Salvador Martinha: “Aos quarenta anos passo a ser o Herberto Helder”


Antes de estrear “Tipo Anti Herói”, o seu quarto espectáculo solo, entrevistamos o humorista Salvador Martinha. Desde a última conversa, em Maio do ano passado, a vida de Martinha foi mudando: tornou-se o primeiro humorista português a ter um solo no Netflix, foi pai de uma rapariga e ainda viu a publicidade — aquela que chateia pouco — bater-lhe à porta.

Diz querer retirar-se aos quarenta, eclipsando a figura pública e deixando o humorista. O que leva um dos comediantes melhor sucedidos entre os millenials a querer, de forma Tarantinesca, cortar as vazas à sua obra, ficando-se com apenas sete anos de carreira pela frente? A resposta está, pois claro, neste exclusivo Shifter.

Criou-se a ideia de que em Portugal os humoristas, para encherem os seus espetáculos, tinham de ter um programa na rádio ou televisão. O sistema ainda funciona assim?

É uma boa pergunta. Acho que continua a ser verdade. Tu disseste “programas de rádio ou televisão” e eu acho que há aqui uma diferença, um acrescento, uma evolução na resposta, que é: podes não estar na televisão, podes não estar na rádio, desde que estejas presente nas redes. Se tiveres uma forte presença nas redes, podes criar o teu público através delas. Essa é a grande mudança dos últimos 10 anos.

Mas existe, ainda assim, uma diferença entre estar nas redes e estar na televisão?

Existe, um bocado porque a televisão e a rádio ainda têm um selo de credibilidade. É mais credível o “ele faz umas cenas para a rádio” ou o “ele faz umas cenas para a televisão” do que o “ele faz umas cenas para a net”. Só que este “ele faz umas cenas para a net”, como tu sabes, está a evoluir muito. As pessoas com mais visão já compreendem que “as cenas para a net” podem vir a ser tudo. Qualquer dia as regras do jogo podem mudar e teres quem diga: “ele até está a fazer umas coisas giras na televisão, vamos puxá-lo para a net!”. Já viste o poder de termos a nossa própria audiência? Quando nós vamos para um canal, a audiência é desse canal, foram eles [direção do canal] que a criaram; nós vamos trabalhar a audiência que eles controlam, que eles alimentam. Uma audiência de internet e de redes sociais é criada por nós e com as nossas próprias regras.

Ao invés de tentares vender o teu solo anterior a um canal televisivo, disponibilizaste-o no Netflix, o que é uma estreia em Portugal. Foi essa autonomia que procuraste ao não o transmitires nos meios tradicionais?

Aconteceu um pouco por acaso. De repente eu estava a fazer [o espetáculo] e aparece a Patrícia, da Valentim de Carvalho, e o Francisco, que me disseram “gostávamos imenso de filmar um espetáculo”. Eu respondi “’tá bem, então vamos filmar para a semana”. A ideia de ir para o Netflix foi deles e da H2N, a minha agência. A Valentim e a H2N lutaram muito por isso, e finalmente aconteceu. Acho que é muito fixe estar no Netflix: muitas pessoas que estavam longe dos meus espetáculos, em cidades a que eu não ia, agora podem vê-los. Está disponível no Brasil e no mundo inteiro; estou curioso para ver como é que corre.

Sendo o teu humor mais abrangente, por ser de observação, pode vir a funcionar melhor no estrangeiro?

Não acredito nisso. No Brasil, para começar, é complicado. Já tive algumas reações; houve um gajo que comentou: “ não estou percebendo nada do que esse cara está falando. É mais fácil entender o sotaque do Pablo Escobar do Narcos, isto no Netflix. Portanto, acho que é muito complicado para um brasileiro compreender, até porque não tive nenhum cuidado de adaptação. Não faria sentido eu estar a falar e dizer coisas do género: “como é galera? Estão todos legais aqui no Trindade?”. Fiz português puríssimo. Agora, se houver algum esforço dos brasileiros para tentar entender… vamos ver. Em relação às legendas em inglês: é um longshot, um tiro no escuro, mas vamos ver. Ao estar na Netflix acontece isto: de repente, já estou a receber mensagens de humoristas brasileiros; há aqui uma série de oportunidades.

É possível criar-se um eixo luso-brasileiro no humor através da internet?

