Amadeo de Souza Cardoso: o segredo continua por desvendar


O documentário Amadeo de Souza Cardoso: O Último Segredo da Arte Moderna foi realizado no âmbito da mais recente exposição dedicada ao pintor português. Em conjunto com a mostra, que está a decorrer no Grand Palais em Paris, o documentário realizado por Cristophe Fonseca procura dar a conhecer Amadeo ao mundo e, assim, inscrevê-lo na história da arte internacional.

A antestreia teve lugar em meados de Abril na Fundação Calouste Gulbenkian, cujo Grande Auditório encheu para assistir ao documentário. Aqueles que não conseguiram estar presentes, puderam visualizá-lo mais tarde na RTP. Entretanto, o mesmo foi colocado à disposição do público em DVD. O filme desenvolve-se em duas linhas principais. Por um lado, a biografia de Amadeo de Souza Cardoso e, por outro, a investigação que vem sendo feita sobre este pintor.

No entanto, em nenhuma dessas frentes o filme é particularmente brilhante. No domínio biográfico, começa por apresentar algumas lacunas. Nomeadamente, na relação de Amadeo com o seu país natal. Não se trata de um fraquinho patriótico da nossa parte, nada disso. Apenas se torna difícil de compreender que sejam completamente esquecidos momentos fundamentais do seu percurso artístico. Por exemplo, a polémica exposição de 1916 no Porto ou a relação com outros criadores portugueses, como José de Almada Negreiros, Eduardo Viana ou Fernando Pessoa. Ainda no campo biográfico, é curioso apontar o erro na data da morte do próprio artista. Seguramente um lapso, mas que nos recorda como até numa produção deste tamanho, com consultores científicos, é impossível controlar todos os detalhes.

Mesmo que este tipo de lacunas não existisse, a abordagem biográfica de Amadeo de Souza Cardoso: O Último Segredo da Arte Moderna pecaria por trazer pouco de novo. Na verdade, não dista muito do documentário congénere Amadeo de Souza Cardoso: À Velocidade da Inquietação, de 2012. Ainda assim, distingue-se deste no segundo aspecto que define o mais recente documentário sobre o pintor, o da investigação. Nomeadamente pela participação de historiadores da arte e curadores estrangeiros.

Porém, essa iniciativa apenas vem diversificar os idiomas daquilo que é dito sobre Amadeo. Aqui reside o principal problema do filme. A legitimação da obra de Souza Cardoso, para além de nunca aprofundar verdadeiramente os argumentos apresentados, acaba por encadeá-los num ciclo vicioso. Isto é, a genialidade do pintor é sempre legitimada pela presença de outros artistas estrangeiros. Seja por ter partilhado o atelier com estes, como fez com Amadeo Modigliani, seja porque teve as suas obras nas mesmas exposições em que participaram tantos outros nomes. Amadeo é genial porque expôs com determinado artista, se expôs com determinado artista é genial e assim por diante. Nunca lhe é conferida autonomia. Nunca vale por si próprio, mas apenas porque esteve ao lado daqueles que hoje não hesitamos em identificar como vultos maiores da história da arte.

Por outro lado, o documentário apresenta um travo propagandístico. Sobretudo para nos lembrar que a equipa da Fundação Calouste Gulbenkian tem estudado Amadeo de Souza Cardoso, assim como a instituição é proprietária de um grande número de obras do pintor e documentação ligada ao artista. Não está em causa o papel ímpar que a fundação tem na revitalização dos trabalhos de Souza Cardoso, que não se esgota nesta iniciativa. No entanto, talvez fosse mais interessante dedicar esse tempo de película desafiando o espectador para um olhar diferente sobre o pintor e mais desligado da biografia deste.

Simultaneamente, não deixa de ser interessante refletirmos a propósito do paradoxo que é a mesma instituição, que tanto tem feito por Amadeo de Souza Cardoso, manter a maioria da sua obra nas reservas. De que serve dar a conhecer um pintor ao mundo quando é necessário esperar por situações de exceção, como a presente mostra em Paris, para podermos observar demoradamente a sua obra? Desde a última vez que uma seleção considerável da produção artística de Souza Cardoso esteve exposta já passaram três anos.

Por último, há que destacar Amadeo de Souza Cardoso: O Último Segredo da Arte Moderna em termos técnicos. Embora os aspectos anteriores o condenem enquanto um contributo relevante para a discussão em torno da obra de Amadeo, trata-se de um documentário bem filmado. Por exemplo, apesar de talvez mais expectáveis num anúncio do turismo de Portugal, os planos aéreos desempenham um papel interessante ao captarem a geografia do norte do país. São preenchimentos interessantes, que nada tinham perdido em serem acompanhados de outras soluções. Como encenações, por exemplo, uma vez que a biografia é um pedaço tão importante deste documentário.

Não escasseiam pontos em que o mais recente documentário sobre Amadeo deixa a desejar e que provavelmente o vão afastar do objectivo com que foi pensado, contribuir para colocar o pintor português na história da arte internacional. Essencialmente, peca por não conseguir desafiar o espectador. Em vez disso, emaranha-o numa repetição das mesmas caras e ideias, quase nos convencendo que se esgotaram ali as perspectivas possíveis sobre Amadeo de Souza Cardoso. Pelo menos, esperemos que contribua para a divulgação do nome do pintor.

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