45 discos de 2006 que vale a pena recordar


É verdade que 2006 não contou tantas e tão importantes perdas como 2016, mas foi há dez anos que ficámos sem J. Dilla e Syd Barrett, dois homens bem à frente do seu tempo, mesmo que em tempos muito diferentes.

O Myspace viveu o seu tempo: Arctic Monkeys, Beach House, Lily Allen e Linda Martini tiraram proveito da plataforma. Os Gnarls Barkley fizeram a ponte para a idade digital da indústria. Amy Winehouse mexeu com o passado, Burial e T.I. inventaram o futuro. No trono pop, Madonna ia-se aguentando, mas Justin Timberlake já era Rei sem espaço para discussão.

O rock ia respondendo de forma mais (The Hold Steady) ou menos (TV On The Radio) convencional. Por cá o hip hop teve um ano singular, com várias edições e dois álbuns importantíssimos, o primeiro de Halloween e o último de Sam the Kid. Os Dead Combo desenvolviam a sua linguagem tão singular e os Buraka Som Sistema criavam a sua.

Adaptando uma célebre questão retórica do ex-comentador Marcelo Rebelo de Sousa: vamos aos discos?

1 – Cat Power, The Greatest

O álbum conserva o som da soul de Memphis que celebrizou a Stax Records e foi gravado na cidade – nos Ardent Studios, onde tinham gravado Al Green e Booker T & the MG’s.

2 – J. Dilla, Donuts

Os donuts a que o título se refere serão os discos de vinil que sampla ao longo destas 31 faixas e os objetos que marcaram a sua obra, a sua vida. Discos soul, hip hop, rock, psicadélicos, bollyhood e de compositores clássicos.

3 – Sam The Kid, Pratica(mente)

Ao contrário do que muitos terão pensado, não entrámos na suposta Idade de Ouro do hip hop tuga. 2006 foi o ano de edições de Nigga Poison, SP & Wilson, Ex-Peão, Mind da Gap, entre outros, mas a grande mensagem deste disco vem em “Poetas de Karaoke”, eventual momento de viragem no panorama nacional: a língua.

4 – Amy Winehouse, Back To Black

Amy Winehouse era diferente, as definições podem variar de pessoas para pessoa, mas há uma ideia-chave que fica: real. Amy Winehouse era real em tudo o que a sua realidade tinha de bom e mau. É verdade que a Internet já estaria na sua fase adulta, mas Amy Winehouse pode ter sido atropelada pelo mediatismo do século XXI.

5 – Linda Martini, Olhos De Mongol

Não será assim tão arrojado referir que também passa por aqui a revolução da língua, do inglês para o português, então cimentada nos anos que lhe seguiram.

6 – Burial, Burial

É difícil imaginar um mundo sem Burial, sem este som que parece que esteve sempre aqui. O dubstep que inventou é uma coisa anterior ao seu tempo, um tempo que viria acontecer nos anos que se seguiram.

7 – Arctic Monkeys, Whatever People Say That I Am, That’s What I’m Not

É um daqueles álbuns que corta o tempo ao meio – foi o primeiro disco a aproveitar-se de forma óbvia da Internet, no geral, e da rede social do momento (o Myspace) em particular.

8 – Beach House, Beach House

Não foram compreendidos à primeira. A crítica lá apontava referências óbvias (Mazzy Star, Yo La Tengo, Broadcast), mas mostrava pouco entusiasmo. O público ficava-se pelo culto Myspace, mas muito longe da histeria de uns Arctic Monkeys.

9 – Halloween, Projecto Mary Witch

“O que é isto?”, perguntávamos todos, tenhamos descoberto Halloween em 2007, 2008 ou 2010, apreciemos ou não o estilo. O segredo terá sido esse: fazer diferente, dividir a nação hip hop, provocar o boca a boca, originar um culto.

10 – Justin Timberlake, FutureSex/LoveSounds

Enquanto Beyoncé ainda rivalizava pela coroa com Madonna, Timberlake não avistava concorrência. Michael Jackson, infelizmente, já estava mais morto do que vivo, Prince ia dando notícias, Drake não existia.

11 – TV On The Radio, Return To The Cookie Mountain

É raro encontrar um disco assim, em que a aventura e a melodia andem de mãos dadas e o resultado, do jazz ao psicadelismo e à soul, seja tão saboroso e acessível. Tem ainda o mérito de ter uma das últimas colaborações de David Bowie.

12 – T.I., King

King de T.I. é ponto de partida para a década de hip hop que se seguiu. É um barómetro para o que se seguiu entre 2006 e hoje, mas na altura significou uma viragem em relação ao hip hop mais sulista do rapper.