Seria possível, mas tem de haver um esforço muito maior dos portugueses para triunfar no Brasil do que dos brasileiros para triunfarem cá. Uma das ideias que eu tinha era ir ao Jô Soares, arrancando agora em Novembro, e fazer um stand up especificamente sobre esta coisa de não me perceberem; algo do género: “eu lancei um stand up que está disponível no Brasil mas vocês não me estão entendendo”. Era giro: se eu lá fosse já teria maior cuidado com a adaptação. Se eu emigrasse para o Brasil, ia ser uma grande luta, porque ia começar do zero; ninguém me conhece lá.

 Nas últimas vezes em que fizeste espetáculos no Brasil não pretendias essa migração?

Foram períodos muito curtos: estive lá uma vez três semanas, outra vez uma semana. Correu mais ou menos bem. Não te vou dizer que parti a loiça, mas vi que ali havia futuro. Houve um humorista até que me disse que “se você vier, você vai conseguir, porque não está aqui nenhum português, e isso é uma diferença”. Para triunfar tinha de emigrar; nunca digo que não, mas agora estou fixe cá.

Com o passar dos anos tornaste-te mais consensual, e isso contribuiu para que as tuas piadas fossem melhor aceites. É gratificante poderes fazer humor mais “à vontade”, sem teres muita gente a questionar-te?

Esse conforto ajuda-me muito. O humor é uma profissão em que ajuda ser conhecido. Ser conhecido pelos bons motivos dá-me um boost. Quanto mais as pessoas conhecem o teu trabalho, mais predisposição têm para rir. Tu vês isso com o Ricardo Araújo Pereira: as pessoas gostam tanto dele que automaticamente se mostram dispostas a rir do que ele diz, isto porque já esperam coisas boas dele. É o humorista português em que esse efeito é mais gritante, e isso vem do facto de ele ser efetivamente muito bom.

Por que é que nunca foste bloqueado no Facebook?

É uma boa pergunta… Será que me devo sentir triste? (risos) Nem sei como é que isso funciona. Talvez tenha a ver com os temas; será que se agora fizer um post sobre touradas me vão bloquear? Não sei. Será que se eu agora fizer um post sobre touradas não me vão bloquear, por causa dessa predisposição? Não sei. Não tenho essa resposta, mas também não me dava jeito agora ser bloqueado, porque tenho de promover os meus espetáculos e ficava sem o meu canal.

Como é que reages ao facto de repetidamente se bloquearem páginas de humoristas antes dos espetáculos?

Acho sujo. O Facebook é um Estado que não é independente. Temos de o saber usar a nosso favor, sabendo também que ele nos usa a favor dele; eu ponho lá conteúdos e eles não me pagam — é por isso que agora estou mais fisgado agora para plataformas mais independentes. Não me agrada nada essa falta de independência. Mesmo que eu não seja bloqueado, pode haver sempre achincalhamento. Ultimamente não tenho tido avalanches negativas… A última vez em que isso aconteceu foi quando me apanharam a falar ao telemóvel [enquanto conduzia]. Eu estava a falar ao telemóvel para uma rádio, e de repente apareceu a polícia. Eu disse ao polícia, isto com o alta voz ligado, “senhor guarda, estou a dar uma entrevista para a rádio, deixe lá passar” e só se ouve o agente a dizer “vá lá, vá lá”. Essa história vazou e foi parar ao Diário de Notícias o título “Salvador Martinha perdoado pela PSP”. De repente, eu estava do lado de lá, dos corruptos e dos que têm regalias… Toda a gente tenta safar-se de uma multa, só que eu estava a ser transmitido em direto. Aí, foram 36 horas a ser achincalhado. A negatividade era tanta que chegou a ser cómico, lá mais para o fim.

Há umas semanas tiveste uma experiência de rádio online. É por aí que queres ir, ainda no campo das redes sociais?

Isso foi uma brincadeira, mas senti-me bué bem. Imagina: estou no YouTube, faço um direto, sem imagem, só a falar e a responder a perguntas. Sabe bem não haver aquele peso da imagem, sabes? O online é muito interessante. Repara como muda o chip: se eu trabalho na rádio, tenho de arrancar, ir para lá, responder a uma estrutura e à burocracia. De repente, com o online, posso estar às onze e meia a comer Chocapic a falar para milhares de pessoas. Ainda é importante estar nos meios convencionais — até porque eles se estão a adaptar —, sobretudo para validar. Precisamos que as marcas apostem em nós e elas valorizam muito isso, o ainda “fazer cenas para a rádio”.

