My Chemical Romance: quando os miúdos não estão bem


Em 2013, voltou a discutir-se o regresso do emo. Não o que se popularizou na primeira década do século XXI e que tem como ponto de partida este êxito dos Jimmy Eat World. O emo tornou-se numa anedota cujos protagonistas fizeram por se associar, mas disseram querer-se afastar. Assim, é seguro dizer que há vários tipos de emo, um que teve origem no hardcore dos anos 80, em bandas como os Rites of Spring e os Embrace, que assentavam em valores que se firmavam contra a violência e a apatia política e social do punk.

Com os Embrace, os espetáculos eram tão emotivos que levou alguém da assistência de um concerto a gritar: “vocês não são hardcore, são emo-core!” A banda recusava o termo. Mais tarde, o líder Ian McKaye viria a dar origem aos Minor Threat e Fugazi. Um outro emo terá marcado os anos 90 e que ficaria mais associado ao indie rock e o punk pop de bandas como os Sunny Day Real Estate e The Promise Ring. Por esta altura, tal como nos anos zero, a especulação daquilo que é ou não é emo levou a associações tão ridículas como os Bright Eyes. O revivalismo de que se fala hoje é o dos anos 90, não o que conheceu pico de popularidade em 2006, com The Black Parade, o terceiro disco dos My Chemical Romance.

mychemicalbrothersemo_02

2006. O emo tornou-se teatral e ganhou uma conotação pejorativa. Os miúdos do emo eram tristes, sensíveis, tímidos e angustiados. Em alguns casos, manifestariam tendências depressivas e de auto-flagelação. Enfim, salvaguardando as devidas diferenças, é o grunge deste milénio, o escape dos losers que hoje são, na falta de melhor termo, adultos normais. Caso, depois deste parágrafo ainda se encontre algumas dificuldades em perceber o fenómeno, é fazer seguir para este link. No fenómeno foi possível colocar no mesmo saco bandas como os Fallout Boy, AFI, Paramore, Good Charlotte, Panic At! Disco e ver esses mesmos grupos cuspir no rótulo que lhes dava de comer: os Panic At! Disco foram os primeiros a afastar-se da associação, mas os próprios My Chemical Romance acabariam por classificar o emo de “trampa”. A este afastamento não estarão alheias as imensas polémicas relacionadas com casos de morte, ameaças de morte e opções tão políticas como ridículas.

Chegamos então aos My Chemical Romance e a The Black Parade, provavelmente o álbum mais mencionado para descrever a cena emo dos anos 2000. Disco conceptual sobre a morte, claramente inspirado em The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars e em American Idiot que tinha sido editado há dois anos pelos Green Day. O protagonista é O Paciente, alguém com um cancro terminal que é visitado pela morte materializada na forma de Black Parade. Os motivos para ter influenciados tantos miúdos são vários: a aparência frágil e quase andrógina de Gerard Way, um conjunto de tipos de aspeto totó, mas que a indústria consegue tornar cools, as melodias e, claro as letras. Repare-se, começa logo com “The End” que é, ironicamente, a primeira faixa do disco:

“If you look in the mirro rand don’t like  what you see / You can find out firsthand what it’s like to be me”

É fácil perceber que um miúdo que não encaixa em lado nenhum se consiga rever nisto. Este tipo de ideia está espalhada ao longo de todo o disco: relações falhadas, bullying, opressão paternal. Tomando pretexto do tema do disco, a morte, os vídeos são a preto e branco o que só ajudam traçar uma personalidade triste, deprimida. A pose teatral quase glam, a abordagem muito superficial de questões teológicas, tudo isto terá sido trabalhado para conquistar um público e até a crítica. Vamos tentar não gargalhar bem alto quando referimos que a Blender escreveu que este é o Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band do screamo?

Previous Com Trump, o TTIP é outro
Next A erva também ganhou as eleições nos EUA