13 – The Hold Steady, Boys And Girls In America

Numa altura em que o Boss regressava às edições regulares, os The Hold Steady eram o melhor Bruce Springsteen que íamos tendo.

14 – East River Pipe, What Are You On?

Em 2006, East River Pipe, o projecto, assinalava já os 17 anos, décadas de droga e álcool. E é esse o tema central do disco: as drogas. Tudo de forma honesta e sem grandes subterfúgios. E com ótimas melodias.

15 – Belle & Sebastian, The Life Pursuit

É curioso que, na mesma semana, os She Wants Revenge tenham fugido do sol da Califórnia para se refugiarem no som negro de Manchester, e os Belle & Sebastian tenham optado por um percurso inverso: para gravar The Life Persuit, os britânicos fugiram do frio escocês para gravar em Los Angeles, no sol dessa mesma Califórnia.

16 – Jason Collett, Idols of Exile

Jason Collett aproveita a baixa forma de dois dos mais importantes artistas do século XXI na categoria a que se convencionou chamar de escritores de canções ou cantautores: Josh Rouse e Ryan Adams.

17 – Man Man, Six Demon Bag

Os Man Man não são como os Gogol Bordello, nem são tão bons como os Gogol Bordello. São melhores que os Gogol Bordello.

18 – Camera Obscura, Let’s Get Out Of This Country

Ao terceiro álbum, uma ligeira mudança de direção que os coloca na década de 1960, em Detroit das girls-groups. Tracyanne Campbell recuperava do fim de uma relação e da morte da avó materna, material mais do que suficiente para um disco tão duro como memorável.

19 – Decemberists, The Crane Wife

Um disco dos Decemberists é o mais perto que já tivemos de um disco de contos. Nada surpreendente tendo em conta que Her Majesty the Decemeberists e Picaresque já eram obras conceptuais, com histórias muito bem contadas e música muito bem conseguida. É raro a ambição andar tão longe do bocejo.

20 – Dead Combo, Quando A Alma Não É Pequena

Era o segundo disco do duo e recordamos uma entrevista num então muito diferente Curto Circuito. Um dos apresentadores pergunta: “Depois da estreia, o que mudou?”. A resposta: “Estamos ricos”. Sim, há um sarcasmo inerente à resposta de Tó Trips, mas a verdade é que, dez anos depois, os Dead Combo são um daquelas bandas nacionais que podem dedicar boa parte da sua actividade profissional à banda que, entretanto, correu o país e o mundo.

21 – Isobel Campbell & Mark Lanegan, Ballad Of The Broken Seas

É um disco de outro tempo, mas que funcionou em 2006, em 2008 e em 2010. Continuaria a funcionar hoje pois estes dois ensinaram-nos que não falham.

22 – Lambchop, Damaged

Damaged é um álbum que serve para sarar as feridas de Kurt Wagner, ele que aqui regressa recuperado de um cancro. É um álbum de expurgação ao nível dos melhores álbuns de expurgação e isto não é dizer pouco.

23 – Flaming Lips, At War With The Mystics

O grupo criou uma identidade própria assente na sua imprevisibilidade, com bons ou maus resultados. Este At War With The Mystics está do lado dos bons.

24 – Islands, Return to the Sea

Um dos discos mais desafiantes do ano, do hip hop ao country, passando por algumas influências tropicais.

25 – The Television Personalities, Dark Places

Dan Treacy é músico de quarto antes de existirem músicos de quarto.

26 – Jolie Holland, Springtime Can Kill You

Tem aquele registo de quem já passou por uma desilusão amorosa à séria, aquela experiência de abandono, de solidão, aquela sensação que só percebe quem já a sentiu.

27 – Lily Allen, Allright, Still

É um dos primeiros fenómenos Myspace e tem um blogue onde conta muita das aventuras que encontramos transcritas para este promissor álbum de estreia que, no essencial, é um álbum pop, com inúmeras referências ska e reggae que surgem aqui na forma de samples de obras do género gravadas nos anos 1960 e 1970. Fresco!

28 – Ghosface Killah, Fishscale

Desde o “fim” dos Wu-Tang Clan que se afirmou, entre os 9, como dono da mais sólida carreira a solo. As referências não serão muito diferentes das que ainda hoje apresenta, mas aqui surge na condição de contador de histórias que soam frescas e uma produção ao cuidado de pesos pesados como J. Dilla, Dr. Dre, Just Blaze e MF Doom.

