The Intercept: já fazia falta um jornal como este


A imprensa está a passar por uma fase conturbada. Não só as pessoas estão a perceber – um pouco pelos estados democráticos de todo o mundo – que a comunicação não serve os seus interesses mas os do poder político e económico, como o próprio jornalismo enfrenta uma grande e importante revolução tecnológica.

Tão grande e tão importante como aquela por que passou no século XX, quando a rádio e a televisão permitiram que, em vez de escritas, as notícias pudessem ser faladas ou mostradas. Com a Internet e em particular os smartphones, estão a surgir novas formas de fazer jornalismo e novos modelos para que se torne numa actividade sustentável.

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Um novo jornalismo depois de Snowden

O The Intercept é um dos meios que pertencem a esta nova geração de comunicação social. Foi fundado em 2014 por Glenn Greenwald, Laura Poitras e Jeremy Schahill. O projecto nasceu assente em três premissas orientadoras: fazer um trabalho livre apoiado institucionalmente, focar as notícias numa lógica de contraditório e acreditar num jornalismo que confere responsabilidade e transparência aos poderes do Estado. A publicação – que integra o grupo First Look Media, que pertence ao fundador do eBay e filantropologista Pierre Omidyar – confere às fontes uma importância capital. No site oficial pode ler-se que o meio encara com seriedade a protecção das fontes utilizando um servidor especializado para o efeito.

The Intercept is dedicated to producing fearless, adversarial journalism. We believe journalism should bring transparency and accountability to powerful governmental and corporate institutions, and our journalists have the editorial freedom and legal support to pursue this mission.

A fundação esteve a cargo de três personalidades ligadas ao jornalismo. Glenn Greenwald é a cara mais visível do projecto e tem um passado ligado à advocacia. Nos últimos anos integrou publicações como o Salon ou o The Guardian. É no The Intercept que tem o seu primeiro meio de comunicação próprio e autónomo. Laura Poitras é a outra face do orgão jornalístico. A artista e cineasta ficou conhecida pelo documentário Citizenfour, que documentou o escândalo de espionagem da NSA relatado por Edward Snowden. Aos dois jornalistas, juntou-se Jeremy Schahill, escritor e especialista em assuntos de segurança nacional. Actualmente, o The Intercept tem 42 funcionários no seu todo.

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Recorde-se que Greenwald e Poitras foram o elo de ligação entre Snowden e o espaço mediático. Em 2013, o ex-funcionário da NSA entregou aos dois jornalistas todos os documentos relativos aos mecanismos de espionagem da Agência de Segurança Nacional Norte-Americana expondo assim em público a dimensão do sistema. A primeira edição do The Intercept conteve fotos inéditas da NSA e de outras agências de segurança nacional.

Porque é que o The Intercept é diferente

No The Intercept não há paywalls, os conteúdos estão abertos e disponíveis a todos. Assim como os documentos que sustentam as notícias e revelações feitas pelo The Intercept. O site organiza-se em duas grandes categorias: “Features”, onde são publicadas as grandes revelações; e “Unofficial Sources”, que serve para trabalhos jornalísticos de investigação de menor relevância. Todos os documentos citados nos artigos podem ser consultados de forma livre e gratuita na secção “Documents”.

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Os textos de Gleen Greenwald podem ser consultados numa parte própria do The Intercept, assim como os de Robert Mackey, jornalista que transitou do The New York Times, jornal se habituou a cobrir histórias através da leitura atenta de relatos de primeira mão, fotografias e vídeos publicados em redes sociais por testemunhas e participantes.

Ao The Intercept não interessam comunicados de imprensa nem agendas políticas. O que Glenn Greenwald e a restante equipa editorial fazem é jornalismo de investigação. As fontes são o maior aliado e o The Intercept faz um excelente trabalho ao democratizar esta relação entre fonte e jornalista. No site do The Intercept, todos nós somos convidados a ser um fonte. O jornal desenvolveu um sistema seguro e encriptado para poder receber mensagens e ficheiros de qualquer pessoa.

A chegada ao Brasil

No Verão passado, o The Intercept desmascarou a fraude jornalística elaborada pela Folha de São Paulo. A denúncia mobilizou dezenas de curiosos aprofundando a notícia que preliminarmente já seria grave. O resultado final foi a queda da máscara por parte de um dos maiores órgãos de comunicação social brasileiro e uma mancha generalizada no jornalismo do país.

As revelações do The Intercept relativamente ao Folha de São Paulo aconteceram quando o primeiro tinha acabado de chegar ao Brasil. O lançamento de uma edição brasileira do The Intercept Brasil, escrita em português, deu-se depois de Glenn Greenwald perceber que, apesar de o país onde nasceu ter “um dos conjuntos de jornalistas independentes e blogueiros mais dinâmicos e talentosos do mundo”, existirem lacunas na difusão mundial das denúncias e por consequente das notícias.

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Numa nota publicada no site, Greenwald define como objectivos “alavancar o reconhecimento deste país imprescindível por todo o mundo e fornecer uma plataforma para que os excelentes jornalistas e escritores brasileiros compartilhem informações essenciais com seus compatriotas sobre as questões políticas, econômicas e sociais de seu país”. A primeira filial do The Intercept focou-se inicialmente no julgamento e votação final do impeachment da ex-presidente Rousseff no Senado Federal e também em matérias que envolveram os Jogos Olímpicos do Rio.

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Integrado no grupo First Look Media, que também produziu o filme Spotlight, o The Intercept Brasil pode ser consultado no mesmo endereço da edição americana, theintercept.com, sendo que muitos dos artigos estão traduzidos nas duas línguas: inglês e português. A composição da equipa está definida e conta com contributos exteriores de jornalistas independentes.

Do The Intercept ao Quartz, sem esquecer a Vox ou o Mic, os Estados Unidos tem sido nos últimos anos terreno fértil para o surgimento de novos órgãos de comunicação social. Não são jornais em papel ou canais de televisão tradicionais. São projectos de media que nasceram na internet e que estão a mostrar-nos novos significados para o jornalismo.

[João Ribeiro e Mário Rui André contribuíram para este artigo]

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