À conversa com a dona da Culsete, a histórica livraria de Setúbal que esteve para fechar este mês


As fachadas das cidades estão diferentes e em constante mudança. Todos os dias pelas cidades portugueses fecham negócios com história sem que lhes seja prestada a devida homenagem. A paisagem renova-se e à falta da nossa atenção multiplicam-se os franchisings inconfundíveisos low-cost impactantes e as imitações nacionais dos luminosos diners americanos.

As cidades tornam-se cada vez vazias do seu sentido comunitário, cada vez mais desertas e sem uma cultura própria ou identitária que outrora foi forjada com esforço e dedicação dos mais atentos e audazes. A Culsete é um desses exemplos, bem no centro da cidade de Setúbal. Com um nome que não deixa dúvidas do seu local e um estilo revelador do seu tempo, foi durante mais de 40 anos um ponto central de distribuição cultural, tornando-se ela própria num símbolo desta cultura.

Com uma presença muito activa e as portas sempre abertas à comunidade, a Culsete excedeu-se pela audácia de quem a sonhou. Num ponto de encontro de ideias.

Foi sob esta premissa que depois de algumas visitas à livraria e depois da saber da alta probabilidade de término do projecto, quisemos falar com Fátima Ribeiro Medeiros, esposa de Manuel Medeiros, o histórico livreiro do Nosso Tempo.

Quando foi fundada a Culsete e como foi manter uma livraria durante tantos anos?

A Culsete foi fundada em 7 de Julho de 1973 e começou logo no final desse mês por fazer uma Feira do Livro na Feira de Sant’iago. Em 1 de Outubro desse ano, abria definitivamente a porta ao público. Os primeiros passos foram difíceis, mas conseguimos fazer a nossa primeira época escolar e o nosso primeiro Natal, tradicionalmente os pontos fortes da livraria em termos de vendas para um grande leque de leitores. O nosso atendimento sempre primou pelo contacto individual, pessoa a pessoa, procurando conhecer os gostos e interesses dos nossos leitores, de forma a podermos surpreendê-los com as nossas sugestões.

Como sempre fomos livreiros por paixão e dedicação, a nossa prioridade sempre foi a animação do livro e a mediação da leitura. Formar leitores, e vê-los crescer enquanto tal, foi um sonho tornado realidade vezes sem conta. Há uma frase que sempre espalhámos por todos os lados onde levámos os nossos livros: “sem leitura não há cultura e sem cultura não há progresso”. Estas premissas aparentemente simples, mas, por vezes, tão difíceis de implementar, por razões diversas, sempre nos acompanharam e ainda hoje estão presentes. Querer partilhar nesta recta final da nossa existência tantos e tão bons livros (“muitos livros, muito bons”, como se lê num dos cantos da livraria) é ainda um exercício de mediação de leitura. Ao chegarem aos leitores, os livros salvam-se de um fim trágico, como muitas vezes acontece, e vão cumprir o seu melhor destino, ser lidos. “O livro é para ser lido”, outra frase que temos repetido ao longo dos anos.

Estivemos de portas abertas durante quarenta e três anos, de muito trabalho, muita entrega, muito sonho, de olhos muito abertos para as pessoas, de olhos muito abertos para a realidade portuguesa, de olhos muito abertos para o mundo. Procurando agir através do livro, procurando fazer a nossa parte para que a mudança de mentalidades fosse um facto. Para isso foi necessário muito dinamismo, muita atenção aos outros, muito trabalho a vários níveis, muita imaginação, muita criatividade, muita leitura, muita reflexão, muita seriedade, e… desculpem-me a imodéstia, algum conhecimento. Também foi preciso ganhar a confiança dos parceiros, fornecedores, colaboradores, instituições, leitores. De todos. Isso levou-nos a trabalhar sem descanso muitas horas durante dias, semanas e meses a fio. Mas respirando sempre o mesmo ideal. Muito trabalho, muito sacrifício pessoal. A Culsete mais do que um modo de vida foi um modo de ser e de estar no mundo.Os livros sempre estiveram no meu ADN e vão continuar a estar.

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Como surge uma livraria como a Culsete no panorama setubalense? Que particularidades da cidade nessa época tornaram a história da livraria tão rica?

O Manuel Medeiros criou em 1969, em Lisboa, uma livraria, a Nosso Tempo, com algumas das característica da Culsete. Alguns setubalenses quiseram, em 1970, abraçar um projecto que. com alguns contornos diferentes, tivesse pontos em comum com os do Manuel. Convidaram-no a vir trabalhar para Setúbal, o que aconteceu, e assim nasceu a Culdex, a “mãe” da Culsete. Por razões que não vêm agora ao caso, a Culdex teve de fechar em inícios de 1973. Entretanto, o Manuel conheceu-me, unimos as nossas vidas e os nossos projectos passaram a ser um só. Foi então que projectámos a Culsete, que não assumiria todas as vertentes da Culdex e que traria novas formas de abordagem ao livro, na altura completamente inovadoras no meio editorial e livreiro português. Fomos pioneiros em muita coisa, o que sempre marcou a nossa singularidade e a nossa identidade.

Desde 1973, muita coisa mudou em Setúbal no campo cultural, nomeadamente nos índices de leitura. Hoje lê-se muito mais. Poderemos discutir se o que se lê é efectivamente aquilo que se devia ler, mas essa é já outra questão e, se entro por ela esta entrevista não será lida, pois corre o risco de ficar demasiado longa. Hoje ninguém tem medo de entrar numa livraria e lembro-me muito bem de, até aos anos de 1980, haver gente que mal se atrevia a passar da porta e o verbalizava, afirmando que isto de livrarias era para os senhores doutores e coisas do género. Muita gente me dizia nesse tempo: “é a primeira vez que entro numa livraria”. Hoje essa questão não se põe de forma alguma. Mas ainda hoje muita gente não verbaliza a palavra “livraria”. Dizem papelaria, como se fosse um sinónimo. É estranho, não é?