29 – Mission of Burma, The Obliterati

Numa altura em que o revivalismo pós-punk pululava no Reino Unido, o regresso de uma das bandas do movimento original, os Mission of Burma, dava sentido à redescoberta do som dos finais do anos 1970/inícios dos 1980 por bandas como os Futureheads, Franz Ferdinand e Maximo Park. Os papás a darem o exemplo.

30 – The Long Blondes, Someone To Drive You Home

Não só afastaram comparações ao fenómeno Myspace, mas ainda tornaram as inevitáveis e previsíveis comparações às Blondie e Siouxsie & the Banshees em coisas inócuas.

31 – Bonnie “Prince” Billy, The Letting Go

Não é que Billy precisasse, mas McCarthy e Jim White (esse, o dos Dirty Three) conferem selo norte-americano a um disco que, por todos os motivos e mais alguns, nos garante um ambiente familiar.

32 – Califone, Roots And Crowns

Não ficaria mal emparelhar esta banda de Chicago com a trupe freak folk que animou as hostes no início do século. Aquele desafiar da tradição americana que nos oferece sons que não estamos habituados num mundo que privilegia a folk de guitarra, baixo, banjo e bateria.

33 – Sparklehorse, Dreamt For Light Years In The Belly Of A Mountain

É difícil ouvi-lo de ânimo leve. Mark Linkous sempre andou no limbo. Em 1996, uma combinação de tudo o que lhe lixou a vida – antidepressivos, álcool e drogas – quase o deixou para sempre numa cadeira de rodas. O mal que provocou a si mesmo é proporcional ao bem que nos foi oferecendo em estúdio.

34 – Beirut, The Gulag Orkestar

DeVotchKa e Gogol Bordello ganhavam atenção, esta ideia de música de leste para indies ganhava força e em breve chegaria ao seu estado de graça. Para isso muito contribuiu Zach Condon, nesta altura um miúdo de 19 anos, inegável talento de voz sofrida, quase ali a resvalar para a choradeira.

35 – The Black Angels, Passover

Os Black Angels têm em Passover um disco político como tantos outros da primeira década dos zeros que se focavam na obra de Bush, entre os conflitos no Afeganistão e no Iraque. Mas optam por um ângulo menos óbvio: centram as letras do álbum na Guerra do Vietname para estabelecer tangentes à do Iraque.

36 – Muse, Black Holes And Revelations

Antes de Blackholes And Revelations, os Muse já eram mais conhecidos pelas atuações ao vivo, mas este foi o disco que afogou as comparações aos Radiohead e lhes deu, para o bem ou para o mal, uma identidade. A que viriam a trabalhar nos registos seguintes, com digressões cada vez mais megalómanas.

37 – Raconteurs, Broken Boy Soldiers

Imaginem que tinham oportunidade de colaborar com o vosso melhor amigo e até calha desse vosso amigo ter talento. Os Raconteurs são isso. O resultado é bom: rápido, com boas melodias, bons riffs, boas canções.

38 – Mastodon, Blood Mountain

A linguagem mitológica, o virtuosismo que não aborrece. Aqueles riffs. Aquelas canções.

39 – Buraka Som Sistema, From Buraka To The World EP

Faz precisamente dez anos que os Buraka Som Sistema editaram o primeiro EP, From Buraka To The World, título mais profético do que as palavras de Fernando Santos no último Europeu.

40 – Joanna Newsom, Ys

Liricamente seria comparável a Dylan, se Dylan não escrevesse sobre o seu tempo. Isto num tempo do boom da Internet poderia ter passado completamente ao lado, mas acabou como um dos discos do ano.

41 – Scott Walker, The Drift

Soa a uma dramatização de um álbum que Scott Walker terá desenhado em primeira instância.

42 – Gnarls Barkley, St. Elsewhere

Pode dizer-se que St. Elsewhere completa a ponte para a idade digital do single. 2006 foi deles.

43 – Expensive Soul, Alma Cara

Depois do sucesso de B.I., Alma Cara é um disco que pouco acrescenta ao som da estreia. Mas seria preciso refrescar algo que, em Portugal, soava refrescante só por si?

44 – Joseph Arthur, Nuclear Daydream

Na falta de melhor, vamos tratar isto como se de folk a apenas folk se tratasse. No final do dia, o que conta são as canções, sempre as canções. E Arthur tem várias de grande calibre.

45 – Bert Jansch, Black Swan

É interessante este fetiche dos mais novos fazerem um disco disco com o seu mestre. No caso, Devendra Banhart, Beth Orton e outra nobreza indie fazem companhia a Bert Jansch, um veterano, ele que foi contemporâneo de Dylan.

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