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O desafio da década está nas marcas passarem apoiar os projetos exclusivamente online?

Vai ser o futuro. O dinheiro estava todo a ir para as televisões e para as rádios; agora, uma grande fatia vai para as redes. Eu já fiz vários projetos: fiz o Two Hot Guys, em que a Ben & Jerry’s deu uma forte fatia do seu bolo anual para aquele projeto, e fiz no outro dia uns vídeos para a Sony. Foi dinheiro que podia ter ido para a televisão mas que as marcas decidiram investir ali. 

O que é que te levou a fazer humor diretamente para uma marca?

Achei importante experimentar. Não queria fazer uma coisa muito comercial e pedi-lhes liberdade máxima para fazer os vídeos. Eles disseram: ”sim senhor, desde que as pessoas percebam que filmaste com um Sony”. Acho que foi um acordo justo. Fiz seis, sete vídeos caseiros em que filmava com um Sony Xperia e achei que até bateram bem; até tive em três ou quatro mais partilhas do que costumo ter nos vídeos sem marcas. O importante é o cuidado de não soar muito a marca, porque as pessoas são intolerantes a isso. Temos de desvalorizar a palavra “marca” e dar-lhe outro nome; são mecenas. Como é que o Gaudi fazia as suas macacadas? Tinha de ter investidores. Já não há senhores burgueses com milhões, os senhores passaram a ser as marcas.

Qual é para ti o melhor projeto online de humor feito em Portugal?

O Unas, com o Maluco Beleza, está a posicionar-se na linha da frente, porque criou o seu próprio canal de YouTube, que além de ser um canal de YouTube é um espaço físico. A Nêspera no C* também foi hilariante: uma ideia simples, mas muito bem executada. O Bruno Nogueira é exímio nisso, em executar bem as ideias, o Filipe Melo e o Markl igualmente. Os putos dos Bumerangue, qualquer um deles trabalha muito bem as suas páginas: estão a criar a sua própria audiência. Às vezes vou atuar com eles e vejo que uma parte da audiência vem dali. Eles têm o público deles, e conseguiram-no com as redes.

Primeiras partes no humor. Sim ou não?

É capaz de acontecer. Vamos ver mais para a frente. No fundo, as primeiras partes são uma troca: o comediante rookie tem a possibilidade de atuar em grandes salas e ganhar público, enquanto que o comediante mais velho tem alguém a aquecer a sala para ele. É sempre uma win-win situation.

 Foi isso que tentaste fazer com o Boost?

O Boost foi um bocadinho isso, juntando-se um pouco à ideia que eu tive com o Cábula: como não há um circuito para experimentar o material, crio eu o circuito. O Boost foram três ou quatro sessões que criei para o novo material e também para espicaçar pessoas que queriam fazer o mesmo: o Bruno queria experimentar material, foi bom para ele. Foi bom para os Bumerangue se mostrarem. O Jel foi a primeira vez que fez stand up, e o Hugo Van der Ding também. Fui vendo pessoas que tinham um potencial cómico e convidei-as para actuar.

Como é que te vês nesse papel de tipo mais velho que sobe ao palco depois dos mais novos experimentarem?

No Boost isso nem sempre aconteceu. Nem todos os comediantes vieram antes de mim, mas acaba por ser aplicável às primeiras partes. É bom, sim, mas não sou obcecado com isso. Essa coisa existe muito no stand up: quem é que abre, quem é que fecha, quem é que vai em terceiro…

Facto que aliás levou a algumas discussões nos circuitos de stand up portugueses…

É importante falar disso. Tendo em conta o meu percurso, já não considero isso tão relevante. As pessoas ao princípio preocupam-se com isso, mas se eu fizer uma análise de todos os espetáculos que eu fiz em grupo, não terão sido necessariamente aqueles que fechei os melhores para mim. Muitas vezes abri e até posso ter sido o melhor da noite. Temos de ter fair play. É como nos penaltis: há um que está confiante para bater o penálti? Então é ele que bate.

Indo ao “Tipo Anti Herói”: de todos os teus solos, este talvez seja o que tem uma persona mais vincada — assumes-te desde logo como alguém que não vai salvar o mundo, mas que é capaz de fazer piadas com ele, ganhando o seu papel na sociedade. Essa persona vai-se manter ao longo do espetáculo?

