se entregam gritando “eu vou morrer, eu vou morrer”, mas acontece ter sido esse o efeito de Os Dias Contados no Coliseu. As juventudes adultas de Wallenstein, compositor com dores de crescimento, e do seu público — sedento de compreensão e de auto-identificação — cruzam-se e lançam a catarse coletiva. Adiante, revisitam-se “Supernova” e “Ideias”, do primeiro disco, com algumas alterações à forma da segunda, especialmente congeminadas para este concerto.

“Teresa” recebe o grande singalong da noite. Depois de vários anos sem tocarem a canção “maldita” — todos a querem ouvir menos a banda, naturalmente fatigada dela —, faz-se chegar o momento certo para quebrar o hiato. Em dia de celebração, salta-se o protocolo durante três demasiado curtos minutos de gente pululante, vozes no alto e telemóveis em riste. Ainda assim, continua a valer a pena esperar por tão pouco tempo.

Com a estratégia bem definida, atalham com “Verdade”, tema obrigatório, até “Amanhã Tou Melhor”. Primeiro single de Capitão Fausto Têm Os Dias Contados, colou-se-nos logo no início de Abril, e desde então parece não cansar, mesmo que repetido à exaustão. Fervorosa, a legião de fãs acenou-lhes a despedida para encore com clamores de regresso. Em apoteose, cintilante nos seus blazers vistosos, a banda desce junto do público, que a agarra, beija e idolatra. Não disse que eram pequenas estrelas?

Sabia-se no entanto que a saída breve, faltando “a canção” da nova vida dos Capitão Fausto. Volvidos com “Célebre Batalha de Formariz”, apresentam o grupo e equipa técnica, agradecem e deixam a balada. “Alvalade Chama Por Mim”, sem qualquer tipo de aviso, vê piscar no ar centenas de telemóveis, lanternas para o fim de noite com lágrimas e saudações festivas entre camaradas. Alvalade e a Rua do Centro Cultural vêem os filhos pródigos, que tantas noites se fecharam em gravações madrugadoras, triunfar sobre todas as comparações inusitadas e maledicência, sobressaindo como uma das bandas mais trabalhadoras da música portuguesa. É com um sorriso que estas centauris deixam a sala, sobrando-nos delas uma imagem particularmente nítida até aos dias de hoje: Wallenstein júnior e sénior, no adeus, trocam o longo e mais forte abraço que podia haver, o abraço da missão (mais do que) cumprida.

Espreita a fotogaleria completa aqui.

Fotos de: Manuel Casanova/Shifter

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