10 anos depois de ‘Pratica(Mente)’ e ainda à espera da perfeita repetição



Inicialmente, este texto foi pensado de outra forma: a intenção era criar um texto focado no último trimestre de discografia hip hop tuga 2006, altura em que Halloween se estreou “às escondidas” e Valete editou Serviço Público com a Revista Dance Club. De Projecto Mary Witch não nos recordamos, do segundo de Valete, lembramo-nos de acordar tarde, percorrer todas as capelinhas (leia-se papelarias e quiosques) do então Casal de São Brás (hoje São Brás, terra de Sir Scratch) sem resultados: “esgotada desde bem cedo”, ouvimos em quase todas. Mas Pratica(mente), terceiro de Sam the Kid, é outro nível e ainda hoje procura sucessor no pedestal do melhor disco hip hop português de sempre e no  de melhores discos nacionais da 1ª década do século XXI.

A outra espera, a de um novo disco a solo de Sam the Kid encontrará explicação nos muitos projetos paralelos, de Orelha Negra à colaboração com Mundo Segundo, mas também numa característica que é melhor explicada pelo próprio, numa entrevista a Rui Miguel Abreu para a Blitz, ainda em 2006, agora republicada no Rimas & Batidas, Sam confessava: “envolvo-me é muito com as coisas, custa-me deixar os temas e achar que estão terminados”. Esse perfeccionismo é aqui sublinhado, levado ao limite. A forma minuciosa como cola os samples (de Saramago a Carlos Vaz Marques, de Michael Jackson aos Abba) às rimas.

O músico é um confesso investigador do património cultural português, embora também sublinhe que isso não significa exatamente ler livros. Dez anos depois, ouvimos uma única canção que não nos soa actual: “Poetas da Karaoke”. (E ainda bem!) Às outras não lhes passou um dia. A coisa menos 2006 que encontrámos é uma referência ao “joy stick” que, verdade seja dita, nesse ano já estava obsoleto e parece funcionar como exercício de memória.

Nesse mesmo 2006, recordamo-lo como comentador do dia de hip hop numa cobertura da RTP ou da MTV (não nos conseguimos decidir) e retemos o momento em que confessa gostar mais do espetáculo de Pharrell por ter “mais sons novos”. A outra estrela da noite era 50 Cent. Isto também diz muito de Samuel Mira, diz-nos que leva o seu tempo, sim, mas também gosta de oferecer uma experiência sem repetição de fórmula, sem formatação. Daí que os discos elevem a fasquia e os espetáculos que vem dando desde Pratica(Mente) também não sejam exclusivamente Sam the Kid, o rapper de Chelas a solo e a apresentar o seu material.

E depois há a emoção que nem Valete nem Halloween conseguiam passar. Aliás, todos os rappers escrevem de forma pessoal, mas poucos serão capazes de passar a emoção de Sam the Kid. Voltemos à 1ª pessoa: por menos original que seja, a 1ª canção hip hop em português que me chamou a atenção foi “Não Percebes”. Não era a mensagem (ou, vá, também era), era o intermediário, a forma emotiva como rappava/cantava. Caramba, eu também não percebia o hip hop, era uma espécie de inocente burguês do gueto, aquilo da minha varanda fazia pouco sentido.

Ao contrário do que muitos terão pensado, não entrámos na suposta Idade de Ouro do hip hop tuga. 2006 foi o ano de edições de Nigga Poison, SP & Wilson, Ex-Peão, Mind da Gap, entre outros, mas a grande mensagem deste disco vem em “Poetas de Karaoke”, eventual momento de viragem no panorama nacional. A crítica vem em formato canção, mas também vídeo, simula a tomada dos estúdios da RTP comandada pelo próprio Sam the Kid.

É, claro, uma mensagem aos artistas que, em 2006, privilegiavam a língua inglesa no momento de criar canções. Lá “fora”, a reportagem foca-se na recolha de depoimentos de gente que canta em português, gente como Pacman, NBC, Zé Pedro e Rui Veloso. A revolução era feita de forma marcante convincente: há um comentário recente no YouTube que chega a perguntar se a rádio foi realmente tomada. Não foi, mas a música portuguesa cantada em português nunca mais foi a mesma e, a partir daí, ganhou uma saúde que permite que hoje em dia esta seja uma não discussão.

Há ainda “Negociantes”, claro, canção incrível número 7 e que dá MC Snake, ele que viria a falecer quatro anos depois numa muito mal explicada embrulhada policial. E num disco em que fica difícil destacar canções, ainda hoje nos arrepiamos com “16/12/95”. Numa altura em que a internet dá tudo, faz sentido pensar no que Samuel será capaz de nos oferecer num próximo disco. Este último é um clássico e, voltando à 1ª pessoa, foi o melhor disco que ouvi neste regresso a 2006.

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