O plano megalómeno de Elon Musk para colonizar Marte


Depois de meses de antecipação, o CEO da SpaceX Elon Musk subiu finalmente esta terça-feira ao placo do Congresso Internacional de Astronáutica, em Guadalajara, no México, para apresentar o seu plano para tornar os humanos numa espécie interplanetária, levando-os a Marte e mais além.

Momentos antes desta apresentação, a SpaceX lançara um vídeo futurísta onde é apresentado o Sistema de Transporte Interplanetário, composto por foguetões reutilizáveis e vaivéns gigantes capazes de transportar até 100 pessoas, e como todo este sistema de transporte irá funcionar.

De acordo com Musk, um milhão de pessoas poderão já estar a viver em Marte nos anos 2060. Mas será assim tão fácil concretizar este plano neste curto espaço de tempo como Musk nos faz crer?

Apesar do entusiasmo contagiante de Elon Musk durante a apresentação,  existem algumas questões cruciais para o sucesso desta missão e, em particular, na colonização de outros planetas. No geral, Musk focou-se no transporte até ao planeta vizinho, descrevendo todo o processo para lá chegar e os custos envolvidos, mas pouco foi dito sobre o que será feito durante a viajem para manter as pessoas a bordo saudáveis.

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Musk prometeu diversão com restaurantes e jogos com gravidade zero, mas não foi especificado como é que passageiros irão passar o tempo e, fundamentalmente, sobreviver à viajem cuja duração a SpaceX espera que seja entre 80 e 150 dias.

De facto, os níveis altos de radiação a que as pessoas estarão sujeitas durante a viajem até ao planeta vermelho é de grande preocupação. O campo magnético da Terra protege-nos desta radiação e, como tal, não é conhecido o efeito que esta poderá ter no corpo humano. No entanto, Elon Musk não pareceu muito preocupado com esta questão, afirmando que “vai haver algum risco de radiação, mas que não será fatal”.

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E ainda que possa haver formas de bloquear a radiação, há um problema a que os viajantes espaciais não poderão escapar: a microgravidade. Quando não existe gravidade a actuar no corpo humano, os ossos perdem densidade a uma velocidade de 1% por mês, uma descida drástica quando comparada com os 1.5% por ano que acontece a pessoas com idade avançada na Terra. Os músculos irão também ser afectados, começando a atrofiar já que não é necessário nenhum esforço para flutuar no espaço. Mais ainda, os fluídos corporais sobem à cabeça nestas condições, o que provoca uma pressão nos olhos podendo levar a problemas de visão.

Elon Musk parece, no entanto, consciente dos riscos do transporte de pessoas até Marte: “Eu acho que as primeiras viagens até Marte serão muito, muito perigosas. O risco de fatalidade será elevado. Não há volta a dar a esta questão. Será basicamente perguntar: ‘Estás preparado para morrer?’ Se sim, então és um candidato a ir.”

Mas para além de todos estes problemas que são já bastante preocupantes, durante a apresentação da SpaceX não foi referida uma única vez onde e como vão viver os colonistas que chegam a Marte, questões que nos parecem fundamental para o sucesso da colonização de outros planetas. De facto, Musk parece apenas querer construir uma rede de transporte que levará pessoas até Marte, afirmando que “assim que a rede de transporte estiver construída, haverá oportunidades únicas para quem quiser ir a Marte e criar algo novo ou construir as bases de um novo planeta”.

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No entanto, criar uma civilização auto-sustentável não será tarefa fácil, já que para os colonistas sobreviverem terá de ser construído um habitat capaz de produzir ar respirável, de purificar e reutilizar água, e de produzir alimentos, já que o solo em Marte contém sais tóxicos para os humanos.

Existe também o problema da radiação que chega até Marte, pois a atmosfera deste planeta apenas é capaz de bloquear uma pequena parte da radiação. Musk disse que poderia ser criado um campo magnético artificial para deflectir as partículas altamente energéticas, mas não forneceu informação de como o fazer. Também não foi feita nenhuma referência à gravidade reduzida de Marte (cerca de um terço da gravidade do nosso planeta), facto importante uma vez que não se conhecem os efeitos que poderão resultar de viver períodos longos nestas condições gravitacionais.

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Finalmente, existe a questão de como todo este plano será financiado, já que a SpaceX não tem capacidade de financiar sozinha uma única viajem a Marte. Para Musk, isto será apenas possível com uma parceria público-privada, juntado os próprios lucros da SpaceX, investidores privados e possivelmente o governo. Musk prevê que o preço inicial para levar uma pessoa a Marte ronde os 10 mil milhões de dólares. No entanto, Musk pretende que o preço do bilhete chegue eventualmente a cerca de $100,000, de modo a tornar a colonização de Marte possível.

A SpaceX de Elon Musk já provou mais de que uma vez que é capaz de produzir equipamentos e foguetões de qualidade que resultaram em avanços históricos na indústria aeroespacial. Mas o sucesso em tornar os humanos numa espécie interplanetária não se resume apenas em produzir foguetões e vaivéns capazes de lever humanos até Marte a um custo razoável; é fundamental garantir a segurança e a saúde das pessoas que embarcam nesta aventura, e que é possível chegar a Marte em condições saudáveis para começar a colonização deste planeta.

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