‘Back To Black’, de Amy Winehouse, faz 10 anos


E se Amy Winehouse tivesse editado nos anos 60? Arrisquemos: Frank (2003) seria o típico primeiro disco, com covers a intervalar os originais, um teste. Back To Black seria a confirmação, o primeiro grande álbum, um Bringing It All Back Home, um Rubber Soul, um Today!. O afastamento, nesta comparação, das discografias soul e r&b que marcaram a década de 60 é propositada, até porque Back To Black supera catalogações.

2006, ano de estreias discográficas para Corinne Bailey Rae e Lily Allen. Joss Stone já tinha dois álbuns na gaveta e preparava o terceiro. A primeira era demasiado doce, a segunda fazia-se valer de forçadas e constantes provocações, a terceira soava a criação de uma major. Amy Winehouse era outra coisa, as definições podem variar de pessoas para pessoa, mas há uma ideia-chave que fica: real. Amy Winehouse era real em tudo o que a sua realidade tinha de bom e mau. A história, essa, sabemos todos como acaba e conta com vários culpados que não cabe a este texto esmiuçar. Notemos apenas que o musicOMH.com, no primeiro parágrafo da sua crítica, sugere que o súbito interesse dos tabloides de reportarem a drástica perda de peso (rumores de bulimia) e os elevados consumos de álcool de Amy seria um PR stunt. E se o trágico fim de Amy Winehouse tiver começado com um PR stunt?

Não será inocente que Back To Black arranque rejeitando a clinica de reabilitação e termine com uma espécie de confissão, embora em tom espirituoso: “Addicted”. Pelo meio, aprofunda sentimentos contraditórios, mas quase sempre num registo masoquista. A autocomiseração é técnica para tentar fechar as feridas que vão sendo regadas por constantes referências ao álcool. É verdade que a Internet já estaria na sua fase adulta, mas Amy Winehouse pode ter sido atropelada pelo mediatismo do século XXI. A produção de Mark Ronson e Salaam Remi (já lá estava desde Frank) aproxima Back To Black de outras linguagens, mas as letras colocam a cabeça de Amy estava noutras décadas: Donny Hathaway, Ray Charles, Roger Moore, Slick Rick. Artista em 2006, presa em 1976.

Não é justo ignorar Frank e pode soar controverso: Amy Winehouse atinge o estatuto de artista global no momento em que encontra um estilo de vida errático. As histórias que aqui encontramos são tristes, mas são as suas, algo que o grime também ia explorando num outro ponto cardeal londrino, com histórias e descrições pormenorizadas, com The Streets à cabeça. Não é pelo teor das canções: Ray charles, um dos seus heróis já usara a erva como protagonista de uma canção há mais de 40 anos, mas raramente vimos alguém despir-se de forma tão nítida à nossa frente. É como se Amy Winehouse, à imagem de J. Dilla e Bowie, tivesse preparado o seu disco de despedida cinco anos antes do seu desaparecimento. Não é fácil regressar a este disco até porque está bem mais assombrado que os demais.

Na altura, os textos não lhes deram grande destaque, mas as atuações que quase salvaram concertos fizeram-lhes justiça: honra seja feita aos Dap Kings que tanto têm pelo revivalismo soul/r&b. Amy Winehouse, 23 anos, tão bem acompanhada em palco, tão mal acompanhada fora dele.

Curiosidades:

  • Tanto Amy Winehouse como John Legend usam um sample de “(My Girl) She is a Fox”, de The Icemen. Ela em “He Can Only Hold Her”, ele em “Slow Dance”. Curiosamente, tanto Winehouse como Legend editaram o seu 2º álbum na mesma semana, dias 27 e 24, respectivamente;
  • Segundo as anotações de Darcus Beese (o homem que a terá descoberto) no Genius, “Rehab” recebeu 3 Grammys: “Songo of the Year”,, “Female Pop Vocal Performance” e “Record of the Year”. Quando lhe foi comunicado, a reação terá sido um “eh.”;
  • “Tears Dry on Their Own” sampla “Ain’t No Mountain High Enough”, o clássico de Marvin Gaye e Tammi Terrell.
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