Há muitas pessoas que acham que eu vou de capa, mas não. O cartaz, e eu gosto muito daquele design e fotografia, é uma sugestão: ajuda a vender a ideia de um Tipo Anti Herói; uma máscara e uma cortina não impressionam ninguém. No palco, o meu figurino não vai ser esse.

A única responsabilidade que este anti-herói tem para com a sociedade é simplesmente fazer rir as pessoas?

Este herói é frágil: todas as suas histórias têm um desfecho de insucesso ou, quando muito, de quase sucesso. O poder dele é o de simplesmente transformar tristeza e momentos de irritação — seus ou dos outros — em alegria e humor. É diferente de Jesus, que multiplicava o pão, fazia vinho e tinha outros truques que andaram um pouco por todo o mundo com bastante sucesso. Eu acho que o objetivo do humor é apenas fazer rir; no entanto, e isto é que é importante, reconheço hoje em dia a presença dos humoristas ativistas, que são muito respeitáveis. O Jon Stewart, o John Oliver e o próprio Gregorio Duvivier são alguns exemplos. Nós temos é de separar este estilo dos restantes: há humor de observação, etc, e depois há o humor ativista. Ser humorista ativista não é o certo, é apenas um estilo. As pessoas tentam empurrar-nos para o ativismo, esquecendo-se que é um estilo. O Seinfeld não é ativista, o Ricky Gervais diz coisas polémicas e defende os direitos dos animais, mas não sinto que seja um ativista. No meu caso, esse não é de todo o meu estilo. Não sou humorista ativista.

Já houve momentos, no entanto, em que, fazendo uso da tua personalidade pública, alertaste para situações graves, como no caso dos ativistas angolanos.

Tem a ver com a maturidade e com a profundidade. À medida que vou crescendo, vou ligando a outros problemas. O caso dos ativistas mexeu comigo: há um país que não tem liberdade de expressão, e nós “tudo bem”. Quantas empresas portuguesas não têm capital angolano? De repente, eles são os chefes de muitas das empresas em que nós trabalhamos, e por isso é que houve um silêncio brutal. Quantas capas fazem notícias negativas sobre Angola? Nessa altura bateu-me, e falei disso.

O ativismo é o passo a seguir?

Tem de ser verdadeiro. Eu estou à espera disso, mas não quero forçar nada. Às vezes pode acontecer em textos que eu tenha, mas não quero forçar isso. Se reparares, existem muitos humoristas ativistas — um conceito que inventámos nesta entrevista — que estão a bater. Depois, surgem outros tantos que vão tentar imitar; começam a falar de causas que não sentem, e isso é estranho. Se eu quiser falar de uma causa — neste espetáculo tenho um bit sobre a homofobia, que ainda não sei se vou estrear — vou estar a entrar no jogo, mas tenho mesmo de a sentir. Não vou agora inventar ou perceber que temas é que estão a bater. Atenção ao humorista ativista fraudulento (risos)!

Continuarás então dentro do registo “rodízio” (quem vai ao espetáculo é servido com humor negro, físico, de observação, etc…)?

Eu nunca penso, por exemplo, com o chip do humor negro. Não é muito consciente, percebes? Penso sempre no que estou excitado para dizer.

No entanto, sempre que há uma piada mais negra, a diferença sente-se na sala…

Sente-se. É engraçado: tinha duas piadas de humor negro no “Na Ponta da Língua” e as pessoas reparavam muito nelas. Como eu não faço humor negro, a partir do momento em que decido ir por aí, a piada destaca-se imediatamente. É como uma tela branca em que subitamente caem duas gotas de tinta preta. Neste espetáculo já sei qual vai ser a mancha negra, que é uma piada que tenho com o atentado de Nice.

Quais é que vão ser os principais alvos do “Tipo Anti Herói”?

Eu sei que esperavas uma resposta altruísta, mas este espetáculo é um pouco egocêntrico. Só consigo fazer humor sendo muito egoísta; só consigo dizer coisas que me apeteça dizer, e que me divirtam muito. Neste espetáculo não há aquela coisa do “em que causas é que ele vai tocar?”. Vou falar da tragédia que é 30 % das pessoas enviarem sms enquanto conduzem. Isto já é um tema, já é importante, mas eu não o pensei como causa. Penso sempre “eu faço isto e está mal”. Acho é que tenho tantos defeitos e falhas que podem ser mesmo ser causas, temas maiores do que quando eu os comecei a trabalhar. Fazem parte de uma imagem maior, mas eu não a vejo de imediato, revela-se depois.

