Os Boa Mistura surpreenderam tudo e todos em Abrantes


O 180 Creative Camp de 2016 chegou ao fim. Foram oito dias carregados de atividades, emoção e muita criatividade. Entre as inúmeras recordações, algumas ficaram registadas também nas paredes de Abrantes. Não importa se é pela grande dimensão ou pelo desafio que colocar ao olhar do espetador, é impossível passar ao lado do trabalho dos Boa Mistura.

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O festival da criatividade promovido pelo Canal 180 não pretende apenas marcar os seus participantes, mas igualmente contribuir para o enriquecimento do espaço onde decorre. Nesse sentido, a cidade de Abrantes só teve a ganhar com a participação dos Boa Mistura. Um dos workshops a decorrer durante toda a semana esteve a cargo deste coletivo madrileno e era focado na sua expressão artística e na forma como a mesma se relaciona com o espaço público.

O portfólio dos Boa Mistura não se esgota na técnica do anaformismo. O mesmo é verdade para as suas intervenções na cidade de Abrantes. Contudo, é o uso dessa solução artística que mais facilmente os distingue no universo da arte contemporânea e naturalmente aquela com que mais depressa são identificados. Dessa forma, houve tempo e superfície mural para uma intervenção mais convencional, mas é nas restantes que podemos observar o traço mais próprio dos Boa Mistura.

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A técnica do anaformismo, ou anamorfosis, consiste na distorção da imagem criando uma ilusão de ótica. Assim, a obra torna-se impercetível exceto quando observada de uma determinada perspetiva. Embora não seja uma técnica recente, os Boa Mistura inovam ao trazê-la em grande dimensões para o espaço público. Em alguns dos exemplos mais conhecidos, como a tela Os Embaixadores de Hans Holbein, o Jovem, é necessário o recurso ao reflexo de um espelho para apreendermos o que foi pintado.

No caso dos Boa Mistura existe o mesmo jogo com a perspetiva, mas dispensa-se qualquer auxílio para descodificar o resultado final. Basta posicionarmo-nos no sítio certo. De qualquer outro local, exceto o ponto a partir do qual a equipa projetou a palavra ou expressão pintada na parede, somos privados de uma apreciação plena.

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“Transição”, podemos ler no claustro do antigo Convento de São Domingos. O primeiro trabalho executado pelos Boa Mistura, com a ajuda dos participantes do 180 Creative Camp, percorre o piso térreo e o andar superior de duas galerias do claustro. Por sua vez, a palavra não podia ser mais apropriada. Não só porque aquele é um espaço tradicionalmente de transferência de pessoas e ideias, mas também porque o mesmo se encontra em plena transformação rumo a uma utilização absolutamente profana.

Noutro ponto da cidade podemos observar “Silêncio”. Cruzando a superfície de quatro edifícios diferentes, é uma obra de caráter irónico. No centro encontra-se um cruzamento viário movimentado, assim como a esplanada de um dos restaurantes preferidos dos participantes do Creative Camp e dos próprios Boa Mistura.

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Seja pelos veículos que frequentemente ali passam, seja pelas incontáveis conversas que vão tendo lugar às mesas do restaurante, silêncio só mesmo quando lemos aquelas paredes pintadas. Por outro lado, não há conceito mais relacionado com a palavra do que o silêncio. Este tanto pode ser aquilo em que a palavra dita existe por oposição como o reino em que se desfruta da mesma quando escrita.

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Estava prevista ainda uma terceira intervenção em Abrantes durante o festival. Desta vez a palavra planeada era “Coração”. Porém, sendo impossível agradar a gregos e troianos, a recusa de uma moradora abrantina impossibilitou a concretização da obra. Não importa que os Boa Mistura não tenham podido deixar também a palavra “coração” pintada nas paredes de Abrantes, pois deixaram um pedaço de si próprios. Deixaram um pedaço do seu coração na cidade e nos seus habitantes, seja nos de sempre seja nos que apenas o foram durante a semana que durou o campo criativo.

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