Title Fight – ‘Hiperview’


Os Title Fight começaram em 2003 com um punk rock muito juvenil – algo justificado pela idade dos membros da banda –, e só em 2009 ganharam uma nova maturidade com o lançamento do EP The Last Thing You Forget – que, compilado com uns lançamentos anteriores, muitos consideram o primeiro álbum da banda – ao juntar ao seu punk rock melódico uma agressividade e sensibilidade emocional que já há muito não se ouvia.

Com o lançamento de Shed em 2011, a banda construiu um dos melhores álbuns de punk melódico do ano, ao balançar quase na perfeição vários elementos distintos, entre eles guitarras marteladas com power chords, outras com arpejos ultra melódicos, dois vocalistas, cada um com dois tipos de registo vocal, e ainda secções musicais super rápidas, outras a meio gás e outras bastante lentas. E se este lançamento meteu os Title Fight no meio de todas as bandas mencionadas em discussões sobre o ressurgimento do emo, o seu lançamento de 2013, Floral Green, catapultou-os para o topo da tabela.

O álbum viu a banda descartar alguma da sua antiga influência punk para se focar numa sonoridade profundamente inspirada por rock, emo e post-hardcore dos anos 90. Apesar de mais lento que o anterior, este álbum conseguiu manter a mesma energia, sendo ainda superior em termos de composição, mantendo uma poderosa sensação de catarse emocional.

Com toda esta bagagem, não será descabido assumir que, dentro da cena punk, Hyperview, o terceiro álbum da banda, era um dos mais esperados deste ano. Conseguiria este trabalho superar os anteriores em termos de energia, composição e emoção transmitida? Não. Pior: nem tenta.

Comecemos pelos singles lançados. O primeiro, “Chlorine”, deu-nos a entender que as influências shoegaze a que a banda já tinha feito olhinhos em trabalhos passados eram hoje namoro assumido, sendo que “Rose of Sharon” revelou que já havia casamento marcado e pela altura em que “Your Pain Is Mine Now” saiu cá para fora, percebemos que a relação era daquelas super possessivas em que o casal passa o tempo todo junto, não sendo possível combinar o que quer que seja com uma das metades sem que a outra se cole à festa, por menos sentido que a sua presença faça lá.

Por mais respeitável que seja ver os Title Fight abraçarem tão fervorosamente esta mudança, é difícil não ouvir este álbum sem a sensação de que, algures durante a produção, faziam lá falta umas vozes a dizer para se acalmarem no uso dos phasers e reverbs, bem como a dizer aos guitarristas que eles se esqueceram de ligar a distorção. É que se em músicas como “Murder Your Memory” esses efeitos funcionam muito bem, criando uma ambiência relaxante mas também emotiva, quando ouvimos “Mrahc” sentimos que a entrada a pés juntos que tenta dar ao ouvinte é completamente amortecida, sendo o seu impacto muito mais inconsequente do que se desejaria.

Por outro lado, também há a curiosa sensação de que a banda, apesar de todas as mudanças, acabou por não ir longe o suficiente com elas. Os efeitos soam demasiadas vezes como algo colocado nas músicas após a banda os ter ouvido pela primeira vez na vida, em vez de algo pensado e inserido para aumentar a mensagem que a banda quer transmitir, tornando-se logo no primeiro elemento a saltar aos ouvidos do ouvinte e mantendo-se na linha da frente de muitas das faixas, quando na verdade há pormenores bem mais interessantes a acontecer nas fileiras de trás. E essa é a razão pela qual este álbum é tão desapontante.

A maioria das músicas têm ideias com muito potencial, mas que viram o seu desenvolvimento interrompido pela vontade dos guitarristas em expandirem a sua pedalboard. Músicas como “Dizzy” só justificam o uso de phaser nos seus riffs para fazer jus ao nome e nada mais. “Trace Me Onto You” apresenta uma ideia que podia ter estado ao nível – talvez melhor até – que algumas das faixas de Floral Green, mas que vê a sua energia inibida pela insistência na banda em usar o mesmo tipo de roupagem sónica em praticamente todo álbum. “Hypernight” surge como a faixa mais esquizofrénica – no mau sentido – do álbum, com toda a banda a tocar a sua coisa mesmo que nada se encaixe com o restante. Ben Russin toca um ritmo que parece inspirado em American Football, enquanto o seu irmão Ned faz um riff de baixo puramente inspirado por Fugazi e os guitarristas Jamie Rhoden e Shane Moran continuam a fazer barulheira do costume com os seus efeitos.

No entanto, no meio de todos os problemas, há músicas onde a maioria das decisões de Title Fight funcionam a seu favor. Para além da já referida “Murder Your Memory”, temos a “Chlorine” que apresenta a única altura onde se consegue sentir as guitarras a imprimir energia e onde os efeitos de modulação são utilizados e enaltecidos nas partes certas. “New Vision”, da sua parte, apresenta uma bateria tocada em contratempo, enaltecendo os riffs desconcertantes das guitarras. “Liars Love” ganha ao apostar num refrão extremamente catchy e quase a dar para o pop. Do outro lado do espectro temos a “Rose Of Sharon”, que apesar de na teoria ter quase todos os floreados sonoros contra a mesma, como a voz de Ned Russin criminalmente enterrada em reverb, o baixo pouco audível, as guitarras altas demais com os efeitos e a falta de distorção do costume, consegue apresentar-se mesmo assim energética, pujante e emotiva.

No geral, em Hyperview, os Title Fight dão a impressão de que estão a correr todo o seu espectro sonoro e a ver onde é que se encaixam eventuais influências shoegaze. É um álbum que soa a uma experiência impulsiva em vez de soar a um produto pensado e a sua apreciação vai depender do quanto se aceita esta mistura de influências na sonoridade antiga da banda. Infelizmente, para mim, essa aceitação ficou-se por cerca de metade das faixas, sendo o meu gosto pelas mesmas algo reduzido por estas estarem intercaladas com a outra metade. Correndo o risco de ser demasiado punk para os fans de shoegaze e demasiado shoegaze para os fans de punk, Hyperview revela-se ser um par de passos atrás para uma banda que até agora, a cada álbum conseguia atrair fãs novos e manter os antigos.