Ílhavo está a apostar na cultura como mais nenhum município está


Muitos dos que vão ler este texto provavelmente residem num dos dois principais centros urbanos do país – Lisboa e Porto – e estão, por isso, habituados a ter cultura espalhada pela cidade, numa multiplicidade de espaços e de contextos. Os de fora, de cidades ou vilas onda a oferta é bem menor, dizem que “estamos mal habituados” ou “temos tudo e às vezes nem damos valor”.

E é verdade. Os grandes concertos, as principais peças de teatro e as maiores exposições de arte passam por Lisboa e algumas (também) pelo Porto. É o “normal”, dizemos nós, os lisboetas e portuenses. É “onde estão as pessoas”, defendem os promotores. São posições que facilmente se compreendem, mas a cultura (assim como outras actividades) não deve ser bipolar. A internet pode ter um papel substancial na inversão dessa tendência, mas é também fundamental a acção das Câmaras Municipais.

Ílhavo, no distrito de Aveiro, está a apostar na cultura como mais nenhum município está. Através do projecto 23 Milhas, todos os centros culturais do concelho desapareceram para uma cultura mais aberta e mais próxima. O 23 Milhas une quatro espaços, alguns dos quais anteriormente conhecidos como “centros culturais”: o Laboratório das Artes, mesmo ao lado do Museu da Vista Alegre; a Fábrica das Ideias, na Gafanha da Nazaré; a Casa da Cultura, em Ílhavo; e o Cais Criativo, na Costa Nova. Cada espaço tem um propósito distinto e uma programação própria.

A Casa da Cultura faz a ponte entre Ílhavo e o resto do país e do mundo, com espectáculos mais abrangentes no que ao público diz respeito. Deolinda, António Zambujo e You Can’t Win, Charlie Brown são as primeiras propostas deste espaço, que será especialmente dedicado à música, dança e teatro e que se molda em redor de um auditório para 500 pessoas.

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A Fábrica das Ideias acolhe residências artísticas e, nesse sentido, tem no seu interior uma série de camas e oficinas de trabalho para que ideias possam ser transformadas projectos artísticos. As artes visuais e performativas são as privilegiadas aqui. A Fábrica funcionará ainda como espaço de exposição, dispondo de um auditório com quase 400 lugares e de uma sala de conferências para 50 pessoas.

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O Cais Criativo vai levar a cultura e a arte para junto da praia durante os meses quentes, num ambiente mais informal e jovem. Música, moda, arquitectura, fotografia e design serão as disciplinas de eleição. O Cais é também cenário ideal para a realização de seminários ou eventos corporativos.

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Já o Laboratório das Artes é para a experimentação – para workshops, conversas e debates. Está localizado no largo da Fábrica da Vista Alegre. É constituído por dois núcleos centrais: um espaço dedicado ao pensamento, pesquisa e experimentação; e um espaço de programação com especial foco nas manifestações mais eruditas – clássicas e contemporâneas –, como a guitarra de Filho da Mãe.

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O nome “23 Milhas” partiu do maior farol do país, o Farol da Barra, situado no concelho e que tem um alcance luminoso de 23 milhas. O projecto é dirigido pelo Luís Sousa Ferreira, que em 2006 criou na sua aldeia um festival de música portuguesa. Hoje, o Bons Sons integra a rota dos melhores festivais de Verão e, nas últimas edições, tem atraído 40 mil pessoas a Cem Soldos, em Tomar.

O 23 Milhas junta-se a outras iniciativas, como o próprio Bons Sons e o Festival Paredes de Coura (que há mais de duas décadas leva milhares de pessoas e alguns dos maiores nomes emergentes da música até uma pequena vila minhota). Três exemplos de como a cultura não tem de estar restricta a Lisboa e ao Porto – o Bons Sons e o Festival Paredes de Coura numa perspectiva temporária; o 23 Milhas numa lógica contínua, 365 dias/ano.

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