Este é o primeiro espetáculo depois do nascimento da tua filha. Vai haver paternidade?

Não estou a pensar muito por aí. Para começar, é um tema já muito usado, o que não tem mal: eu falava de hotéis e de museus — temas que já existem, mas a que cada um dá a sua roupagem. Ser pai deu-me outra perspetiva, a de pedir desculpa aos meus pais; pensei noutro ângulo. Ao mesmo tempo, acho que ainda preciso de um pouco mais de distância para desenvolver o tema. Há histórias que só consigo contar um ano depois de as ter vivido. Não assimilas logo.

Sempre tiveste um grande à vontade em mostrares a tua casa, os teus pais e a tua namorada. No entanto, tens sempre reservado a imagem da tua filha, até esta promoção do espetáculo. Sentiste menor legitimidade em usá-la para o humor?

Estou muito derretido. É um lado que ainda está muito macio em mim; ainda não tenho a irritabilidade no máximo, por isso não me inspira muito. Ainda não pus nenhuma fotografia da minha filha — por acaso pus uma, mas ela estava com um efeito de face swap, por isso nunca a revelei. Quero protegê-la um bocadinho… Mas vai haver muito material! A minha filha só tem nove meses, por isso imagina o material que ainda tenho. Estou a deixar assentar. Quanto à legitimidade: pode acontecer, mas mais tarde, e aí a minha filha é que vai mandar.

Que benefícios é que o humor familiar traz aos espetáculos?

É o lado reality: aproxima muito as pessoas. Quando tu te abres e mostras a tua família tornas o teu humor um pouco mais profundo, sobretudo porque revelas as tuas fragilidades. Se falares dos teus pais, vais estar a revelar o teu lado mais frágil. Há muitos humoristas que só fazem piadas atrás de piadas… Eu odeio acabar um espetáculo de um stand up comedian e não perceber quem é aquela pessoa. A comédia vem muita vez depois das piadas. Primeiro está a piada, depois a comédia.

Li recentemente numa entrevista que faltam novos workshops, para que os novos humoristas consigam fazer material diferente, desligando-se do humor negro, e chegando a uma carreira cimentada. Partilhas da mesma opinião e estarias disposto a ensinar o humor a alguém?

Há três anos, a moda do humor negro estava mais em altas. Tu vês agora esses putos dos Bumerangue e aquilo é outro estilo de humor, é observação. É importante que existam essas modas: faz parte do mundo. Mas é verdade que fazem falta novas formações. Estaria disposto e vejo-me a fazer isso, mas tenho de ser um pouco mais velho para chegar a esse ponto. A minha vida neste momento é muito corrida. Se eu agora fizer um workshop uma vez por mês, vou estar, sem querer, a influenciar a malta mais nova para um estilo específico de humor.

Era aí que queria chegar. É legítimo serem os humoristas a dar esses workshops?

Faltam também professores de comédia; aqui não existe essa figura. Eu, por exemplo, no meu primeiro workshop, tive o Stephen Rosenfield, diretor do Instituto Americano de Comédia, do qual nunca ouviste falar como comediante. Era um professor de stand up, não teve necessariamente uma carreira brilhante, mas era espetacular. Ainda hoje guardo tudo o que ele me disse. Se não houver ninguém, é fixe que os humoristas se cheguem à frente.

Como é que hoje em dia se podem formar humoristas em Portugal? Parece que basta abrir uma página no Facebook e se é logo humorista.

Percebo o que estás a dizer. O humor é uma área muito abrangente: ser stand up comedian é quase uma profissão por si só. “Só gosto de fazer espetáculos ao vivo, então vou fazer umas piadas no Twitter para alimentar isto”, é por aí que muita gente vai. Em Portugal podes formar-te como ator porque queres fazer sketches de personagem, podes ser humorista escritor e tirar uma formação de guionista na World Academy. As pessoas têm de escolher um foco, mas devem, claro, fazer os workshops da Susana Romana, do Tiago R. Santos, do Rui Sinel de Cordes… Deve-se ir a tudo o que está disponível, porque é aí que se descobre a vocação.

Vais começar agora um novo desafio noutra rádio generalista. Vai ser diferente?

