O que é que Mark Zuckerberg veio dizer, desta vez, a Barcelona?


No ano passado, adormeceu-nos. No domingo, surpreendeu-nos. Ontem, falou-nos de Internet.org, o ambicioso projecto do Facebook e de um consórcio de empresas para conectar todo o mundo à grande rede. Depois de uma aparição surpresa na keynote da Samsung, Mark Zuckerberg participou numa conversa de quase uma hora com Jessi Hempel, editora sénior da revista Wired.

Com 1,59 mil milhões de utilizadores activos mensalmente, o Facebook é a maior rede social do mundo, mas o seu crescimento está dependente do número de pessoas ligadas à net. De acordo com o último relatório do Internet.org, 4,1 mil milhões de pessoas vivem desconectados, sendo que online estão apenas 3,2 mil milhões (45% da população mundial).

Enquanto que o Internet.org é uma forma de aumentar o potencial de crescimento do Facebook, a iniciativa é de louvar. “A conectividade é um direito”, lembrou Mark Zuckerberg. “As pessoas partem sempre do pressuposto que as empresas só querem fazer dinheiro”, acrescentou lembrando que a missão do Facebook é conectar pessoas e que a rede social começou a ideia de ligar estudantes universitários.

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Para o CEO do Facebook, uma ligação à net permite o acesso a serviços básicos como um boletins meteorológicos, notícias, enciclopédias, mensagens, ferramentas de saúde e homebanking. Tudo instrumentos que, na perspectiva do executivo, deveriam estar acessíveis a todos. É por isso que uma das iniciativas do Internet.org é o Free Basics, um serviço de Internet gratuito, disponível em 30 países para cerca de 20 milhões de pessoas.

O Free Basics dá acesso gratuito a um número limitado de serviços online, como o Facebook, o Messenger, a Wikipédia, o Google Search ou o AccuWeather. Está disponível em vários países; a Índia e o Egipto deixaram de integrar essa lista. “Os países são diferentes uns dos outros”, comentou Zuckerberg, pegando na máxima incutida internamente no Facebook de que se aprende a tentar e a errar. “Foi isso que nós aprendemos [da situação que aconteceu na Índia]. Não somos uma empresa que encontra um bloqueio na estrada e fica parada.”

No entanto, o Internet.org continua activo na Índia – isto porque o Internet.org é composto de outras iniciativas, como o drone Aquila (“estamos agora a construir o segundo drone”) ou o Express Wi-fi, que permite que empreendedores possam re-vender a Internet que têm contratada com a sua operadora, expandindo assim a sua cobertura.

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Outro projecto do Internet.org é o Telecom Infra Project; foi revelado durante o MWC, em Barcelona, e consiste em parcerias com operadoras de telecomunicações para desenvolver novas tecnologias que permitam reduzir o custo das redes móveis em todo o mundo. “A nossa inspiração para esta iniciativa é o Open Compute Project, um esforço lançado em 2011 pelo Facebook, em que colocámos em open-source o nosso servidor, rede e centros de dados para promover uma colaboração que levasse a mais inovação e a poupanças de mil milhões de dólares em eficiência ao longo de toda a indústria”, escreveu o dono do Facebook no seu perfil. Este novo esforço vai seguir os mesmos princípios de tecnologia aberta e colaboração.

O executivo espera que as poupanças de custo em resultado de uma maior eficiência resultem em planos de dados mais baratos para as pessoas e permitam às operadoras estender os seus serviços para locais onde antes não era sustentável ao nível de custos operar. O Facebook está a trabalhar com mais de 30 parceiros, incluindo a Deutsche Telekom, a Intel, a Nokia e a SK Telecom para “desenvolver novas tecnologias que possibilitem conectar as pessoas de forma mais rápida e eficiente, desde a infraestrutura que permita ligar as pessoas desconectadas nos países em desenvolvimento a formas para acelerar o crescimento de redes 5G – que permitam distribuir formas mais ricas de conteúdo como vídeo e realidade virtual”:

Ao longo de toda a conversa com Jessi Hempel, Mark Zuckerberg destacou a importância da realidade virtual e do vídeo no futuro do Facebook e da Internet, e lembrou que, apesar de o desenvolvimento das redes 5G ser importante, é preciso “acabar o trabalho” com as gerações anteriores, garantindo o acesso de toda a gente às mesmas.

Invasão e privacidade no iPhone? Zuckerberg está do lado da Apple

O “não” da Apple ao FBI no caso do desbloqueio do iPhone de um alegado terrorista tem feito correr muita tinta na imprensa, e foi também motivo e conversa entre Mark Zuckerberg e a jornalista da Wired, convidada para apresentar o evento. Na resposta, o CEO do Facebook foi bastante claro: “estou simpatizante com a Apple e com o Tim [Cook]. A encriptação é algo importante para nós”.

A segurança na Internet foi abordada um pouco mais tarde mas num outro ângulo: a presença de menores e o seu contacto com as novas tecnologias. Depois de se falar de tantos avanços e do que os produtos de hoje em dia são capazes de fazer, a pergunta foi clara: “Mark, e se daqui a uns anos a tua filha estiver a utilizar tudo isto?”. O jovem milionário não se mostrou totalmente aberto à ideia, mas também não fez a faceta de um pai super-protector. Na verdade, estamos a falar de um homem que criou aquela que é atualmente a maior ferramenta da internet a ligar pessoas entre si.

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Quando Zuckerberg referiu a idade mínima para criar um perfil no Facebook ou Instagram (13 anos), a risada foi geral, mas esta é uma restrição que não se deverá aplicar ao Oculus Rift. “Ainda não discuti isso com a minha mulher”, referiu.

Por falar em realdade virtual foi um dos principais tópicos, não só devido ao investimento do Facebook nesta área mas também ao facto de Zuckerberg ter feito, no domingo, uma visita ao Unpacked da Samsung. Dar a sensação às pessoas de reviver as memórias da melhor forma possível é o seu objectivo, e portanto o CEO do Facebook diz que só vai descansar quando cada lente captar com uma resolução e qualidade suficiente para uma experiência o mais imersiva possível: “4K em cada olho”.

Os cerca de 50 minutos de conversa deram panos para mangas e muitos assuntos foram ainda abordados. O CEO referiu uma vez mais que já não programa para o Facebook, mas que mantém o objetivo de automatizar a sua casa com um programa desenvolvido por si mesmo. E sim, Zuckerberg dá-se ao luxo de criar algo tão em épico como uma casa automatizada com inteligência artificial, simplesmente para se entreter. Não é para quem quer, mas sim para quem pode.

Texto de: Mário Rui André e José Morais

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