A Culsete foi-se fazendo aos poucos com a nossa perseverança, teimosia e competência, as nossas actividades, a colaboração dos nossos convidados (muitos deles nossos leitores), e com todos os que gostavam e gostam de cá passar alguns momentos dos seus dias, para conversar, ler, ver e comprar livros. Nós fomos dando o que tínhamos para oferecer à cidade e não só, a todo o distrito. E a cidade foi-se abrindo, foi crescendo. Foi um dar e receber. Mas eu tenho consciência do quão importante a Culsete foi para esse crescimento. O caminho faz-se caminhando, já dizia o poeta. A história da livraria fez-se no dia-a-dia, por entre o trabalho duro e o prazer de ler e dar a ler. Hoje somos um património simbólico de todos que não desaparecerá porque se mantém vivo na memória, porque se enquadra no domínio dos nossos afetos.

Mais dia, menos dia, a sua história vai ser contada em livro e essa memória ficará guardada para sempre.

Setúbal vai sentir a falta de um dos seus pilares culturais. Vê alguma projecto com potencial na área da cultura que possa pelo menos servir de ponto de encontro?

Era bom que alguém pudesse dar alguma continuidade a este projecto. Nunca seria a mesma coisa, mas seria qualquer coisa. Algumas pessoas têm-se mostrado interessadas, mas ainda ninguém teve a coragem de avançar. Porque uma entrega como a nossa precisa de uma boa dose de entrega e coragem. Os projectos hão de nascer se as pessoas quiserem. A nossa vontade, a nossa força fazem acontecer.

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E quanto aos livros, sente que tem havido renovação dos públicos ou a idade de quem lê tende a ir aumentando?

Claro que há renovação de públicos. E vocês são a prova disso. Essa sensação de que só os mais velhos lêem é apenas uma sensação. Em todas as gerações há gente que lê, de diferentes formas e a diversos níveis de profundidade, mas que efectivamente lê. Procura livros, pede-os emprestados, compra-os. Um verdadeiro leitor não se contenta apenas em ler emprestado, tem de ter os seus livros junto a si, tocar-lhes, senti-los, por vezes nem gosta de os partilhar.

Os menos motivados estão, segundo a minha experiência, na faixa dos 40/50 anos. Mas também há uma explicação para isso, que se prende com os tempos livres de qualidade, com o apoio familiar, com a precariedade de emprego e muitas outras causas sociais. Hoje lê-se de várias formas, usando diferentes suportes, mas o livro é ainda o privilegiado. Todos os leitores são chamados a empenhar-se na promoção da leitura. Se o fizerem na sua esfera de acção, estarão a contribuir para alargar o número de leitores.

Apesar de já não serem proibidos continuam a poder ser marginais? É difícil convencer alguém a ler um livro… é aí que a cultura da livraria ganha importância?

Há livros que sempre foram e continuarão a ser leitura de um nicho de leitores, mas não os chamaria marginais. Os livros no seu todo não são nada marginais. O que é ser marginal? Todos nós temos com maior ou menor profundidade a nossa dimensão de marginalidade, que pode estender-se a tanta coisa… Não considero de maneira nenhuma o consumo do livro um consumo marginal.
E quanto a convencer alguém… É difícil, mas tão compensador! O que é mais difícil é descobrir o livro certo para o conseguir. Quando alguém se encontra com o SEU livro, esse é um encontro para a vida. Se ele toca em determinado ponto do um ser, ele nunca mais deixará de ler. Já vivi essa experiência inúmeras vezes.

Isso devia acontecer entre os seis e os dezoito meses. Mas pode acontecer em qualquer altura da vida. E qualquer mediador de leitura o pode fazer, o livreiro, a família, o professor, o bibliotecário, qualquer um. Claro que isso acontece bastante numa livraria como a nossa, cujo objectivo principal é promover a leitura. Porque o livro não é nada sem a leitura. Não podemos, porém, esquecer que há quem não leia. Ponto. Não são capazes, por muito que os tentemos motivar. E há que aceitar isso. Todos conhecemos alguém assim. Não vale a pena ficarmos infelizes por isso. Não há nada a fazer.

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Se tivesse de recomendar 3 livros, que lhe tenham passado pelas mãos, quais seriam e, sucintamente, porquê?

Para mim não chega que um livro me passe apenas pelas mãos, tem de me atravessar o olhar, atingir as minhas emoções, a minha racionalidade. Se eu tivesse que recomendar algum livro teria de saber a quem. Um grande livro recomendado a um leitor que não está preparado para o ler pode não significar nada para ele e até afastá-lo da leitura. Daí que não seja nada apologista deste tipo de recomendações. A minha sugestão é que se deixem perder nas estantes de uma livraria, sintam os cheiros dos livros, os mais recentes, os mais antigos, e escolham um livro que dialogue convosco. Deixem-se seduzir. Todos os bons livros tem um quê de inesquecível. Todos os livros que escolhemos desta forma ajudam a contar a nossa história, alargando a esfera da sua receção.

Posso dizer-vos que por estes dias me tem feito muito bem reler os 50 Haiku, escritos por Bashô e outros cultores do género, traduzidos por Paulo Rocha e editados pela Moraes, em 1970. Quem for procurar na internet (o livro está esgotadíssimo) vai certamente ficar rendido ao género. Boas leituras!

Fotos de: Marco Brandão/Shifter

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