Vai. É uma rádio totalmente diferente: foram dois anos fixes em que alarguei muito o meu público. Muitas pessoas vêm dizer-me: “olha, se não fosse a RFM a minha mãe não sabia quem tu és”, e isso é bom. Não te posso revelar qual é a rádio, mas vai ser fixe. Foi um convite irrecusável e vai ser anunciado no final do mês, na altura do meu espetáculo. O Alexandre Romão vem comigo, porque é o meu buddy. Um dos grandes trunfos vai ser o facto de gravar a partir de casa.

 O que é ainda falta ao humor, e em particular ao teu humor? Os humoristas já enchem coliseus, já podem fazer digressões, mas ainda há falta de espaços regulares para trabalhar.

O meu projeto é retirar-me daqui a sete anos: tudo o que eu estou a fazer é para sair disto aos quarenta. É um sonho que tenho. O que é que ainda falta? Falta duplicar, triplicar, isto num curto/médio prazo, as atuações que um stand up comedian pode fazer. Fiz no último ano 40 espetáculos; espero vir a fazer 120. É muito difícil, mas é para aí que vamos caminhar. Como é que se está a fazer isso? Indo aos teatros, abrindo novos teatros, ganhando a credibilidade do stand up enquanto espetáculo, gravando os espetáculos com cada vez mais qualidade – acho que o trabalho da Netflix está bom, mas ainda se pode fazer com mais qualidade. Gostaria de um dia fazer stand up em inglês; é um sonho que tenho, não necessariamente conquistar o mundo a fazer stand up em inglês, porque não sei se vou a tempo disso, mas quero ter essa experiência. Gostava muito de viver um ano em Amsterdão a fazer stand up em inglês.

Faltam bares? Na última entrevista falámos da dificuldade de manter o Lisbon Comedy Club e o espaço entretanto fechou…

Faltam. Eu agora estive na inauguração do Aveiro Comedy Club: uns rapazes de uma associação muito fixe arranjaram um bar perfeito, que era o Azulejo Bar, e aquilo é perfeito para stand up. Era bom que em cada cidade houvesse jovens como aqueles, que abriram um espaço underground. Existe o teatro Aveirense e depois existe aquele bar, com uma lotação de 75 pessoas. Se todas as grandes cidades tivessem um bom comedy club… Falta abrir mais onze comedy clubs. Lisboa devia obrigatoriamente ter um. No que eu puder ajudar, a malta que se chegue à frente, que pode contar comigo.

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 O Zé Diogo Quintela deixou de fazer comédia para abrir padarias, já tu vais fazer o mesmo mas para abrir comedy clubs, é isso?

Isso é uma questão. De repente os humoristas são empurrados para a gestão. Eu não me vejo nesse papel porque gosto mais de ser artista. Já me tentaste empurrar para professor, dono de um comedy club, e de repente sinto-me do lado de lá. Estou mais velho e isto passa a ser um business. Depois dos quarenta, talvez. Se calhar um dia retiro-me e estou nesse lado; não que não esteja já, até porque sou um bocadinho empresário e artista, uma vez que faço a gestão do meu stand up. Eu a H2N somos os dois sócios nisto.

Essa cessação de funções aos quarenta tem algum objetivo em particular?

Existem muitas razões, e gosto de falar disto com as pessoas para elas perceberem se estou maluco, mas sobretudo porque me quero dedicar mais ao lado familiar — como tu tens sempre um próximo passo, a ambição não tem limites nesta vida; um dia consigo fazer 120 espetáculos grandes por ano e vais-me estar a ouvir dizer que o passo a seguir é fazer uma digressão mundial, depois da digressão mundial vais-me ver a querer ser o primeiro humorista a fazer stand up na lua; até já há shuttles e tudo. A ambição não tem fim, e se não há fim, tenho de ser eu a definir onde é que ela acaba, até para conseguir ter uma vida mais recatada. Eu agora vivo para criar, e era fixe viver um bocadinho, talvez sem criar.

No entanto, torna-se complicado quando também vives apenas e só do que crias.

Talvez um dia já consiga fazer uma caminha, poupar para um dia chegar a esse ponto. Pode dar-se o caso de apenas escrever humor, sem aparecer em público, até porque é muito desgastante, muito cansativo. Esta vida leva-te à infelicidade; agora ainda estou a curtir, até porque sou jovem, mas pode ser que um dia deixe de curtir, e é nesse ponto que quero cortar.

No fundo, abandonar mais a figura pública do que abandonar o humor?

É isso. Aos quarenta anos passo a ser o Herberto Helder.

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